O filme Pantera Negra e a nova guinada do idealismo entre nós
Segunda-feira, 5 de março de 2018

O filme Pantera Negra e a nova guinada do idealismo entre nós

Foto: Black Panther/Divulgação 

Quando acabei de assistir ao filme Pantera Negra pensei imediatamente: “É indubitável que há uma nova guinada do pan-africanismo e do idealismo entre nós, mas ela não está se dando sem referências e problemas novos e velhos”. Eu já imaginava ali a discussão que o filme geraria.

No entanto, essa nova guinada é dolorosa e igualmente desafiadora. Quando o príncipe T’Challa (Chadwick Boseman) é chamado ao seu dever de assumir o reinado de Wakanda, certamente não é o movimento de diáspora que o invoca. Porém, o filme Pantera Negra produz discussões novas e antigas sobre a diáspora que dialogam tanto na cultura de massas quanto na cultura popular (de maneira indireta) com o movimento de diáspora.

Por outro lado, como negro de um país idealizado na trama que montou estratégias para sobreviver ao Ocidente, ele é invocado à tarefa sensível de defender aquele projeto. Isso eleva a discussão do filme no contexto dos textos tanto de autores pan-africanistas quanto de marxistas sobre o papel de Hollywood (de quem esperamos muito pouco) e do filme sobre a questão racial na diáspora.

Para alguns desses críticos do filme, ao fazer menção ao Partido dos Panteras Negras, ele ignora sua luta e negligencia seu movimento. A bem da verdade, o diálogo que abre o filme se baseia numa suposta traição ao país Wakanda, em que o tio do príncipe T’Challa supostamente estava traindo o país ao tentar usar as armas tecnologicamente avançadas desse país para a luta do movimento antirracista nos Estados Unidos. Ali está a deixa para a crítica ao filme, cujo roteiro teria negligenciado a luta dos verdadeiros Panteras Negras.

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Pantera Negra e Erik Killmonger.

Porém, o Pantera Negra, ao assumir o reino de Wakanda, se percebe desafiado e combatido após a chegada do primo, também Pantera Negra, Erik Killmonger (Michael B. Jordan).

Erik Killmonger é o grande crítico de Wakanda, advindo da diáspora, que gostaria de usar toda a tecnologia de seu país origem, sintetizada no Vibranium, para libertar os irmãos vilipendiados pelos modernos sistemas de colonialidade e escravidão.

É sintomático quando, derrotado, ele pede para ser lançado ao mar, pois era onde os ancestrais se jogavam, porque preferiam morrer a serem escravizados.

As críticas ao filme assumem um crivo radical quando criam dicotomias sobre o mesmo, sobretudo sobre quem está certo ou errado. A visão de certo e errado aqui provém dessa nova guinada do pan-africanismo entre nós, mas também do que tenho insistido ser uma nova guinada do idealismo.

A base fundamental do idealismo no mundo ocidental tem raiz em Hegel e a crítica a ela se dá de maneira mais assertiva por Karl Marx em toda a sua teoria do materialismo histórico dialético, que ataca ferozmente a representação das coisas e das pessoas como sintoma de um mundo que coisifica pessoas e as subsume em sistemas de dominação.

Porém, o idealismo na modernidade não é privilégio da teoria de Hegel. No século XX ele se mistura ao objetivismo científico e à racionalidade técnica graças ao manejo do positivismo na ciência, perfazendo as ideias de ciência, de nação e de sujeitos que passam a ganhar dimensões idealistas próprias. Assim, é com Ferdinand Saussure que a ideia de idealismo ganha a dimensão real de explicação das coisas através de conceitos.

Para Saussure, a língua é a dimensão social de comunicação da vida em sociedade em contraposição à fala, que é individual, desorganizada e não merece atenção científica. Nesse sentido, o mais importante da teoria de Saussure é o valor que ele dá ao conceito, de maneira que a língua é uma maneira de classificar as coisas do mundo.

No mundo Ocidental o conceito tomou a ideia de real a priori e criou o idealismo que ajudou a construir a luta pelas liberdades individuais e contra as opressões no mundo ocidental. É, talvez, o que o estudioso sobre secularismo Talal Assad chama de o discurso do Ocidente sobre direitos humanos que não se realizou de fato, visto que as liberdades individuais sempre foram sufocadas dentro do sistema capitalista.

Mas então, o que isso tem a ver com o filme Pantera Negra?

Em primeiro lugar porque somente com uma guinada do idealismo entre nós pudemos continuar a construir no ocidente tantas dicotomias, e algumas delas além de certo e errado. O próprio movimento pan-africanista, que já encontra críticas entre os próprios teóricos negros (como é o caso de Achille Mbembe e diversos outros), passou por diversas fases e precisou construir várias dicotomias (porque, não obstante, a branquitude que governou esta nova guinada do idealismo no Ocidente também construiu armadilhas racistas que foram além da escravidão) para sobreviver.

Algumas dessas dicotomias estão satirizadas em Pantera Negra à medida que Erik Killmonger representa o preto oriundo da diáspora, sobrevivente dos sistemas de colonialidadee escravidão, herdeiro do peso dessa escravidão nos dias atuais em sua cor e sua atuação política e o príncipe T’Challa, herdeiro de um país africano que não foi colonizado (como foram os demais países africanos nesses séculos de colonialismo), cuja tecnologia poderia e muito contribuir para a libertação dos povos negros em diáspora, como o projeto de potência negra que tenta sobreviver e fazer seu povo não atravessar a colonialidade.

E por que Wakanda não se preocupa com isso? Essa é a grande sátira no filme, de maneira que ele precisa ser lido além das dicotomias secularizantes.

Enquanto o negro da diáspora, como dizia Fanon, se constrói nas armadilhas do racismo e, como aprofunda Achille Mbembe, se torna ele próprio o signo do racismo (porque a racialidade ocidental constrói o branco como universal e, portanto, ele não é raça, ele é humano, enquanto o negro é raça), a descoberta do Vibranium é fascinante aos olhos de quem quer libertar os irmãos negros da colonialidade que ainda habita entre nós, que gera este enorme genocídio e encarceramento do povo preto no presente.

Todavia, Wakanda, como os países africanos que, embora diferentes de Wakanda, tenham passado por sistemas de colonialismo, não consegue entender as condições impostas aos negros fora da África da mesma forma como nós, negros fora da África. Há muito problema nisso, mas não culpa. Esse é o problema da dicotomia desta nova guinada do idealismo quando ela se mistura com as críticas pan-africanistas ou marxistas de nossa época: é que ela procura culpados na negritude e não na branquitude e nos próprios sistemas racistas.

Primeiro porque essa dicotomia lê o negro como essência e, logo, como um povo homogêneo, e a grande importância do filme é mostrar que o povo negro não tem nada de homogeneidade. Isso não implica em desautorizar a unidade do povo negro contra o racismo, mas não deixar de ver sua heterogeneidade.

Wakanda é um país que luta para não ser colonizado pelo Ocidente porque conhece mais do Ocidente do que ele dela.

Muito me admira que algumas dessas críticas tenham surgido justamente de quem historicamente tenha defendido autodeterminação dos povos. Também me admira que pessoas que lutam contra os estereótipos de homogeneidade que a branquitude nos impele elejam Erik Killmonger como o vilão ou o não gostem da ideia de um negro poder ser vilão.

Essas são as armadilhas das dicotomias desta nova fase do idealismo, pela qual devemos passar ao largo. Nesse caso, passar ao largo das dicotomias ajuda a construir um retrato idealizado de uma parte da África, em Pantera Negra que fala muito da nossa responsabilidade de crítica sobre o papel dos irmãos africanos na luta contra o racismo e contra o colonialismo, e eu diria, para começar, que é a luta pela sobrevivência. Wakanda não é só a idealização de um mundo sem racismo, mas a idealização de uma África não colonizada, que merece mais nosso respeito por ser ficção do que por supostamente não se prender à realidade.

Nem sempre a realidade é revolucionária, ainda que estejamos falando de um filme clássico de Hollywood, que soube colocar em seu roteiro suas imposições (basta ver o papel contraditório de Wakanda e da CIA).

Para finalizar, é preciso não ler o filme apenas com as lentes das dicotomias idealistas do marxismo e do pan-africanismo (sem deixar de valorizá-los em seus papéis na história). Não existe culpado na negritude e não existe negritude homogênea. A negritude está em seu devir e ela é a grande força motriz para derrotar o racismo que lhe criou, desde que o negro não seja em essência (como o próprio racismo e a racialização pela branquitudelhe criaram), mas em resistência.

Gabriel Nascimento é mestre em Linguística Aplicada pela UnB e doutorando em Letras pela USP. É autor de “O Maníaco das onze e meia” e “Este fingimento e outros poemas”. Atualmente é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Segunda-feira, 5 de março de 2018
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