Caminho de Emaús: Cristãos deveriam ser os primeiros a apoiarem medidas pela inclusão
Sexta-feira, 2 de março de 2018

Caminho de Emaús: Cristãos deveriam ser os primeiros a apoiarem medidas pela inclusão

Foto: Reprodução/Caminho de Emaús

Por Simony dos Anjos

 

Há uma passagem bíblica que me chama muito a atenção pela beleza, ela acontece no Caminho de Emaús e é muito famosa nas liturgias da Páscoa. 

Cristo acaba de ser crucificado e dois seguidores dele estão indo de Jerusalém para Emaús. Quando um homem os encontra na estrada e pergunta: “Porque estão tristes?” Eles falam da crucificação e que estão muito tristes por isso. Num determinado momento, eles param para descansar porque está tarde, e o homem iria continuar seu trajeto, mas os seguidores de Jesus o convidam a repousar, pois a hora já era avançada. 

O homem aceita o convite e ao dar graças e partir o pão, os dois o reconhecem: “Ele é o Cristo”. A beleza dessa passagem está justamente na revelação do Deus simples, humano e despretensioso.

Não é um Deus de templos, de riquezas, de Leis, mas de companhia, de partir o pão, o Deus que se deixa convidar por qualquer um, em qualquer lugar. Deus visitou aqueles dois homens e eles O acolheram.

Faz alguns dias, escrevi um texto chamado “E se Henrico fosse O Cristo?”, acompanhei alguns comentários, grande parte deles insensíveis e sem o olhar amoroso do Cristo que eu conheço, infelizmente.

A maioria das pessoas que discorda da minha opção, me manda ler a Bíblia. Ironicamente, sou professora de Escola Bíblica Dominical há 12 anos e, para isso, a gente lê a Bíblia, sabe?

Li ela inteira de uma vez, picado, por livro, por caixinha de promessa, por campeonato de decorar Salmo – como a maioria dos cristãos lê, na Igreja. Então, me mandar ler a Bíblia não é o caso.

O segundo argumento mais usado é: “leu e não entendeu”, esse argumento é até mais aceitável, mas depende do que vocês chamam de entender, né?

Se entender é pegar um texto bíblico, não fazer nenhuma reflexão, nenhum movimento hermenêutico ou a crítica necessária aos usos inadequados e traduções equivocadas do texto bíblico, então, meu conceito de entender é outro.

Porém, hoje, resolvi aplicar uma passagem bíblica literalmente em um texto meu, sem interpretação, sem reflexões e críticas.

Aí, eu te pergunto: e se Deus te visitasse, hoje, como fez no caminho de Emaús?

Você poderia me falar: eu ajoelharia, pediria uma bênção, me arrependeria etc. A grande questão é: Deus nos visita todos os dias, quer saber como? Nesse excerto tão belo quanto o texto do caminho de Emaús, Cristo fala como se revela a nós:

Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes. (Mateus 25, 35-40)

Contudo, essa coluna está num portal de notícias jurídicas e de direitos humanos e não numa aula de EBD. Assim, os convido a refletir sobre quais são os pontos tocados no texto acima, a que eles dizem respeito?

Sem metáfora alguma, o texto é sobre distribuição de renda, imigração, direito à saúde e dignidade nas prisões.

Jesus está falando sobre os oprimidos da sociedade, daquelas pessoas que não têm renda, moradia digna, acesso à saúde e aos presos. Sim, o próprio Jesus menciona os presos.

Se houvesse uma política pública “àla Jesus Cristo”, seria com distribuição de renda, para que todos tivessem comida e  vestuários; com saúde pública, para que os doentes pudessem ser tratados com dignidade; com boas políticas de imigração, para que o estrangeiro fosse tratado com respeito e pasmem: que as prisões fossem lugares dignos.

Ao dizer que temos que visitar quem está preso, Jesus dota de humanidade o espaço da prisão (que a sociedade desumaniza – é sempre importante lembrar que, no Brasil, as prisões estão diretamente ligadas ao racismo estrutural da sociedade, então, pontuo, aqui, a necessidade de discutir esse tema com seriedade).

Pois bem, e agora?

Vocês vão querer me provar que Jesus era um populista, que queria votos? Ou, ainda, um “esquerdista”? O próprio Cristo nos manda olhar com humanidade e dignidade para o próximo e a maioria dos cristãos faz o que? Chama quem precisa dos programas sociais de “vagabundos”?

Expulsam os estrangeiros (pobres, né?), para que não sejam incluídos em nossa sociedade? Diz que bandido bom é bandido morto? Os cristãos deveriam ser os primeiros a apoiarem todas as medidas de distribuição de renda e programas sociais, mas o que vemos por aí é bem o contrário.

Então, esse texto é uma resposta para todos que um dia me mandaram ler a Bíblia: leiam vocês! Leiam Mateus 25! Entendam Mateus 25, entendam que a dignidade humana é centro do discurso de Cristo e que a máxima “direito humanos para humanos direitos” é um contra senso, a ordem é “amai o próximo”. Quem é seu próximo?

Cristo fala que é quem tem fome, frio, está doente, imigrantes e presos. No meu léxico, discurso de ódio não é amor.

Sabe qual é a centralidade da bíblia? Ver Deus no próximo (e o próximo, é todo mundo), esse é o princípio cristão. Assim, apelo aos tantos cristãos que votarão nesse pleito de 2018: não se deixem levar por candidatos que se dizem cristãos, mas não observam o que Cristo diz em Mateus 25. Aproveitam-se da fé das pessoas para fecharem acordos sórdidos e prejudiciais ao povo.

Precisamos de menos gente que seja “pela moral e bons costumes” e mais pessoas que sigam o “amai ao próximo, como a ti mesmo”.

Retomando o texto do caminho de Emaús, aqueles dois discípulos não sabiam que acolhiam o Cristo, e o fizeram de maneira desinteressada. Cristãos que promovem um discurso preconceituoso, cheio de tabus e axiomas religiosos problemáticos, em detrimento de praticar o acolhimento, a dedicação e o respeito ao próximo, me preocupam.

Me preocupam, porque a fé cega, manipuladora e descompromissada com o outro é uma ferramenta de disseminação do ódio pela desculpa do “tá na bíblia”. Tá na bíblia o que?

Textos isolados que são mobilizados apenas para defender o patriarcado, a riqueza de poucos e a criminalização da pobreza? Você já pensou se Cristo estiver te abordando através de uma mulher que sofre violência doméstica? De uma criança pobre que precisa ir à aula? De uma mãe que precisa de programas de distribuição de renda? De um estrangeiro que precisa aprender o português em escolas públicas? De jovens que exigem o direito de ter acesso ao ensino superior público?

Você já pensou se Cristo estiver, agora, em trabalho de parto em uma prisão? Se Ele estiver preso há três anos sem julgamento? Se ele está doente e necessitando de medicamentos caros na fila do SUS? Já pensou? Então reflita sobre isso, pois Ele está, Ele mesmo disse que está.

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

Sexta-feira, 2 de março de 2018
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