A sua suruba de leve e a minha liberdade
Quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A sua suruba de leve e a minha liberdade

Foto: Reprodução 

Nas últimas semanas muito se discutiu a respeito da letra do funk “Só Surubinha de Leve”, com trechos explicitamente machistas e misóginos, como “só surubinha de leve / surubinha de leve / com essas filha da puta / taca bebida / depois taca pica / e abandona na rua”. Além da discussão acerca da utilização das diversas expressões de cultura para a difusão do machismo e ódio à mulher, entendemos que o mais importante é encontrar nesse tipo de manifestação as respostas para combatermos a cultura do estupro (presente no nosso imaginário popular, por exemplo, na lenda do boto) e reiterarmos a necessidade de falarmos de liberdade sexual feminina.

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Essa reflexão nada tem a ver com a criminalização do funk, que reconhecemos como estilo musical e expressão artística. Apenas não podemos nos calar diante da situação em que uma música cuja letra traz apologia à violência contra a mulher e ao estupro chega ao topo da lista das músicas mais virais do Brasil.

A que pode ser atribuído o alegado “pico de consumo nos últimos dias” da referida música antes de seu banimento no Spotify? Ainda que se trate de mera curiosidade do público, seria ético ganhar dinheiro e fama propagando a misoginia?

A música, na verdade, retrata a realidade vivenciada por nós, mulheres, todos os dias. Para quem nasceu mulher sair às ruas é sempre uma grande aventura. Afinal, mulheres livres também são estupradas.

Somos assediadas por homens nas praças, nos ônibus, nos trens, no trânsito dentro de nossos carros, nas janelas, nos bares, nos ambientes de trabalho, em todos os lugares.

Qual mulher nunca foi assediada em um bar por um sujeito que acredita verdadeiramente que um “não” é uma afronta? Qual mulher não sentiu medo de sair às ruas e ser constrangida? Qual mulher não temeu ficar sozinha em um ambiente com um homem conhecido ou não? Qual mulher não recebeu uma “cantada”, um “gracejo” de seu superior ou colega de trabalho de forma constrangedora?

Todos os dias de nossas vidas corremos o risco de ser estupradas, assediadas, vilipendiadas e tratadas como objetos, como nessas músicas, expressões da cultura patriarcal que nos envolve. E esses homens, que embebedam mulheres nas baladas para, vulneráveis, com eles terem relação sexual, são mais comuns do que imaginamos, eles estão aos nossos lados, especialmente porque a cultura do estupro é enraizada e aceita no seio social.

Não é demais salientar que estupro é a prática não consensual do sexo, imposta por violência ou ameaça de qualquer natureza. Qualquer forma de prática sexual sem consentimento de uma das partes, envolvendo ou não penetração, configura estupro. Colocar a mulher em situação de vulnerabilidade antes do ato sexual é prática criminosa, independentemente se ela aceitou ou não a bebida, se estava ou não parcialmente consciente.

A violência sexual, no entanto, não se restringe ao estupro. O assédio sexual também é violento e obviamente não se confunde com a paquera, pois, como nos ensina Márcia Tiburi, “[assédio] é uma prática antiética de opressão baseada na pressão direta a um indivíduo. O assediador é aquele que pressiona o assediado a fazer sua vontade. Ele trata o assediado como um objeto que deve lhe servir”. No caso de remanescerem dúvidas, há ainda um vídeo bem humorado sobre a questão do assédio no canal do YouTube “CNSUMB”.

Voltando à questão da cultura do estupro, esta tem por pano de fundo a objetificação do corpo feminino e o sentimento de posse do homem em relação às mulheres, fruto da sociedade patriarcal em que vivemos.

Em uma sociedade em que se admite a desigualdade entre dois seres em razão do sexo, sendo um reconhecidamente mais “frágil” que outro, é possível admitir que o sujeito mais forte se favoreça sexualmente do mais frágil e pratique condutas que ferem a sua liberdade. Se você não acredita que existe este sexismo em nossa sociedade, propomos o exercício mental de substituir a vítima de um estupro, em regra uma mulher, por um homem.

A objetificação do corpo feminino é a mesma lógica que se revela no feminicídio.

De acordo com dados divulgados pela ONU, sete em cada dez mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento da vida.

No Brasil, dos 4.762 feminicídios registrados em 2013, 50,3% foram cometidos por familiares, sendo que em 33,2% destes casos, o crime foi praticado pelo parceiro ou ex-parceiro. Isso representa 13 feminicídios diários em 2013 (Flacso/OPAS-OMS/ONU Mulheres/SPM, 2015).

Entre 1980 e 2013, 106.093 brasileiras foram vítimas de assassinato. De 2003 a 2013, o número de vítimas do sexo feminino cresceu de 3.937 para 4.762, ou seja, mais de 21% na década.

O Brasil é o quinto país com maior taxa de assassinatos femininos no mundo.

Infelizmente, em razão do mesmo preconceito e ódio machista, o Brasil tem se superado também nos crimes de homofobia. De acordo com dados levantados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em 2017, foram 179 homicídios de travestis ou transexuais, sendo que em 94% dos casos as vítimas eram do gênero feminino.

A objetificação do corpo feminino mata mulheres todos os dias, ela se utiliza de estereótipos construídos socialmente para colocar a mulher como algo não humano, mas como coisa que é utilizada por homens. Esses estereótipos recebem uma grande carga de incentivo da cultura, expressa nas mídias, propagandas, publicidades, livros, filmes e músicas. Podemos citar diversos exemplos de objetificação da pessoa mulher em obras ao longo dos tempos, que a cada época reflete o pensamento de dominação do homem com relação à mulher. 

Como nos explica Simone de Beauvoir:

[…] originalmente os homens escravizaram a mulher. A desvalorização da feminilidade foi uma etapa necessária da evolução humana; mas ela teria podido engendrar uma colaboração entre os dois sexos. A opressão explica-se pela tendência do existente para fugir de si, alienando-se no outro, que ele oprime para tal fim; hoje essa tendência se encontra em cada homem singular: e a imensa maioria a ela cede; o marido procura-se em sua esposa, o amante em sua amante, sob a figura de uma estátua de pedra; ele procura nela o mito de sua virilidade, de sua soberania, de sua realidade imediata. “Meu marido nunca vai ao cinema”, diz a mulher, e a incerta opinião masculina imprime-se no mármore da eternidade. Mas ele próprio é escravo de seu duplo; que trabalho para edificar uma imagem dentro da qual ele se encontre sempre em perigo! Ela funda-se apesar de tudo na caprichosa liberdade das mulheres, que é preciso sem cessar tornar propícia; o homem é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, representa comédias, a fim de que lhe representem outras; é também agressivo, inquieto, tem hostilidade contra as mulheres porque tem medo delas, porque tem medo do personagem com quem se confunde. Quanto tempo e quantas forças desperdiça para liquidar, sublimar, transferir complexos, falando das mulheres, seduzindo-as, temendo-as! Ele seria libertado libertando-as. Mas é precisamente o que receia. Obstina-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada [1].

Neste raciocínio, o respeito à liberdade sexual da mulher é algo que em uma cultura patriarcal causa medo para a figura masculina, porque o homem não se enxerga igual à mulher. Ele precisa de alguma forma reproduzir em seu meio a opressão do sistema em que vive. Necessita de algo que se envolve em uma aparência de sua propriedade em um sistema em que as pessoas são proprietárias de coisas e nelas se transformam para o exercício do poder de dominação umas sobre as outras.

Em uma estrutura social em que as mulheres são objetificadas, encher uma delas de bebida, ter relações sexuais e abandonar ou seja lá o que for é mais comum do que se imagina.

Pior ainda é a naturalidade com que o autor defende a letra da música em entrevista concedida em programa de televisão, alegando que foi mal interpretada, ou seja, deslocando o problema do emissor para o receptor da mensagem. A música choca, mas é a realidade incomodando aqueles que se afundam em seus episódios diários de “black mirror” e se chocam com aquilo que é estampado na ficção.

A violência sexual, física ou moral, está em pauta na internet e nas redes sociais há algum tempo. A campanha “Chega de fiufiu” foi criada em 2013 pela ONG feminista Olga para abordar o assédio sexual em espaços públicos. O sucesso da campanha e a adesão à pesquisa dela decorrente foram surpreendentes e resultaram num importante levantamento virtual sobre a violência de gênero, cuja leitura é bastante elucidativa.

A campanha #meuprimeiroassedio, também criada pela Olga em 2015, foi a resposta ao deplorável episódio em que uma menina de 12 anos que foi alvo de comentários de cunho sexual na internet durante sua participação em um reality show de culinária.

Foram mais de 82 mil postagens com a #meuprimeiroassedio e mais de 3.100 histórias sobre o primeiro assédio sofrido compartilhadas.

No campo televisivo brasileiro, houve ainda em 2017 a criação da campanha #MexeuComUmaMexeuComTodas #chegadeassedio por parte de atrizes e demais trabalhadoras da Rede Globo em apoio à figurinista Su Tonani, que denunciou publicamente o ator José Mayer por assédio sexual e moral. Estes são alguns exemplos de reações nas redes sociais a fatos específicos, mas que se tornam grandes movimentos.

A pauta do combate à violência sexual tem sido mais midiaticamente divulgada após a eclosão da campanha  #MeToo (“eu também”), iniciada em outubro de 2017 pela atriz Alyssa Milano ao denunciar o poderoso produtor da indústria cinematográfica Harvey Weinstein por assédio sexual. Em seguida, surgiram inúmeros relatos de vítimas deste homem, em geral atrizes, em evidente condição de sujeição, uma vez que qualquer reação poderia significar colocar em risco suas carreiras. Tais relatos encorajaram mulheres de todo o mundo a dar visibilidade ao problema do abuso sexual, com postagens de relatos pessoais marcados com #MeToo.

Não houve nenhuma oposição relevante por parte de homens contra a campanha. Ao contrário. Houve um silêncio eloquente. A campanha inspirou o surgimento de outras iniciativas como #BalanceTonPorc e #TIMESUP e provocou um interessante debate entre francesas e estadunidenses sobre liberdade e violência sexuais.

Sobre o suposto “puritanismo sexual” atribuído por um grupo de feministas francesas ao #MeToo, concordamos com a antropóloga Heloísa Buarque de Almeida que esclarece em entrevista concedida ao jornal Nexo que a pessoa pode gostar muito de sexo, mas só querer fazer com quem ela quiser. Essa chance de escolha não é puritanismo, é ter direitos.

Os direitos sexuais afirmam isso: direito a ser feliz na cama, a ter uma vida sexual livre de violência, poder transar com quem quiser e ter orgasmo, por exemplo. Destaca ainda que o fato de nomearmos tais violências ajudam na visibilidade do problema que tempos atrás era apenas vivido como “algo ruim e traumático, mas nem sempre tinha um nome. Como há mesmo muita violência contra mulheres que é naturalizada, há um grande mérito em revelar essas coisas. É preciso demonstrar essa desigualdade para poder combatê-la, mudar esse quadro. Para termos uma sociedade igualitária, é necessário que as mulheres possam sim escolher com quem elas querem transar, e não serem obrigadas a manter relações para garantir seu emprego, por exemplo”.

Assim, homens, quando nos seus íntimos, vocês se atraírem por uma mulher porque aparentemente está bêbada, quando frequentarem os locais “open bar” apenas para mulheres, quando oferecerem bebidas às parceiras apenas para que se sintam “mais à vontade”, saibam, de verdade, que a tal falada canção “suruba de leve” lhes representa.

Representa o cotidiano nefasto de uma mulher. Representa as suas cantadas na balada e a sua violência na relação sexual. Representa os seus encontros fugazes e a forma como vocês objetificam as suas parceiras. Representam o intento da superioridade masculina retratado diariamente nas relações sociais.

A retirada da música do aplicativo de compartilhamento, a alteração da letra e outras condutas que resultaram da pressão social contra a letra da música não apaziguarão ou diminuirão as atitudes criminosas masculinas diárias. Servem como alerta de que não descansaremos enquanto não tivermos a nossa liberdade de forma plena e intocável. Liberdade só virá se acompanhada por igualdade.

Quando todxs se enxergarem, respeitarem e viverem como iguais, seremos livres! E por isso lutaremos!

Patricia Maeda e Roselene Taveira, Juízas do trabalho. 

Participa da coluna semanal Sororidade em Pauta, em conjunto com as magistradas Ana Carolina Bartolamei, Célia Regina Ody Bernardes, Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Fernanda Orsomarzo, Janine Soares de Matos Ferraz, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Lúcia Rodrigues de Matos, Lygia Godoy, Naiara Brancher, Nubia Guedes, Patrícia Maeda, Renata Nóbrega, Roselene Aparecida Taveira e Simone Nacif.


[1] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência vivida, Vol. 2. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016, p. 545.

Quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
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