Um carnaval nem tão democrático como dizem  
Segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Um carnaval nem tão democrático como dizem  

Foto: Fernando Maia

Antes de fazer sua famosa viagem pela América Latina ao lado de Alberto Granado, Ernesto Guevara pôs-se, com apenas 22 anos de idade, a desbravar sozinho o interior da Argentina em cima de uma rústica bicicleta a motor. O episódio, narrado por Jon Lee Anderson na consagrada biografia sobre o revolucionário, traz uma situação particularmente interessante ocorrida durante sua passagem pela cidade de Santiago del Estero.

Enquanto reparava pela enésima vez um furo no pneu, Ernesto encontrou um camponês que vinha da colheita do Chaco e estava a caminho da de San Juan, movendo-se conforme os ventos das oportunidades. Ao descobrir que o plano do motoqueiro de viajar por várias províncias era meramente recreativo, pôs as mãos na cabeça e bradou estupefato: “Mama mía, todo esse esforço para nada?!”. As experiências tanto nesta viagem como na retratada pelo filme Diários de Motocicleta foram de suma importância para a construção da personalidade daquele que em alguns anos receberia de seus camaradas cubanos o apelido de “Che”.

Mas o que revela o fato de Guevara, um jovem estudante de medicina oriundo de uma família aristocrata e decadente, ter se aventurado a explorar os recônditos de sua própria terra por puro lazer enquanto um camponês miserável vagava pelo mesmo itinerário, empurrado, porém, por suas instintivas necessidades de sobrevivência?

A grande questão reside no fato de que o acesso ao espaço público e a possibilidade de sua indiscriminada ocupação não são, por si só, credenciais suficientes para que o consideremos democrático. O período do carnaval talvez seja o mais emblemático exemplo de que a ausência meramente formal de obstáculos não é suficiente para lhe conferir o caráter de uma festa democrática em sua concepção mais genuína.

Ainda que nos últimos anos a tradição do carnaval de rua venha ganhando cada vez mais espaço, contrapondo a lógica da segregação e privatização do espaço público por intermédio de blocos que se utilizam de cordas e abadás, realizar um recorte de classe é mais do que necessário para que se compreenda a dinâmica da ocupação das ruas nesse contexto.

Veja-se como exemplo o tradicional bloco Bacalhau do Batata, do carnaval de Olinda. Batata, um garçom impossibilitado de participar da festa em razão de trabalhar durante os dias de folia, criou o bloco com o intuito de congregar trabalhadores e trabalhadoras que se encontravam na mesma situação, saindo na manhã da quarta-feira de cinzas, quando, teoricamente, o carnaval já terminara. Convém questionar: o que faltava a Batata para que pudesse brincar nos demais dias oficiais de folia?

Em O ano em que sonhamos perigosamente, Slavoj Zizek reproduz uma piada de um homem que entra numa cafeteria e pede um café sem creme. O garçom responde: “desculpe, o creme acabou, só temos leite. Posso trazer café sem leite?”. Nas duas situações o cliente receberia café puro, mas esse café é cada vez acompanhado de uma negativa diferente: primeiro sem creme e depois sem leite.

Zizek observa que para detectar distorções ideológicas é necessário perceber não apenas o que é dito, mas a interação complexa entre o que é dito e o que não é dito. O filósofo esloveno chega a citar o exemplo do carnaval brasileiro, onde pessoas de todas as matizes sociais dançam juntas nas ruas, obliterando por alguns momentos as diferenças de raça e classe existentes entre elas.

Mas qual a diferença entre um banqueiro que pula o carnaval de rua, feliz por sentir-se como um do povo mesmo após a rapinagem impiedosa promovida diariamente pelo rentismo de seu banco, e um desempregado ou mesmo um empregado que viu seus direitos trabalhistas irem para o saco, esquecendo momentaneamente de suas preocupações e do sustento de sua família?

A diferença é que, apesar de ambos estarem no mesmo espaço, o trabalhador dança sem leite e o banqueiro dança sem creme, conclui Zizek.           

O filósofo grego Epicuro define a felicidade por meio do termo ataraxia, cujo significado é a ausência de perturbações e aflições mentais e psicológicas, concebendo um conceito negativo de prazer e satisfação caracterizado por meio não da presença, mas da ausência de certos elementos. 

Um carnaval verdadeiramente democrático e popular está longe de se caracterizar unicamente pela inexistência formal de obstáculos físicos como cordas e abadás.

Se a democracia política sem democracia econômica é um engodo, da mesma forma o é o diagnóstico que caracteriza os dias de momo como uma festa democrática sem considerar as condições materiais de boa parte da população que ocupa os locais onde a festa acontece – muitas vezes não para brincar, mas para prover sua subsistência e trabalhar vendendo água, cerveja e afins.

Todos e todas temos, formalmente, acesso aos blocos, logradouros, ladeiras, ruas e travessas onde a festa acontece. Mas quais as circunstâncias em que as acessam os trabalhadores e trabalhadoras para quem um dia de folia pode representar um pão a menos na mesa? É o que devemos refletir se de fato desejamos o carnaval não como uma festa simplesmente democrática do ponto de vista formal, mas profunda e radicalmente democrática, como de fato deveria ser.

Gustavo Henrique Freire Barbosa é advogado.

Segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
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