Entre cirandas e carnaval, o futuro do Brasil ameaçado
Segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Entre cirandas e carnaval, o futuro do Brasil ameaçado

Foto: Mídia Ninja

Desde o golpe midiático-parlamentar de 2016, o futuro do Brasil está comprometido pela elite de rapinagem que tomou conta do poder. Os retrocessos sociais foram tantos e ocorreram em velocidade tão espantosa que fica difícil de listar todos aqui. Mas é certo que o pior ainda está por vir nos próximos anos, isto é, só veremos as consequências nefastas dos cortes orçamentários em saúde, educação, programas sociais, retirada de direitos trabalhistas, reformas que prejudicam diretamente a população menos favorecida e contribuem para o aumento expressivo da violência daqui a algum tempo. E, apesar de tudo isso estar acontecendo agora, o povo está inerte.

A democracia foi solapada, Lula condenado sem provas, os Poderes da República em tenebrosas transações. E o povo?

Digo, além de caminhadas inúteis, nada acontece. Decidiu-se apostar tudo nas eleições de outubro ou em manifestações culturais.

Infelizmente, sou obrigado a dizer que nem o voto popular, nem as cirandas da esquerda pequeno-burguesa, poderão vencer os “canhões” dessa gente que tem ao seu dispor a mídia hegemônica e o poder financeiro do capital – em sua versão mais predatória.

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As instituições públicas continuam não funcionando

Vejamos o que aconteceu recentemente nos dias que antecederam o julgamento de Lula em Porto Alegre. Milhares de pessoas vieram à capital gaúcha manifestar o seu apoio ao ex-Presidente, o que é absolutamente válido e admirável. Entretanto, forças de segurança transformaram Porto Alegre numa verdadeira praça de guerra, alterando a rotina da cidade de forma nunca antes vista, com patrulhamento por terra, ar e água. Impressionante!

Manifestantes sequer conseguiram se aproximar do prédio do TRF-4, contidos por cercas, grades e algumas centenas de policiais militares, inclusive, alguns infiltrados. Após o julgamento, o resultado foi o esperado: Lula condenado por decisão unânime e teve a pena aumentada. O que houve então? Nada. Todos foram para as suas casas se lamentar. No dia seguinte, trabalhar.

Penso, talvez, será que os atos de apoio à Lula não deveriam ter continuado logo após o julgamento e ainda com mais ênfase e determinação? Ao final, tudo se manteve como antes. Enfim, Porto Alegre voltou à sua normalidade de triste cidade abandonada e entregue à própria sorte, os advogados de Lula continuam recorrendo e perdendo nas instâncias superiores e o povo agora começa a se agitar com a chegada do carnaval.

É preciso sair do lugar comum

Enquanto a classe média vivia num mundo imaginário, com seus carros financiados e apartamentos de 70m² decorados com móveis sob medida em algum bairro “chique”, viajando a cada dois anos para Miami, tudo ia bem. Mas agora o golpe é contra todos.

A reforma trabalhista aprovada que destruiu direitos conquistados através de décadas não foi suficiente para que a classe média despertasse de sua letargia, tampouco mobilizou a esquerda pequeno-burguesa. Entretanto, esse sono terá que acabar, pois a reforma da Previdência em discussão enterrará de vez a classe média brasileira.

E quanto aos mais pobres? Esses já estão condenados há algum tempo.

A propósito das “cirandas” promovidas pela esquerda pequeno-burguesa acho que vale aqui uma pequena reflexão. Nada contra as pautas identitárias que as justificam, como a do feminismo, das reflexões de gênero, performances artísticas etc. Tudo é válido. Mas, de fato, será que acham que danças e flores vencerão os canhões do imperialismo? Tudo se resume à luta de classes, camaradas!

As “cirandas” são tão pouco compreendidas pelo trabalhador ou pela trabalhadora precarizada quanto pelo dono dos meios de produção. Elas não surtem efeito prático algum. Como li outro dia, “enquanto a direita ataca com violência os direitos do povo, a esquerda pequeno-burguesa dança”. Muita energia desperdiçada para quase nada.

Sequer eu consigo compreender essa tática “revolucionária” e, desde já, peço desculpas pela ignorância. Mas me parece algo semelhante a acender um palito de fósforo e esperar que um incêndio de proporções gigantescas ocorra. Não vai acontecer. Vai ser preciso fazer bem mais do que isso.

Agora, como disse a chegada do Carnaval, transforma tudo em festa. É hora de esquecer os problemas e se divertir um pouco. O povo vai se embriagar de felicidade nessa data tradicional que já foi popular e que atualmente está sendo apropriada pelas classes mais abastadas. Tudo para as redes sociais em camarotes exclusivos, áreas privilegiadas e cabines VIPs.

Mas fico imaginando toda essa energia sendo utilizada para lutar contra o retrocesso social e exigir o mínimo de respeito à democracia soterrada.

Seria importante considerar que, enquanto a população em geral aproveita o Carnaval, os ataques do governo ilegítimo continuarão com toda força e determinação. Vale tudo para aprovar a reforma da Previdência até o fim de fevereiro. O povo deveria estar atento, se mobilizar, radicalizar a luta contra as reformas e exigir seus direitos de volta, mas está curtindo o carnaval. Que fazer?

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Por que tanta violência no carnaval?

Basta de cirandas, danças, caminhadas inúteis, performances culturais, manifestações pífias, cartas abertas que não serão lidas, entre outros atos semelhantes e igualmente sem resultados.

O momento é de radicalizar a luta de classes. Mas “radicalizar” significa o quê? Exatamente como Marx escreveu, significa “ir na raiz” do problema. É preciso que a população, em geral, entenda que a democracia no Brasil já foi totalmente comprometida e o Estado pós-democrático já é uma realidade. Só resta o controle dos indesejáveis.

O governo e o grande capital não têm medo do povo e, assim sendo, irão continuar fazendo o que fazem à custa de todos. É preciso se levantar contra a opressão e a exploração na fábrica e nos bairros.

Mais do nunca, é o momento de chamar uma greve geral em todos os setores públicos e privados da sociedade. É necessário parar o Estado assim como cantava Raul: “essa noite eu tive um sonho…

(…) Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo
o planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém ninguém

O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não tava lá
e o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar

No dia em que a Terra parou (…)

Átila Da Rold Roesler é juiz do trabalho na 4ª Região e membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD).


Assista ao bate papo de Igor Leone com Djamila Ribeiro no Pandora Lab sobre “O que é Lugar de Fala”:

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