A relevância de Patricia Hill Collins para o ativismo intelectual de mulheres negras
Quinta-feira, 8 de março de 2018

A relevância de Patricia Hill Collins para o ativismo intelectual de mulheres negras

Festival Latinidades 2014. Foto: Fora do Eixo.

Durante essa semana a internet vai estar recheada de postagens, publicações, tweets, notícias que falam da importância das mulheres, suas trajetórias, pioneirismo e biografias. Infelizmente, pouquíssimas publicações de blogs, sites e páginas centralizarão as trajetórias e projetos de mulheres negras que contribuíram para o feminismo. 

Por mais que tenhamos avançado significativamente em termos de representatividade e reverberação das vozes e agendas de mulheres negras, ainda estamos colocadas à margem e, no movimento geral de mulheres, jamais ao centro. Nesse sentido, resolvi escrever textos diversos, sobre a trajetória de diversas mulheres negras, para as variadas plataformas que contribuo gratuitamente como uma forma de ciberativismo que auxilia na repercussão dos contributos e das agendas políticas dos movimentos de mulheres negras.

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A escolha de iniciar essa série por Patricia Hill Collins não é aleatória. As pessoas que me acompanham mais diretamente sabem que eu tenho me dedicado na árdua tarefa de compreender o pensamento teórico desenvolvido por ela. É um esforço acadêmico organizado em uma motivação política: fortalecer o ativismo intelectual negro brasileiro a partir de mulheres que rompem as barreiras do racismo e do sexismo, para construir projetos de justiça social e equidade que sejam robustos o suficiente para que ninguém precise “puxar a outra”.

Patrícia Hill Collins é bastante conhecida no Brasil, mas existem poucos materiais traduzidos para o português que falem sobre quem essa mulher é. Acho importante que intelectuais negras também possam ter suas trajetórias refletidas e não apenas suas contribuições teóricas. No caso de Patrícia, há de se dizer que o reconhecimento de sua produção intelectual no Brasil ainda não está consolidado nas academias brasileiras.

Não há escolas de pensamento que levem seu nome, como existem de outros intelectuais, também ainda não foi viabilizado nas produções acadêmicas brasileiras uma organização comprometida do seu pensamento e, ainda que frequentemente Patricia venha ao Brasil participar de fóruns de mulheres negras e eventos políticos e acadêmicos, o arcabouço teórico por ela desenvolvido fica em um segundo plano nas dissertações, teses e compêndios acadêmicos desenvolvidos sobre os temas de sexualidade e gênero.

Em um momento mais oportuno, com os resultados do desenvolvimento da minha dissertação mais bem elaborados, pretendo discorrer sobre os principais conceitos de Black Feminist Thought, sua obra mais consagrada. Nesse texto, irei apenas escrever algumas linhas sobre a trajetória de Hill Collins refletindo sua relevância para o ativismo de mulheres negras nas Américas.

Quem é Patrícia Hill Collins?

Patrícia Hill Collins nasceu na Filadélfia em 1948, sendo a única filha de um casal de trabalhadores que foi duramente afetado pela II Guerra Mundial: Eunice Randolph Hill e Albert Hill. Sua mãe migrou para Washington durante a Segunda Guerra para trabalhar e o pai de Patricia era um veterano de guerra. Foi nesse contexto que Eunice e Albert se conheceram.

Ela pertence, portanto, a uma geração de filhos da classe trabalhadora norte-americana que tiveram acesso a educação, diferentemente dos seus pais. Negros e negras que nos anos 60 e 70 ampliaram a duras penas as possibilidades de acesso e permanência na educação superior. Processo que no Brasil só foi ser implementado de maneira mais significativa em meados dos anos 2000. Esse é um ponto importante da relevância do pensamento da autora, Hill Collins reflete as experiências das mulheres negras constantemente a partir da sua própria história pessoal.

Transforma em teoria o subjetivo e centraliza as práticas políticas e afetivas das mulheres negras como estratégias ímpares para a retomada de vozes coletivas que historicamente são silenciadas, mais do que isso, Hill Collins consegue propor alternativas e estratégias para outros grupos subordinados a partir dos processos de resistência e auto-conhecimento de mulheres negras, os quais se dão para além dos espaços institucionais.

No prefácio da primeira edição de Black Feminist Thought, Patricia compartilha com seus leitores e leitoras uma memória de sua infância. Ela relata uma ocasião em sua escola em que foi escolhida para representar a primavera em um evento letivo. Descreve então como que “ser a Primavera” naquela comunidade de pessoas iguais a ela, negras e trabalhadoras, significou um reforço positivo em sua identidade, uma vez que todos elogiavam de maneira pormenorizada o quão bem sucedida ela tinha sido no desempenho da tarefa.

Porém, conforme o mundo ao redor dela vai crescendo ela aprende que mesmo os seus maiores esforços não serão reconhecidos de maneira positiva pelas pessoas ao redor. No que pese a certeza de não haver nada errado consigo mesma, a maneira com que o exterior nos lê consolida uma ideia de que as mulheres negras não têm muito a contribuir socialmente.

O mundo ao nosso redor cresce e nós vamos diminuindo. Nossas vozes, que outrora refletiam a primavera, passam a ser silenciadas de maneira tão violenta que acabamos esquecendo que possuímos uma voz e não precisamos da de ninguém para definir quem somos.

A menina que outrora ocupava um posto de destaque numa apresentação escolar, torna-se uma graduanda tímida, porém extremamente esforçada. Contudo, o reconhecimento que ela anteriormente tinha no interior da sua comunidade não se estabelece da mesma forma na universidade. E nós, mulheres negras brasileiras da geração atual que ocupamos as universidades nesse momento, sabemos o quão duro e desagregador pode ser a experiência acadêmica.

Sem um forte senso de auto-definição e compartilhamento entre mulheres negras, a academia significa um ambiente de morte.

Morte da nossa auto-estima, morte dos nossos projetos e, assustadoramente, morte do nosso corpo físico. No período em que Hill Collins fez a graduação as universidades norte-americanas não eram um espaço acolhedor para mulheres negras. O ensino superior brasileiro atualmente também não é. 

No que pese esse cenário, o acesso ao conhecimento possibilitou que Hill Collins recuperasse a sua própria voz. E esses relatos que ela faz de sua própria experiência acadêmica, talvez seja a razão pela qual eu me dedico de maneira tão esforçada a compreender os complexos enquadramentos teóricos que ela desenvolve.

De forma muito humilde me reconheço na escrita de Hill Collins, o acesso ao conhecimento é o que permite que eu nunca perca a minha própria voz. Embora às vezes ela fique meio rouca, os momentos de dedicação e estudo às epistemologias feministas negras fazem com que eu me recorde da potência das estratégias de sobrevivência de mulheres que vieram antes de mim, mulheres que possibilitaram para minha geração uma outra forma de expressar nossas demandas, corporiedades, sentimentos e agendas politicas.

Hoje, graças ao ativismo intelectual de Hill Collins, sabemos que o nosso próprio ponto de vista sobre nós mesmas é importante para articular soluções para os problemas sociais. Mais do que isso, as construções esteriotipadas sobre nossos corpos e mentes são estratégias de dominação e não naturalizações genéricas. A intelectual ativista reflete de maneira muito precisa como a experiência de ser a única, ou uma das poucas mulheres negras oriundas da classe trabalhadora no privilegiado espaço da academia constitui-se como um “nunca estar em casa”. 

Em 1965 Patrícia ingressa na Brandeis University, por onde também passou Angela Davis, e muda-se da Filadelfia para Boston. Foi fortemente influenciada por Pauli Murray, liderança do movimento pelos direitos civis norte-americano que em 1938 reivindicou seu ingresso na University of North Carolina. Com o apoio da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People — Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor)o caso de Murray repercutiu nacionalmente, entretanto apenas em 1951 a instituição aceitou seu primeiro estudante negro. Murray atuou junto à Luther King, era advogada e também foi a primeira mulher negra a ser ordenada bispa pela igreja anglicana.

A trajetória intelectual de Hill Collins, portanto, é imbricada ao histórico de mulheres negras que a antecederam. Ainda na universidade Patricia atuou junto à movimentos progressistas no interior da comunidade negra de Boston. Assim como a minha trajetória vem sendo influenciada por aquelas que ousaram afrontar a hegemonia branca e suas ideologias antes de mim, construindo reflexões e agendas intergeracionais entre mulheres negras, a influência das mulheres negras de gerações anteriores é evidente na organização teórica de Hill Collins.

Os conceitos desenvolvidos em Black Feminist Thought organizam-se a partir dos históricos e trajetórias das mulheres negras afro-americanas. O referencial bibliográfico também fala bastante alto sobre o rigor metodológico com que Hill Collins construiu a obra, utilizando-se de conceitos de intelectuais do pensamento filosófico ocidental clássico para explodir a potência e a relevância do pensamento intelectual feminista negro. 

Especialmente porque as epistemologias feministas negras carregam a possibilidade de reflexão comprometida a cerca da maneira com que as ações coletivas e individuais podem se constituir enquanto ferramentas de subordinação de outros. Conforme a própria Hill Collins escreve:

“[…]comumente feministas apontam com confiança para suas opressões sofridas por serem mulheres, mas resistem em ver o quanto de privilégio sua pele branca lhes traz. Afro-americanos que têm análises eloquentes sobre o racismo, frequentemente persistem em ver mulheres brancas pobres como símbolo do poder branco. A esquerda radical não se sai muito melhor. ‘Se ao menos pessoas negras e mulheres pudessem ver seus verdadeiros interesses de classe’,argumentam, ‘a solidariedade de classe poderia eliminar o racismo e o machismo’. Em essência, cada grupo identifica o tipo de opressão que se sente mais à vontade em atribuir como fundamental e classificam todos os outros tipos como menos importantes.”

Repensar raça, classe, gênero, sexualidade e outras categorias como ferramentas de análise social tem sido a grande tarefa acadêmica e ativista de Hill Collins.

A dedicação acadêmica no campo da sociologia possibilitou que Patricia pudesse articular de maneira mais aprofundada seu ativismo político e intelectual. O conhecimento formal acadêmico, articulado com um profundo compromisso com justiça social e equidade, é uma ferramenta poderosa para as mulheres negras, a qual a ativista e intelectual maneja com elegância, assertividade e afeto, como é possível perceber em suas palestras e escritos.

Para Hill Collins, a sociologia é um campo de conhecimento que situa bem no centro entre as ciências e a filosofia, a ênfase nos dados empíricos pode revelar estruturas e padrões ocultos que não estão óbvios se o empenho é explicar fenômenos naturais ou sociais. A filosofia oferece explicações e interpretações. Patricia atraiu-se pela sociologia em Brandeis, a partir da centralidade da sociologia do conhecimento nessa universidade.

Para ela, a sociologia também foi o lugar onde se formulou academicamente sobre raça, permitindo que a partir dessa ferramenta ela fosse capaz de chegar em várias direções. E a maneira com que Hill Collins descreve a importância do conhecimento formal na sua vida é outro lugar de aproximação e admiração que tenho com sua forma de produzir e atuar acadêmica e politicamente.

O conhecimento é uma ferramenta fundamental para o ativismo de mulheres negras, uma ferramenta emancipatória e robusta o suficiente para que nossas mentes não sejam mais aprisionadas em conceitos e determinações pré-elaboradas sobre nós.

Permite também que sejamos capazes de analisar nossas contradições e atuar para que as mesmas não sejam impeditivos da construção de uma justiça social para homens negros, mulheres não negras, trabalhadores, povos originários, pessoas com capacidades físicas reduzidas, gay, lésbicas, bisexuais, travestis e pessoas trans. É a partir do conhecimento que conseguimos estar vigilantes a maneira com que interagimos com a sociedade de conjunto, com as mulheres negras em nossos espaços seguros e com nossos projetos políticos e pessoais.

Após a graduação, Patricia Hill Collins fez mestrado em Harvard também na área de sociologia, com foco em educação. Enquanto professora , esteve diretamente envolvida na formulação curricular da St. Joseph’s School, uma escola comunitária multi-racial. Entre 1976 a 1980, foi diretora do Centro Afro-Americano da Universidade Tufts, diretamente envolvida com o programa educacional da instituição. Foi durante seu tempo de trabalho em Tufts que ela conheceu Roger Collins, seu marido. Casou-se em 1977 e em 1979 tornou-se mãe de Valerie, sua única filha.  Em 1980, retornou para Brandeis para fazer o doutorado em sociologia. Foi minority fellow da Associação Americana de Sociologia e recebeu o Sidney Spivack Dissertation Supor tAward, um programa de fomento a pesquisas acadêmicas que possibilitem aproximar o conhecimento da Sociologia das demandas sociais identificadas pelas comunidades.

Em 1982, Patricia muda-se para Cincinatti com sua família, ingressando no Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Cincinatti. Fica 23 anos trabalhando com estudos afro-americanos nessa instituição, o seu destaque acadêmico bem como seu compromisso intelectual com a área possibilitou que Patricia questionasse a tendência dos acadêmicos a estabelecer “caixinhas”para enquadrar problemas sociais nos campos de conhecimento. Também desenvolveu conexões entre os estudos feministas. Em 1966 tornou-se Charles Phelps Taft Distinguished Professor of Sociology, e atualmente é professora emérita da Universidade de Cincinatti.

Em 2005, ingressa na Universidade de Maryland, desenvolvendo junto aos estudantes de graduação pesquisas relativas à raça, pensamento feminista e teoria social. O trabalho de Hill Collins influencia pesquisadores e ativistas negros por todo o planeta, a socióloga esteve no Brasil no Festival Latinidades 2014, um dos maiores eventos intelectuais organizados por mulheres negras no país.

Ela voltará ao Brasil em 2018, para participar da IV Conferência Internacional Greves e Conflitos Sociais em São Paulo.

A leitura do trabalho intelectual de Hill Collins é uma experiência importante para o ativismo de mulheres negras, especialmente pela forma com que ela problematiza conceitos e experiências dos movimentos de mulheres negras. Alguns de seus textos mais famosos já foram traduzidos para o português e publicados em revistas acadêmicas brasileiras, como é o caso do artigo “Learning fromthe Outsider Within”, onde ela articula a maneira com que raça, classe e gênero irá afetar a localização dos sujeitos dentro das instituições.

Recentemente também foi lançado em português o texto “Se perdeu na tradução?”, texto fundamental para compreender o conceito de interseccionalidade e a relevância de recuperar uma agenda política de mulheres negras organizada a partir da interseccionalidade enquanto uma práxis política de reivindicação de justiça e equidade social ampliada.

O trabalho de Patrícia Hill Collins é muito mais amplo do que eu consegui abordar nessas breves linhas, muito mais relevante também. Patrícia é a única mulher negra, e a única mulher viva, a figurar na lista da ThoughtCo, um importante portal acadêmico norte americano, de sociólogos mais importantes da história. A própria Hill Collins não gosta de ser a única, ou uma das poucas, em listas desse tipo. Ela mesma adverte o quão controlador e perigoso é mulheres negras ocupando essas posições, contudo é exatamente esse tipo de consciência, de  compromisso em ampliar e visibilizar a ação política de mulheres negras para além dela mesma de forma absolutamente solidária e rigorosa, que faz de Patrícia Hill Collins uma das mais importantes mulheres negras da nossa história.

Uma de nós, que merece ser lida, reconhecida mundialmente, estudada com o rigor e o compromisso intelectual que ela mesma dedica aos seus projetos para que outras meninas negras possam representar a primavera em todas as fases de sua vida sem serem inferiorizadas, controladas e silenciadas.

Que sejamos capazes de colher primaveras em todas nós, que o pensamento e a trajetória de Patricia Hill Collins nos permita florescer.

Winnie Bueno é Iyaloríxa, Mestranda em Direito Público pela Unisinos/RS.


Referências

COLLINS, Patricia Hill. Black feministthought: Knowledge, consciousness, andthepoliticsof empowerment. Routledge, 2002.

https://www.brandeis.edu/gittlerprize/recipients/past/collins.html

Pauli Murray Project

Anna Pauline (Pauli) Murray wasborn in Baltimore on 20th November, 1910. Hermother, Agnes Murray diedof a cerebral…paulimurrayproject.org

https://www.thoughtco.com/famous-sociologists-3026648

http://www.asanet.org/sites/default/files/savvy/footnotes/septoct08/collins.html

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