De Chico a Gilmar Mendes: um mar de ofensas
Quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

De Chico a Gilmar Mendes: um mar de ofensas

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Na semana do natal de 2015, o compositor e cantor Chico Buarque, que estava acompanhado cineasta Cacá Diegues e do escritor e jornalista Eric Napomuceno, foi hostilizado por um grupo de jovens quando saía de um restaurante no Leblon, bairro de classe alta do Rio de Janeiro. “Você é um merda”, disse um dos jovens, dirigindo-se ao cantor que tanto protestou contra a ditadura militar. Dias antes Chico Buarque havia subscrito um abaixo-assinado de vários artistas contra o impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

Na noite de um domingo, 31 de julho de 2016, a atriz curitibana Letícia Sabatella foi ofendida e agredida em Curitiba. Letícia foi vítima da intolerância e do ódio. A atriz que se manifestou publicamente contra o impeachment, foi injuriada com palavras de baixo calão, além de ser constrangida quando passava próximo aos manifestantes que se colocavam a favor do impedimento de Dilma e em apoio a Operação Lava Jato, conduzida pelo juiz Federal de Curitiba Sérgio Moro.

Gilmar Mendes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) foi ofendido em um voo no último sábado (27/2). Dias antes, o ministro do STF havia sido insultado em Portugal. Ambas as agressões foram registradas em celulares pelos próprios agressores e, imediatamente, postadas e espalhadas nas redes sociais.

Lamentavelmente, não tem sido raro pessoas serem agredidas e ofendidas em nome do ódio e da intolerância que alimentam o fascismo.

Políticos, artistas, juízes e todos que estão comprometidos com a defesa da legalidade democrática, independente de partidos políticos, estão sujeitos aos ataques daqueles que não sabem conviver com as diferenças e a democracia.

Como bem observou Ranier Bragon, na Folha de São Paulo (“Caça a Gilmar”, “Opinião”, 30/1), “A história está repleta de vestais a atirar pedras nas adúlteras, tocar fogo às bruxas ou decidir no berro quem pode ou não andar nas ruas”.

Como bem disse Rubens Casara[1] – na apresentação do livro da filósofa Márcia Tiburi – “o fascismo possui inegavelmente uma ideologia de negação. Nega-se tudo (as diferenças, as qualidades dos opositores, as conquistas históricas, a luta de classe etc.), principalmente, o conhecimento e, em consequência, o diálogo capaz de superar a ausência do saber. O fascismo é cinza e monótono, enquanto a democracia é multicolorida e em constante movimento. A ideologia fascista, porém, deve ser levada a sério, pois, além de nublar a percepção da realidade, produz efeitos concretos contrários ao projeto constitucional de vida digna para todos”.

A sociedade precisa entender que os ataques aos cidadãos e as cidadãs que pensam diferentes atingem a neófita democracia brasileira.

Democracia que tem como objetivo a libertação dos indivíduos das coações do autoritarismo. Democracia material que busca excluir, eliminando definitivamente, as desigualdades econômicas e sociais. A democracia social – material e não apenas formal – que visa estabelecer entre os indivíduos uma igualdade de fato que sua liberdade teórica é importante para assegurar. “Democracia pluralista, porque respeita a pluralidade de ideias, culturas e etnias e pressupõe assim o diálogo entre opiniões e pensamentos divergentes e possibilidade de convivência de formas de organização e interesses diferentes da sociedade”.[2]

Nada, absolutamente nada, justifica ataques desta natureza. As ofensas perpetradas contra Chico, Letícia, Gilmar e tantos outros, atingem, covardemente, a neófita democracia brasileira.

Leonardo Isaac Yarochewsky é  é Advogado e Doutor em Ciências Penais (UFMG).


[1] TIBURI, Márcia. Como conversar com um fascista. Rio de Janeiro: Record, 2015.

[2] SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 22ª ed. São Paulo: Malheiros, 2002.

Quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
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