O carnaval como laboratório das relações de gênero
Sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O carnaval como laboratório das relações de gênero

Foto: Gil Ferreira/Agência CNJ

O roteiro de hoje é o seguinte: um homem aborda uma mulher que recusa as investidas. Desenrolar da cena, opção 1: o rapaz entende o não como uma negativa e segue a vida. Opção 2: o “pretendente” inicia uma série de perguntas que visam convencê-la de que ele é uma excelente opção ou que ela está errada em recusar-se.

Na vida real, o segundo caso é o mais frequente.

Em todas as vezes que concordei com as investidas masculinas nunca me foi projetada a necessidade de justificar os motivos da minha concordância, nenhum homem questionou porque eu desejava beijá-lo, transar com ele ou namorá-lo. O “sim” é simplesmente entendido como sim, as vontades são compatíveis e, por isso, explicações são desnecessárias.

O mesmo não acontece quando negamos; não bastasse a necessidade de explicar o motivo da negativa, ainda atribuem-na outras inúmeras significações: o não pode ser um sim protelado, um talvez, daqui a pouco, esforce-se mais um pouquinho, entre outros.

O não normalmente é seguido pela necessidade de exposição das razões que ainda passam pela verificação de validade dos critérios. “Tenho namorado” é um clássico usado como recurso inclusive entre mulheres solteiras. Algumas meninas julgam ser a maneira mais fácil para desfazer-se do imbróglio masculino. 

Vamos partir para mais algumas situações:

Cena 3

Diante do“não quero ficar contigo, pois tenho namorado”, o rapaz revida questionando o que você, uma mulher pretensamente comprometida, está fazendo numa festa desacompanhada.

A sequência da cena envolve a necessidade feminina de explicar como ela organiza e valora a sua intimidade e afeto para um desconhecido que, caso tivesse sido correspondido, possivelmente teria “dado uns pegas” sem sequer registrar o nome da garota e possivelmente seguiria a festa distribuindo atenção e afeto para outras pessoas. Sim, é esse mesmo cara que interpelou: “o que está fazendo aqui se tem um namorado?”

Cena 4

Ela aceitou beijá-lo, mas não quis avançar na transa e, ao negar-se, é novamente guiada para a necessidade de justificação: “porque não?”. No meio da conversa o homem mostra todo seu potencial como sexólogo, terapeuta e feminista.

O roteiro é composto por frases de efeito como “mas você precisa libertar-se dessas ideias”, “isso é trauma”, “eu sou diferente”, “os tempos mudaram” e por aí vai.

O ponto é que não interessa os motivos da recusa e ainda que suscitada por um processo de castração, a única pessoa legítima e capaz de ressignificar isso será ela mesma, por meio de um caminho personalíssimo no qual não cabe ninguém conduzi-la pela mão.

Não seria uma conversa apressada e descontextualizada capaz de mudar toda a forma como essa mulher organiza seus sentimento, valores e traumas.

Então, se você não quiser somar nesse processo de opressão e, ao invés disso, escolher agir de uma forma positiva respeite o não e deixe que ela compreenda as próprias razões, afinal os motivos são todinhos dela e os custos também.

Passei a maior parte da vida tentando bancar a simpática quando abordada pelos homens, mesmo quando estava sem paciência e até mesmo quando me defrontava com sujeitos inadequados e que nitidamente não se importavam com nada que não estivesse orientado para a realização do seu prazer individual.

Agia assim, talvez, por julgar que isso era um valor necessário para ser uma boa garota e durante muito tempo as minhas negativas vieram seguidas de justificativas automáticas, como mentir que tinha um companheiro.

Na verdade isso não ficou no passado, esse padrão ainda me revira. Essa reação foi tão comum e ocupa tanto o meu imaginário que ainda hoje encontra-se como um comportamento automatizado, cuja interrupção precisa ser mediada por processos de reflexão e insights de consciência. É pela naturalização de padrões como esse que reproduzimos uma ética orientada pela necessidade de validação masculina.

A despeito disso entendo que, apesar dos homens serem incentivados a tomar o lugar principal nas investidas sexuais, nem sempre essa é uma tarefa fácil e nem precisa ser naturalizada assim.

Em um mundo igualitário sequer caberia a eles a função de conquistadores, essa que serve tão bem para a ritualização do mundo heteronormativo patriarcal.

É preciso desonerá-los dessa obrigação se desejamos que as mulheres disponham de idêntico direito.

Para muitos, paquerar uma mulher é um verdadeiro desafio cuja superação é mediada pelos medos masculinos e não se engane, pois os medos que habitam aqui dialogam com os medos que existem acolá, visto que esses processos coletivos nunca são unilaterais, ao contrário, sempre ocorrem de forma espelhada.

Nesse sentido, vale a pena o exercício da empatia e da educação, mas não a obrigação de exposição dos motivos da negativa, tampouco a necessidade de gastar energia afetiva e tempo quando não desejamos fazê-lo.

Entre os desafios envolvidos no processo de empoderamento feminino figuram a capacidade de impor limites a situações constrangedoras, a força de dizer “não quero ou aceito isso” e o desarraigamento do sentimento de culpa. Portanto, garotos, não permitam que a festa vire tragédia. Um não é um não.

Agora bora lá, lembrete de etiqueta básica para a vida e para o carnaval:

Não roube beijo! Não puxe o braço! Não puxe o cabelo! Não toque sem consentimento! Não constranja! Não assedie! Analise se o que você pensa ser uma cantada não é um assédio. Não faça piadas homofóbicas! Não promova apropriação cultural! Entenda que não é não! Não use como licença poética o consentimento de pessoas cuja consciência está nítida e profundamente comprometida pelo uso de qualquer droga, inclusive o álcool. Não use o álcool como desculpa para o seu comportamento inadequado! 

E, garotas, se o cara não quiser ficar contigo não insinue que ele é gay, isso é tão babaca quanto toda carga machista que vivemos e na verdade trata-se do reforço dos padrões heteronormativos opressores, portanto, tenhamos consciência do nosso lugar na reprodução das estruturas sociais que nos constrangem.

Priscila Landim de Castro é Doutoranda e mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília. Pesquisadora com ênfase na linha de violência e segurança pública.


Assista ao bate papo de Igor Leone com Djamila Ribeiro no Pandora Lab sobre “O que é Lugar de Fala”:

Sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend