Um novo tom de uma antiga repressão
Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Um novo tom de uma antiga repressão

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“A gente vai contra a corrente até não poder resistir […] A roda da saia, a mulata, não quer mais rodar, não senhor, não posso fazer serenata, a roda de samba acabou, a gente toma a iniciativa, viola na rua, a cantar, mas eis que chega a roda-viva e carrega a viola para lá”. – Chico Buarque, Roda Viva 

A intervenção militar no Rio não é combate à violência. Se a violência fosse a justificativa para tanto, teria acontecido quando o massacre na periferia começou, muitos anos antes. Na favela todo dia é estado de emergência. Tem tiro, bala perdida, assalto, assassinato, tráfico (aquele que é divulgado, porque o que não o é, imaginemos onde se encontra). Tem criança morrendo por ir comprar bola de gude correndo, tem carro alvejado porque os passageiros eram negros, tem tortura porque alguém “correu” assustado com a bala zunindo para todos os lados e na favela “quem corre é suspeito” e foi alvo de flagrante.

No entanto, quando a violência vivida pela periferia todos os dias desce do morro e mostra sua cara em bairro nobre é que passa a ser “problema”. E é quando a mídia, o país e os políticos passam a se “preocupar” com “segurança pública”, mesmo que a pergunta seja só uma: segurança pública de quem?

Mas adivinhem qual a medida para combater a violência que vitimou a classe média? Mais violência na favela. O método de conter violência é “olho por olho”, é criança na mira de fuzil, é tiro todo o tempo, um espetáculo em torno da intervenção, vendendo a falsa ideia de pacificação, quando a realidade é uma rotina de violência, medo e insegurança.

 A desculpa de “guerra antidrogas” não encontra mais base alguma a partir do momento em que repetidas vezes é falha e fracassada, nas palavras do Ministro do STF, Luís Roberto Barroso:

“Por décadas, o Brasil mantém a mesma abordagem para política de drogas. Polícia, armas e numerosas prisões. Não é necessário ser um especialista para concluir o óbvio: a estratégia falhou. O tráfico e o consumo de drogas apenas cresceram”, complementou ainda na entrevista “Einstein é creditado com uma frase – que, entretanto, aparentemente não é dele – que se aplica bem a este caso: insanidade é fazer a mesma coisa de novo e de novo e esperar resultados diferentes”.

O aviãozinho não apresenta o mesmo risco que o traficante, no entanto, é condenado a penas altas, para mascarar um alívio forçado, de que há “menos um” no tráfico, quando na verdade há mais 20.

Não sendo a desculpa do combate ao tráfico aceita para justificar uma intervenção militar, jogaram a culpa na violência.

É bem claro e perceptível que o problema nunca foi a violência, ou se o é, pelo menos não a sofrida pela periferia – maior e única afetada pela intervenção -, o que me faz suscitar uma questão muito mais assustadora: se a intervenção não serve para barrar a violência, muito menos o tráfico, foi autorizada para barrar o que?

Enquanto a intervenção apavora no Rio, na Paraíba um certo cantor sofre censura após uma composição sua vencer um festival de música… As mesmas partes de uma antiga história que fazem “a minha gente hoje andar falando de lado e olhando pro chão”, eu rezo para que “amanhã seja o outro dia” que Chico previu em uma canção e nós fujamos da “roda-viva” que indubitavelmente voltou a carregar e calar nossa população.

 Alanna Aléssia Rodrigues Pereira é acadêmica de Direito. Pesquisadora e extensionista – Direitos Humanos. Estagiária da Defensoria Pública da União. 

Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
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