Sobre Feministas Negras e Solidariedade Racial
Segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Sobre Feministas Negras e Solidariedade Racial

Foto: Audre Lorde, feminista negra

Tenho acompanhado nos últimos meses várias polêmicas envolvendo feministas negras nas redes sociais. Elas discutem temas que são importantes para o avanço da justiça racial, mas muitos argumentos apresentados por elas são ferozmente combatidos. Isso não é motivo de surpresa porque discussões sobre questões dessa natureza estão sempre baseadas em interpretações distintas de fenômenos sociais, o que pode levar as pessoas a conclusões diferentes sobre um mesmo assunto. Portanto, discordâncias intelectuais sobre a compreensão desses fatos sempre ocorrerão. Percebo, entretanto, que boa parte das críticas dirigidas a elas não são produto de qualquer tipo de reflexão. Elas decorrem da resistência masculina de se levar a sério qualquer tipo de demanda de direitos formuladas por mulheres, da recusa do reconhecimento das formas como o racismo afeta a vida da população negra, de estereótipos negativos sobre mulheres negras, da necessidade de pessoas brancas desqualificarem qualquer crítica ao sistema de dominação racial que as beneficia sistematicamente.

O que acabo de descrever é muito grave, mas um aspecto específico desse problema me preocupa de forma especial: muitos ataques a feministas negras são feitos por homens negros. Algumas vezes eles reproduzem esquemas mentais destinados a justificar a dominação masculina. Certas críticas estão baseadas na ideia de que a mulher negra ocupa um lugar natural dentro da estrutura familiar. Ela existe para cuidar do marido e da prole, posição que reduz a noção de pertencimento social à tradicional estrutura hierárquica típica das relações heterossexuais. Por esse motivo, dizem esses indivíduos, as demandas específicas de mulheres negras são problemáticas para a busca da justiça racial porque a experiência delas não é distinta da dos homens negros. O que temos aqui é uma afirmação da centralidade da experiência masculina e heterossexual na busca por igualdade racial.

Esses mesmos indivíduos também reproduzem as falácias argumentativas destinadas a manter a dominação racial. Isso ocorre principalmente em função da defesa do individualismo como doutrina social, o que encara o racismo não como algo sistêmico, mas sim como um comportamento de algumas pessoas que destoam de um suposto ideal de tratamento igualitário que existiria entre nós. Iludidos com alguns privilégios de classe, essas pessoas pensam que conquistaram respeito e apreço de pessoas brancas. É claro que eles também fazem essas críticas gratuitas porque não gostam de ver mulheres negras tendo qualquer tipo de notoriedade social. Afinal, o falocentrismo está sempre presente nas mentes de homens negros e brancos.

Tommie Shelby argumenta na sua brilhante e indispensável obra We who are dark que a conquista da justiça racial depende também da construção de um forte senso de solidariedade entre pessoas negras. Entretanto, ele afirma que ela não pode estar fundamentada em nenhum tipo de essencialismo, em nenhuma pressuposição de que certos sujeitos sociais ocupam lugares naturais dentro da sociedade. As pessoas vivem a negritude de maneiras muito distintas, uma decorrência da própria diversidade existente dentro da comunidade negra e das formas como sistemas de opressão operam. Essa solidariedade racial deve ser pensada como um tipo de identificação política: todas as pessoas negras compartilham experiências de discriminação que afetam o status material e o status cultural delas. A falta de respeito e apreço social por pessoas negras faz com que todos nós sempre estejamos em uma situação de vulnerabilidade, independentemente da nossa posição no sistema de classes. Esse é um dos motivos pelos quais devemos ter uma preocupação especial com aqueles que pertencem ao mesmo grupo racial: todos nos temos uma experiência comum de exclusão social, o que nos torna sujeitos que possuem uma preocupação comum.

Tendo em vista a base política da solidariedade racial, devemos estar atentos às formas específicas de como o racismo afeta os vários segmentos da comunidade negra. Isso significa que as relações de poder que permitem a consolidação de identidades hegemônicas como o sexismo e a homofobia precisam ser duramente interrogadas e desconstruídas. Apenas um tipo de solidariedade racial que questiona esses mecanismos de opressão poderá permitir a criação de um sentimento de comunidade que contribua para o sucesso de nossa luta por emancipação.

A solidariedade racial implica então uma etiqueta social específica entre pessoas negras. Primeiro, a demonstração de cordialidade é um dever moral que devemos ter uns com os outros. Ninguém é obrigado a conviver com pessoas negras apenas porque são negras, mas a demonstração de respeito por pessoas que são sistematicamente desprezadas do mesmo jeito que nós deve ser vista como uma exigência moral. É por isso que o ataque público a uma mulher negra porque ela expõe as formas como o sexismo afeta as mulheres da nossa comunidade serve para manter os padrões de exclusão social inalterados. Pensar que só homens negros podem falar pelos negros é algo ridículo e infantil.

Segundo, homens negros não devem atacar mulheres negras porque elas estão questionando os pequenos poderes que eles possuem sobre elas. Homens negros deveriam combater o ideal de masculinidade que circula na nossa sociedade porque eles estão em grande parte excluídos dele. Essa representação da masculinidade não contempla o homem negro integralmente, ela não torna homens negros atores socialmente respeitados. A masculinidade negra é uma forma de identidade subordinada porque o macho ideal é aquele que congrega outras formas de status como o pertencimento à raça branca e à classe média. As representações de negros como predadores e bestas sexuais nos acompanham em todas as situações e a circulação desses estereótipos tem um propósito: apresentar homens brancos como os únicos parceiros sexuais aceitáveis para as mulheres de todas as raças. Portanto, a reprodução da opressão da mulher negra concorre para a reprodução da opressão do homem negro que fica assim impedido de buscar melhores formas de realização afetiva. Ser homem dentro de uma lógica de opressão significa apenas dominar e uma relação de afeto genuíno só pode ocorrer quando as pessoas têm autonomia para afirmar sua individualidade fora de estereótipos raciais e de supostos lugares naturais.

Terceiro, pessoas negras que querem participar do debate público sobre racismo precisam ter conhecimento intelectual sobre o tema. Nossas experiências pessoais com o racismo são relevantes, mas elas não são os únicos parâmetros para defendermos posições sobre esse assunto. É preciso entender como o racismo está relacionado com a vida econômica, com a vida política, com a vida cultural, com as narrativas jurídicas, com a forma como as pessoas raciocinam. É preciso compreender que a população negra possui uma diversidade econômica, intelectual, sexual e religiosa. Isso significa que os diferentes segmentos experimentam o racismo de forma distinta. A experiência social de homens negros não é a mesma que a das mulheres negros, negros ricos não vivem da mesma forma que negros pobres, homossexuais negros têm vidas bem diferentes de heterossexuais negros. Esse é o motivo pelo qual esses grupos apresentam demandas de direitos específicas. Esse é o motivo pelo qual precisamos escutar o que as mulheres negras falam. Isso é uma condição essencial para a melhoria das condições de vida da população negra. Aqueles e aquelas que estão dispostas a participar de qualquer forma de debate público sobre o racismo devem saber também como ele opera. Reduzir o racismo a um problema individual é a mais antiga estratégia de dominação racial adotada no nosso país. É preciso reconhecer a dimensão sistêmica e institucional do racismo. Jamais iremos a lugar algum sem isso.

É por esse motivo que homens negros devem ter muito cuidado quando criticam as posições defendidas por feministas negras. Primeiro ponto. Homens negros e mulheres negras têm um propósito comum: a busca do bem-estar da nossa comunidade. Se suas críticas não têm o propósito de corrigir possíveis compreensões inadequadas da realidade social que podem comprometer a busca pela justiça racial, fique calado. Se você está convencido de que uma feminista negra defende uma posição incorreta em algum artigo específico, escreva então um texto academicamente fundamentado para criticar o argumento, não a pessoa. Você não está de acordo com o que as feministas negras dizem? Você tem todo o direito de expressar suas objeções. Comece apresentando os argumentos defendidos por elas da forma mais neutra possível. Depois aponte qual é a teoria que você utilizará para fundamentar suas posições. Apresente os pressupostos de suas teorias e depois critique as posições delas a partir deles. Não se esqueça de dizer que o objetivo central do seu texto é a melhoria das condições de vida da comunidade negra como um todo.

Volto à questão da solidariedade racial entre negros. Afirmo mais uma vez que a defesa de lugares sociais naturais da mulher nos relacionamentos heterossexuais não é um parâmetro legítimo para criticar feministas negras, nem a insatisfação por não ter a mesma notoriedade que elas. Ser um homem negro heterossexual de classe média não te dá legitimidade para falar por toda a comunidade negra, nem para demandar que a luta pelo racismo gire em torno de sua experiência. Você não sabe nada sobre o que é ser mulher, sobre o que é ser homossexual, sobre o que é ser favelado. Nossa primeira obrigação moral é o tratamento solidário das pessoas que sofrem as consequências do racismo branco nas suas diferentes formas. Essa solidariedade racial têm objetivos comuns como a luta contra o racismo estrutural e institucional, a busca por oportunidades educacionais e profissionais, a proteção da população negra das arbitrariedades estatais e da violência simbólica cotidiana reproduzida pelos meios de comunicação de massa. Também precisamos combater discursos que não são nada mais do que novas narrativas de dominação racial. Esse é o caso do “empreendedorismo” e da “teologia da prosperidade”. Não podemos esquecer que a autodeterminação do povo negro, um segmento populacional cuja maioria vive em condições de pobreza, não poderá ser alcançada sem a criação de políticas estatais que promovam a redistribuição de renda. Portanto, precisamos combater ferozmente essas narrativas que atribuem ao indivíduo a responsabilidade principal pela criação de oportunidades sociais. Isso é especialmente importante para a causa da mulher negra porque elas sofrem diversos tipos de discriminação.

A solidariedade racial exige que nós negros desenvolvamos uma consciência múltipla, uma consciência social que esteja atenta às diversas formas de pertencimento e de opressão presente dentro da nossa comunidade. Sinto um amor profundo por feministas negras e esse amor é produto da identificação com a experiência de opressão que elas enfrentam como sujeitos sociais. Quero também deixar um recado para elas: o privilégio do homem negro é inteiramente precário. Ele obviamente tem um caráter concreto dentro das relações pessoais, mas não somos detentores de poder da mesma forma que homens brancos. Esse lugar é um privilégio deles. Convido aqueles e aquelas que quiserem compreender como o racismo constrói o homem negro como um não-sujeito a ler o meu artigo “Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica”.

Abraço, Adilson

Adilson José Moreira é doutor em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da Universidade de Harvard.

Segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
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