Qual é mesmo o corpo do ser humano?
Terça-feira, 6 de março de 2018

Qual é mesmo o corpo do ser humano?

Foto: Reprodução

Combater estereótipos é urgente para que tenhamos, verdadeiramente, um Brasil mais igual em oportunidades. O ser que habita um corpo que foge aos padrões de “normalidade” imposto pela indústria da moda está fora do ângulo de visão da coletividade e, está fora do mundo!

Nesse padrão de ser humano as pessoas com deficiência não foram incluídas por “questões óbvias”. Por esse desumano contexto é que os empresários recusam-se a empregar pessoas com deficiência. Vale destacar as mulheres com deficiência.

A sociedade enxerga apenas a deficiência e não o ser.

Vê-se, pois, tão-só, a bengala, o cão-guia, a cadeira de rodas, a muleta etc. Quando nos dirige a palavra o faz em tom de piedade e em tom de diminuição. Uma cadeirante adulta é cumprimentada com um afago na cabeça. Se for perto do horário de refeição, por ilustração, lhe é perguntado: “Vai papá, ou já papou?”.

Desta maneira, a pessoa com deficiência é infantilizada para todos os efeitos sociais e legais. É que para elas a magnífica legislação pertinente não lhes é aplicada por ainda não serem reconhecidas como “alguém”.

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A força do capitalismo machista já corroeu nossos cérebros. Presentemente, a “epidemia fitness” – usando o mote da saúde  – está induzindo os humanos a trocarem os seguintes comentários: Qual o tipo de corpo que você está buscando? Ou: Qual o modelito de corpo que você está usando agora?

Claro que a ideia é levar os menos pensantes a consumirem mais e mais todos os produtos e serviços que façam os ajustes necessários para o preenchimento da fôrma da indústria da moda, melhor dizendo, da ordem de beleza padrão. Por mais que os corpos sejam malhados, jamais conseguirão atender o ideal de beleza. Visto como coisa, pode, com tranquilidade, ser afirmado que o empresário trabalha com a obsolescência planejada do corpo.

Assim, têm que viver a margem da sociedade todos os humanos que integram os grupos sociais vulneráveis. As diversidades são excluídas. As pessoas não se reconhecem mais! Perderam, de vez, as respectivas subjetividades.

É pertinente refletir que o nosso ser somente pode existir através do nosso corpo. Dessa sorte, não aceitar as diversidades como são e não como a sociedade as idealizou não se coaduna com uma sociedade que se diz plural e democrática.

De verdade o ser humano tem uma inenarrável condição de maleabilidade que o possibilita adequar-se a todo tipo de intempérie. Portanto, obstaculizar o desenvolvimento humano das pessoas com deficiência, tão-só, pelo estereótipo caracteriza uma barbárie.

Precisamos interpretar a palavra plasticidade

A palavra plasticidade pode ser traduzida por maleabilidade. É o que pode ser moldável. No caso refiro-me ao corpo e a sua potência, a qual pode ser analisada em suas inúmeras faces, melhor dizendo, em sua plasticidade.

O que é o corpo ideal? O discurso autoritário calcado na ótica do capitalismo beira as raias de estimular indiscriminadamente o uso de cirurgias plásticas para a conquista do corpo padrão, ideal para uma sociedade que parou de pensar autonomamente. E ainda fala-se em democratização da beleza!

Com essa falácia a indústria cosmética repete ano a ano um crescimento sem limites, sem fronteiras, no Brasil e no mundo. O que cada ser humano há que ponderar é que a mídia sempre apresenta imagens sensuais do corpo para aumentar sua audiência.

No entanto esse corpo não tem mais a dimensão do corpo humano, mas sim a dimensão do corpo ideal, vitaminado e turbinado, construído e padronizado. Sob essa lógica faz sentido as conversas nas academias, já mencionadas acima. Tipo: Qual o corpo que você escolheu para o momento?

Os corpos atuais, nessa perspectiva fantasmagórica, são fabricados por photoshop. Por esses editores de imagens os corpos que representam as diversidades foram deletados do campo de visão da sociedade capitalista. Ficaram à margem dos holofotes do exibicionismo. Qual é mesmo o corpo do ser humano?

Deborah Prates é advogada, presidente da Comissão da Mulher do IAB e feminista.

Terça-feira, 6 de março de 2018
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