Direita ocidental enxerga o mundo através de fetiches
Terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Direita ocidental enxerga o mundo através de fetiches

Foto: Reprodução/Filme ‘O Ditador’

“Vai pra Cuba”. “Na Venezuela é que é bom”Quem é de esquerda no Brasil certamente já ouviu um desses dois chavões. Dois entre tantos outros repetidos pelo senso comum da direita brasileira.

Se serve de consolo, aliás, uma simples visita em páginas estrangeiras de redes sociais mostra que não estamos sozinhos. Isso porque a base teórica da direita ocidental parece ter sido tomada por um senso comum baseado na “argumentação fetichista”.

É um tipo de argumentação que mais se vale de estereótipos historicamente construídos em cima de falácias do que de dados estatísticos e teorias cientificamente embasadas. É fetichista por que, por algum motivo, ganha ares de obsessão na cabeça de gente que só consegue pensar o mundo de forma simplificada e maniqueísta. Não importa o quão complexa seja uma situação, nem que números digam o contrário, o fetiche criado por esse imaginário comum ocidental sempre prevalecerá.

De todos esses fetiches, talvez o mais macabro seja o fetiche pela fome mundial. E é entre nossos irmãos latinos que encontramos boa parte da aplicação desse discurso.

Há anos, fala-se que o povo cubano está se desintegrando em fome. Diz-se que a família Castro é genocida por deixar as crianças de seu país morrerem, uma a uma, de desnutrição.

A fome em Cuba virou espantalho para quem queria “refutar” qualquer ideia que viesse da ilha caribenha. Tal fetiche, porém, não poderia estar mais descolado da realidade.

Segundo o último “Panorama de Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e no Caribe – 2017”, da ONU-FAO, pelo menos desde 2004, Cuba é o país com a menor taxa de subnutrição do continente, com menos de 2,5% de sua população sofrendo desse mal.

Os únicos da região que conseguiram igualar Cuba nesse período foram justamente o Brasil, durante o Governo Petista, e o Uruguai, com a Frente Ampla esquerdista de Mujica, ambos a partir de 2010.

Mas, para o fetichismo, dois momentos históricos de Cuba bastam para criar a imagem que o Ocidente quer ter do país.

  • O primeiro, do Governo Revolucionário, para que Cuba seja sempre vista como uma nação construída em cima de um processo sangrento, ainda que a própria ordem liberal do mundo Ocidental tenha nascido de movimentos ainda mais violentos como a Revolução Francesa ou a Independência Americana.
  • O segundo, o início dos anos 90, conhecido pelos cubanos como “Período Especial”, quando a queda da União Soviética agravou a crise mundial para os países que eram alinhados com o eixo socialista.

Analisar qualquer coisa para além destes breves períodos, como a ditadura de Fulgêncio Batista, anterior à Revolução, ou mesmo todos os quase 60 anos posteriores de governo socialista, seria demais para quem quer simplificar a visão de mundo. E nesse fetichismo, acabam deixando de criticar pontos que deveriam ser criticados no Regime Cubano (que não é perfeito e tem problemas como qualquer outra nação do mundo) para socar um fantasma inexistente.

Aliás, é neste mesmo relatório da ONU-FAO que constatamos a hipocrisia dessa visão fetichista.

O mundo Ocidental, sobretudo o Governo dos EUA, aponta, atualmente, a Venezuela como uma das maiores crises humanitárias do mundo. Que a situação do país não vai bem, é fato. O que intriga, nesse caso, é a “grande preocupação” ocidental com os venezuelanos ao mesmo tempo em que situações imensamente piores são sumariamente ignoradas.

Segundo a ONU, pelo menos 9 países da América Latina apresentam um índice de desnutrição pior do que o venezuelano.

Outros 4 possuem um grau bastante semelhante. Ao todo, são 14 países com mais de 10% da população em situação de insegurança alimentar e outros 18 abaixo desse índice. Na Venezuela, atualmente, esse número é de 13%, o que, sem dúvidas, representa um péssimo cenário.

Aliás, representa uma crise alimentar tão ruim quanto a de Honduras (14,8%), onde um golpe eleitoral e militar foi dado contra um candidato de esquerda no ano passado.

É um número péssimo como o do Paraguai (12%), onde o esquerdista Fernando Lugo, que havia acabado com o domínio de mais de 60 anos do partido direitista Colorado, foi retirado da Presidência por um golpe parlamentar em 2012. É, também, um índice um pouco pior do que o do Panamá (9,3%), paraíso fiscal das offshores.

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Nestes países, porém, ninguém no mundo ocidental chegou a cogitar qualquer tipo de intervenção militar. Na certa, não têm a quantidade suficiente de petróleo para conseguir uma “ajuda humanitária”.

O mais curioso, porém, é quando a comparação é feita dentro da própria história venezuelana. Ainda que a crise alimentar atual seja bastante grave, ela ainda não voltou ao péssimo nível que o país vivia antes do período bolivariano.

Entre 1998 e 2000 (lembrando que Chávez assumiu em 99), 21% da população venezuelana estava subnutrida. Este número, porém, foi caindo ano a ano durante a administração chavista, atingindo seu melhor nível entre 2010 e 2012, com um índice de apenas 3,7%.

Mais um sinal de que a crise das commodities (desde 2013) tem uma grande relação com o que se passa na Venezuela atualmente.

Outros números comparativos entre a Venezuela do período bolivariano e a dos anos 90 podem ser vistos neste artigo, onde demonstrei avanços tanto na área econômica quanto na social do país. Até mesmo a inflação chegou a ser um problema menor no Chavismo do que nos governos anteriores.

Porém, a análise ponderada sobre a Venezuela não é interessante para quem busca colocar as mãos numa das maiores reservas de petróleo no mundo. Nesse caso, mais interessante é aplicar a visão fetichista.

Assim, deixamos de analisar a atuação entreguista e imoral de uma oposição que organiza locautes patronais e cria desabastecimentos artificiais com contrabando de produtos subsidiados. 

Do mesmo modo, não fazemos críticas pertinentes ao bolivarianismo, como o fato de que ele falhou na Venezuela ao não diversificar suas exportações ou ao deixar de atacar as práticas rentistas no país.

Mais uma vez, o debate acaba sendo tomado pela apaixonada visão fetichista de que o governo venezuelano é o ‘mal na Terra’ e deve ser derrubado por uma intervenção estrangeira. Aliás, visão essa que decorre de mais um dos fetiches aos quais o Ocidente submete o povo latino.

Estamos fadados a ser chamados de “caudilhos” ou “populistas” a cada vez que falarmos mais grosso com as potências mundiais ou sempre que surgir qualquer fagulha de movimento popular por aqui.

Não só o povo latino sofre com essa visão política fetichista ocidental

Voltando ao “mapa da fome”, a África Subsaariana (parte de maioria negra do continente) apresenta, de longe, o pior índice de subnutrição do mundo (22,7% da população). Na parte oriental do continente, o número chega a 33,9%.

Mas o que pensa o Ocidente dessa situação? Questiona o passado de escravidão a que suas potências submeteram o povo africano? Indaga quais teriam sido as consequências do neocolonialismo da chamada “Partilha da África” entre europeus? Repensa como as políticas liberais do eixo Europa-EUA impactam o restante do mundo? Nada disso.

Se a fome latina pode ser resolvida com uma leve “troca democrática de poder”, a fome africana não tem a mesma “sorte”.

Para o Ocidente, a África se tornou o fetiche do “continente em eterna desgraça”, onde não há nada que possa resolver sua miséria e sua guerra, a não ser a eterna ocupação do mesmo pelos “brancos salvadores”.

E assim se cria a ideia mentirosa de que não há debate político sadio em qualquer ponto do continente com o maior número de países na Terra.

Cria-se um imaginário onde, sem a intervenção branca, as relações sociais de um continente inteiro se resumiriam a guerras e conflitos étnicos. Um falso dualismo onde o povo africano só pode escolher entre a “ajuda humanitária” Ocidental ou ser comandado por algum tirano extravagante. Uma grande falácia que ignora que todos esses conflitos tiveram a influência do próprio Ocidente.

Fetichização semelhante sofre o mundo árabe

Aliás, por vezes, a própria designação de “mundo árabe” já demonstra a total falta de vontade que o Ocidente tem de se aprofundar nas questões que envolvem o Oriente Médio e o Norte da África. Mas o debate raso é proposital.

Jogar toda região em um caldeirão e adjetiva-lo como caótico facilita a construção de mais uma narrativa de intervenções políticas e militares em uma região inundada por petróleo.

Nem todos na região são de etnia árabe. Iranianos são, na maioria, persas. Turcos são, quase todos, de etnia turca. Curdos formam o maior grupo étnico sem Estado do mundo, se espalhando, principalmente, pela Turquia, Síria e Iraque. Nem todos na região são, tampouco, muçulmanos.

O Líbano é um exemplo de país da região que tem uma grande quantidade de não-muçulmanos, muitos deles cristãos.

No fim, a região é realmente um caldeirão étnico e religioso, não muito diferente do que poderíamos chamar a própria Europa. Mas, para os interesses das potências ocidentais, é mais valiosa a narrativa de que a região é tomada, quase que exclusivamente, por movimentos de radicais religiosos árabes, “exportadores de terroristas”, que querem impor Estados fundamentalistas islâmicos em toda a região.

Ignora-se, por exemplo, que a região sofre influências, até hoje, da recente história colonial de opressões por parte, principalmente, de Inglaterra e França.

Se despreza, quase que totalmente, o ainda mais recente passado de pan-arabismo, ou de nacionalismo árabe, pelo qual passou a região e que, em certos países, teve a secularidade (separação entre governo e religião) como característica.

Aliás, apesar de propagada como uma região de ditaduras fundamentalistas, é importante pontuar que Saddam Hussein, no Iraque, Gaddafi, na Líbia, e Assad, na Síria, são todos colocados pelos estudiosos como ditadores de Estados seculares, ou seja, autocratas que não baseavam seu poder essencialmente na religião. Algo que joga no lixo a tese de que a região é tomada apenas por movimentos fundamentalistas islâmicos.

Porém, essas distorções nem se comparam ao desprezo que a mídia internacional tem, por exemplo, pelo povo curdo. Povo este que tem, como uma de suas principais forças políticas, o PKK, Partido dos Trabalhadores Curdos, na Turquia, cuja influência ideológica é o marxismo.

Outra força importante deste povo são as YPG, milícias curdas situadas, principalmente, na Síria, e cuja base ideológica é anarquista.

Todas essas narrativas acima, para o bem ou para o mal, contrastam em muito com a visão imposta pela mídia ocidental sobre a região.

O fetichismo ocidental, a exemplo do que faz com a África, coloca o tal “mundo árabe” como uma região em “eterno conflito”, incapaz de se resolver de forma autodeterminada, onde qualquer filosofia política tenha perdido espaço para o fundamentalismo religioso e o ódio étnico, contribuindo, mais uma vez, para a solução da “eterna ocupação branca” como forma de “garantir a paz” em um território rico em petróleo.

Todas essas visões são apenas uma pequena amostra do que se tornou o debate político pautado pela direita ocidental numa era que pode ser muito bem simbolizada pelo pensamento raso e pelas “fakenews” de Donald Trump.

Triste é perceber que este fetichismo, que atende perfeitamente aos interesses das grandes potências ocidentais e das pequenas elites periféricas, ganhe adeptos entre os populares de países que são vítimas deste próprio discurso.

A (re)ascensão do fetichismo anticomunista na América Latina é assustadora e promete jogar, novamente, o continente num turbilhão de políticas neoliberais que já nos levaram uma vez à miséria e à ditadura.

Em tempos de fetichismo argumentativo, difundir informação pode ser uma arma poderosa.

Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
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