SerTão
Quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

SerTão

Foto: Arquivo pessoal

De início, pedimos desculpas ao leitor

Pelas rimas desse poema amador

Mas é que aquela gente do Nordeste tem mania de transformar fala em poesia

De repente nos vimos inspiradas

Encantadas

Fascinadas

Pelos versos livres declamando alegria, esperança, rebeldia

E foi assim, transmitindo o que o coração sente ao papel

Que esse texto, enfim, tomou forma de cordel

É preciso ainda explicar

A fim de melhor o leitor situar

Como foi que chegamos para as bandas de lá

A aventura pelo SerTão foi sonhada na terra da garoa

Ao som de Elba, Alceu e Geraldo, tanta gente boa

Decidimos que no Nordeste faríamos um curso sobre a vida

Sobre a luta, a resistência, ainda que sofrida

Já que o conhecimento pelas folhas do jornal sufoca

O gabinete fechado jamais a realidade toca

 

Procuramos por muitos dias o SerTão que vimos na televisão 

Mas, ao chegar no Cariri, a surpresa misturou-se com contemplação

O SerTão era verde, quem diria, e ainda por cima chovia

Ora, ora…

A mídia, mais uma vez, mentia!

O SerTão da seca, logo descobrimos, é só mais um dos sertões 

São tantos horizontes, tantas riquezas, tantas regiões

E apesar da falta d’água e do esquecimento do poder público 

As lágrimas que correram não foram lágrimas de tristeza, mas lágrimas de gratidão 

Foto: Fernanda Orsomarzo

Gratidão

A todos os que passaram pelo nosso caminho,

Nesse um mês de andanças, em que voamos livres feito passarinho

Gratidão

Àqueles que nos ensinaram sobre luta, doçura e resiliência

Fazendo com que nosso sonho se transformasse numa rica experiência

Gratidão

Ao querido Joelmir: pela amizade, poesia e canção  

Por nos ceder seus olhos para que enxergássemos o seu SerTão

 

O SerTão de gente que luta sem perder a esperança 

Que dias melhores virão 

O SerTão da resistência,

O SerTão da oração

Ao padrinho Cícero, padroeiro da região

O SerTão de disputa pela terra e que tem imenso orgulho da vitória do Caldeirão 

E que ainda hoje sobrevive, pelas mãos da nova geração

Foto: Joelmir Pinho

O SerTão em que o respeito à natureza faz parte do plantar

O SerTão em que se dança o coco, o reisado, que celebra a cultura popular

O SerTão de quilombolas, indígenas, ciganos e de muita tradição 

O SerTão de Chapada, de poesia, cultura e união 

O SerTãofreiriano da libertação 

 

E um SerTão também de muita sororidade

Onde bravas mulheres nos mostraram a importância 

Da vida em comunidade

Das políticas públicas como meio de se garantir dignidade 

Que o acesso à água pode ser, sim, realidade 

Agora vamos já nos despedindo

Mas deixando aqui nosso recado

Se quiser evoluir, crescer, aprender

Não será nas páginas dos doutores que vai encontrar conhecimento

O contato com o próximo é que deve ser seu alimento

E quando você for conhecer o SerTão, por favor, não se esqueça 

São muitas as veredas e para desbravar todas elas é preciso abrir os olhos, o coração e a cabeça

Fernanda Orsomarzo é juíza de direito no Paraná. Vegetariana há 10 anos. Tem por ideal viver a magistratura fora do gabinete, na busca por uma cultura de alteridade, respeito às minorias e livre da exploração de animais humanos e não-humanos. É pós-graduada em direito penal, pós-graduada em filosofia e direitos humanos pela PUC-PR, mestranda em políticas públicas e direitos humanos pela PUC-PR e integra o conselho da AJD (Associação Juízes para a Democracia).

Gabriela Lenz de Lacerda foi Juíza do Trabalho do TRT da 15ª Região e atualmente é Juíza do Trabalho da 4ª Região. Apaixonada por livros, música e poesia, acredita realmente que pequenas iniciativas podem tornar o mundo um lugar melhor. Integra o conselho da AJD (Associação Juízes para a Democracia), a comissão de Direitos Humanos da ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho) e é diretora de divulgação da AMATRA 4 (Associação dos Magistrados da 4ª Região).


Esse ano escolhemos uma programação de férias um pouquinho diferente. Decidimos que passaríamos um mês em um mochilão pelo sertão do nordeste do Brasil, percorrendo diversas cidades do Ceará, Pernambuco e Bahia, para conhecer movimentos e projetos sociais por aquelas bandas. Foram quase 4 mil quilômetros de muito aprendizado. Esse texto é uma singela homenagem ao que o sertão tem de melhor: as pessoas que lá vivem. Na tentativa de encontrar palavras para agradecer a acolhida, acabaram surgindo esses versos amadores. 

Participam da coluna semanal Sororidade em Pauta, em conjunto com as magistradas Ana Carolina Bartolamei, Ana Cristina Borba Alves, Cláudia Maria Dadico, Célia Regina Ody Bernardes, Fernanda Menna Pinto Peres, Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Janine Soares de Matos Ferraz, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Lúcia Rodrigues de Matos, Lygia Godoy, Naiara Brancher, Nubia Guedes, Patrícia Maeda, Renata Nóbrega, Roselene Aparecida Taveira, Simone Nacif e Uda Schwartz.

Quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
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