A matrialidade como princípio em espiritualidades afroameríndias
Segunda-feira, 12 de março de 2018

A matrialidade como princípio em espiritualidades afroameríndias

Foto:  Zoogodô Bogum Malê Hundó

Este artigo surge de um convite à discussão acerca da presença, ou não, do machismo em práticas de religiosidades afroameríndias como o Candomblé. Ao tratarmos da força feminina no Candomblé é preciso compreender o caráter matrial que advém da matriz cultural africana.

Em estudos realizados a respeito da organização de cosmovisão africana e ameríndia é nítida a concepção de que a força feminina é a regente e geradora da vida e vitalidade de toda a comunidade humana, organização social, aldeia ou reino. Por isso diversos estudos agrupam as cosmovisões afroameríndias, devido sua matrialidade e, sem dúvida, por sua condição histórica em territórios colonizados das américas. Sendo assim, estabelecemos uma tabela para exemplificar paralelos opostos entre as culturas afroameríndias e as culturas de matriz europeia patriarcal.

Matrizes afroameríndias Matriz ocidental moderna
Matrialidade Patriarcado
Comunidades/reinados coletivistas Estado-nação contratualista
Razão sensível, holonômica[1] Razão aristotélica maniqueísta
Afetivo-naturalista Oligárquica-individualista
Espaçotempo espiralado crepuscular Espaço-tempo linear impositivo

Ao tratarmos então de culturas, religiosidades ou tradições associadas a estas matrizes afroameríndias precisamos nos lembrar de seus princípios básicos e fundadores. Uma vez que são eles os alicerces de uma variedade imensa das diversas roupagens de manifestações culturais em comunidades descendentes destas diásporas.

Falamos em “comum-unidade regida pela força matrial, ou seja, pela constituição de um equivalente simbólico entre mãe, sábia e amada que carrega maestrias religadoras e remediadoras, num exercício da razão sensível.” (FERREIRA-SANTOS, 2005a). O que nos remete a uma regência não autoritária, mas dialógica, que estabelece através do respeito a maneira mais natural de se entender o significado da palavra Mãe.

Nestas culturas, a complementariedade é igualmente um princípio básico, um exemplo bastante emblemático é o mito da criação entre os povos ewe-fon, em que Mawú, força geradora feminina, é o que o mundo ocidental chamaria de Deusa Suprema, que por sua vez, alia-se a força criadora masculina Lisá, que pode ser equivalente ao orixá Oxalá, entre os yorubá.

Eduardo Oliveira nos traz contribuições importantes a respeito de como o poder é exercido na filosofia afrodescendente.

“(…) apesar das diferenças entre os elementos (masculino e feminino), vê-se claramente que são complementares e fundamentais para o bom funcionamento do organismo social, pois sem os quais não haveria o bem-estar da comunidade. As funções de homens e mulheres são complementares e benéficas à sociedade como um todo. (…) O poder é um exercício calcado na tradição para garantir o bem-estar da sociedade, (…) portanto é um instrumento da tradição dos ancestrais para perpetuar no aiyê a ordem do sagrado e a moralidade dos ancestrais”. (OLIVEIRA, 2003, p. 60)

Mãe Senhora, por Pierre Verger Ilê Axé Opô Afonjá Salvador, Bahia. 1948-1967

Trio de atabaques, por Pierre Verger Rum, Rumpi, Le Sem data nem local exato.

As fotografias acima ilustram alguns dos princípios mencionados, a matriarca Mãe Senhora do terreiro de Candomblé Ilê Axé Opô Afonjá rodeada por mulheres devidamente paramentadas, indica a realeza de seu posto e a importância do elemento feminino como alicerce desta religiosidade. Por outro lado, a formação em trio dos atabaques, rum, rumpi e le, além de nos remeter à Tríade de Equilíbrio da cosmovisão africana (que também está presente nas culturas ameríndias) demonstra a funcionalidade e importância de serem entoados por homens, como princípio de complementaridade masculino/feminino.

As divisões de tarefas, ou chamada divisão social do trabalho, entre as culturas de matrizes afroameríndias são estabelecidas como princípio de energia vinculada, e esta energia principia na polaridade masculino/feminino, como frio/quente, alto/baixo, esquerda/direita e assim por diante, como yin/yang, estas polaridades não são dualistas e sim preenchedoras complementares, contidas em seu opositor preenchendo em equilíbrio de 30 e 70 porcento (como nos ensina Bàbá Decemi).

O princípio feminino está associado à magia, ao segredo, ao mistério crepuscular da vida, enquanto ao masculino cabe sustentá-la, no sentido de dar suporte e mantenimento. “O àse se encontra em todos os lugares, nas plantas ou no sangue dos animais. Os òrìsà são o àse das forças da natureza, o dos poderes e potência das mulheres é Ìyàmi.” (VERGER em MOURA, 1994, p. 34) Ìyàmi é a feiticeira, àjé, o poder da transmutação e da magia. Na religiosidade afroameríndia, a mão da mulher é detentora e transmissora de axé, por isso, tudo em que ela toca, faz e fala contém axé. Por isso, a maioria dos afazeres que envolvem a ritualística litúrgica cabe à mão feminina, assim como a comida feita por mulher é sagrada e é a mulher que cozinha a comida a ser ofertada aos ancestrais. Não porque esta obrigação a faz uma “empregada” da cozinha, como o patriarcado colonial estabeleceu, reproduzindo o imaginário das “mucamas”. Este é apenas um exemplo de como o desvio, a deturpação é conveniente e superficial.

As funções no Candomblé são estabelecidas como cargos, tradicionalmente o cargo de Iyalorixá (Iyalorisà, nome de zeladora do àse em yoruba; Gaiaku/Done/Vodunon em ewe-fon; Mametu em bantu) é resignado a uma mulher que recebe em seu orì (cabeça) o orixá, chamada rodante (vodunsi/ìyàwó) , e que cumpriu com todas as obrigações iniciáticas e mantenedoras de 7 em 7 anos (Etemi/Egbomi). A ekede (Èkèdjí para os ewe-fon; Àjòyè, Ìyároba para os yoruba; Makota para os bantu) é como uma assessora da zeladora, tanto para conselhos como em relação a organização prática dos procedimentos religiosos, é a ela atribuída os cuidados referentes aos pertences de orisà, vodun e nkisi, também exerce função de interlocutora da voz destes ancestrais para com as pessoas da comunidade.

Referente à função masculina no culto à ancestralidade afroameríndia, é preciso mencionar que recentemente, em diversas casas de culto de matriz africana, o homem também exerce função de zelador de àse, como em África se chama osó (oxô) o feiticeiro, entre os yoruba, o Bàbálorisà é comum em terreiros no Brasil. Tradicionalmente, a função masculina a ser exercida no Candomblé é conhecido como a de ogán (em yoruba), húntó (em ewe-fon) e kambono (em bantu), sendo também conhecido como alágbè, ou húntógán, o tocador e principal cantador dos oríkì (orações) entoados aos ancestrais. Aos mais velhos cabe realizar a obrigação ofertada a ancestrais, que são também funções de atribuição de ogans.

Estas funções passaram a ser vistas com um certo prestígio social a quem as exerce, conferido pela deturpação que o machismo impregna em nossa sociedade como um todo. O que uma vez foi mera separação social do trabalho a partir de princípios cosmogônicos, passou a ser visto como um “privilégio” e muitas vezes, esta distorção chega até a gerar abuso de poder ou opressão de gênero, quando se estimula uma desigualdade de importância religiosa. Como vemos no cotidiano das religiosidades de matriz afroameríndia que diversas funções necessárias para manter o bom andamento da prática religiosa vão para além do citado acima, como: manutenção da estrutura da casa, limpeza, coleta de folhas sagradas, descarte de resíduos orgânicos (ou não), entre outras, também são atribuições masculinas, mas estas, muitas vezes, são vistas como menos “prestigiosas” quanto aquelas restritas ao ritual litúrgico. O que gerou alguns chamamentos jocosos, como “ogan de saleta”, que são aqueles que fazem apenas a “social”, pousando de um suposto “status” em sua comunidade.

Esta negligência é, aparentemente, uma problemática menos violenta associada ao machismo, mas que nos corrói a essência da espiritualidade. Não podemos generalizar este fenômeno para todas casas ou terreiros de axé, entretanto, em decorrência desta deturpação causada pelo oportunismo machista de que estas tarefas seriam “domésticas”, e por isso seriam estritamente femininas (como o sexismo branco o faz), a negligência destas tarefas sobrecarregam os afazeres das mulheres que, por serem o vórtice da espiritualidade afroameríndia, acabam por realizar as tarefas deixadas para trás, porque no final, a apresentação e a aparência também são asseios requisitados pela ancestralidade.

Mas para profundos conhecedores da mitologia tradicional africana é nítida a complementariedade do masculino ao feminino, e mais do que isso, a negligência do masculino é muitas vezes suprida pelo compromisso feminino, sendo uma maneira de se manter viva a prática religiosa. Como no conto de Nàná, em que Gu (Ògún) é convocado para cortar na obrigação em seu reino, este tinha o costume de ser meio displicente e costumava se atrasar em compromissos. Nàná que sempre foi muito rigorosa, vendo o atraso de seu convidado, decidiu surpreendê-lo com seus poderes, em sua chegada ao reino da Senhora dos Pântanos com três dias de atraso, no momento da obrigação cerimonial, ao levantar sua ferramenta, Gu se deparou com o falecimento de todos os animais conferidos às oferendas e viu que sua posição ali passou a ser desnecessária. Gu, muito envergonhado se desculpou com a Senhora da Vida e da Morte e desde então passou a cuidar do tempo, inventou o relógio, o cronômetro e é Patrono dos Transportes e das Renovações Tecnológicas…

Para falar sobre isso, ninguém melhor que bell hooks com sua esplêndida ousadia.

“The labeling of the white male patriarch as “chauvinist pig” provided a convenient scapegoat for black male sexists. They could join with white and black women to protest against white male oppression and divert attention away from their sexism, their support of patriarchy, and they sexist exploitation of women. Black leader, male and female, have been unwilling to acknowledge black male sexist oppression of black women because they do not want to acknowledge that racism is not the only oppressive force in our lives. Nor do they wish to complicate efforts to resist racism by acknowledging that black men can be victimized by racism but at thesame time act as sexist oppressors of black women”.

– hooks, 2015, pp. 87-88.

“A marca do branco patriarca como “porco chauvinista” proporcionou um bode expiatório conveniente para negros machistas. Eles poderiam se juntar a mulheres brancas e negras para protestar contra a opressão masculina branca e desviar a atenção de seu sexismo, seu apoio ao patriarcado e sua exploração sexual de mulheres. Líderes negro/as, têm evitado reconhecer a opressão do sexismo negro sobre mulheres negras porque não querem reconhecer que o racismo não é a única força opressiva em nossas vidas. Também não desejam esforços complexos para resistir ao racismo, reconhecendo que os homens negros podem ser vítimas de racismo, mas ao mesmo tempo agem como opressores sexistas de mulheres negras”.

Esta reflexão nos remete a uma dificuldade de assumirmos uma, já anunciada, nova perspectiva de estudos críticos, a interseccionalidade entre raça, gênero e classe. Diversos dos conflitos que vivenciamos advém destes desvios culturais, o que compromete inclusive nossa plenitude de existência e faz com que muitos intelectuais críticos eurocentristas nos vejam como resíduos, como traços de uma tradicionalidade fracassada que caminha à extinção.

O fato é que este princípio fundador matrial, dialógico e crepuscular se estabelece de maneira acolhedora, que muitas vezes não é entendida por muitos homens que vivenciam e coexistem nestes círculos religiosos. Por diversas vezes escorregam em seu cômodo falocentrismo e acabam por reproduzir as armas do patriarcado. Lídia Avelar Estanislau, ao explanar sobre um feminismo plural, traz reflexões assertivas sobre o que eu chamo de “feminismo orgânico”, assim como bell hooks em seu prefácio fala sobre como sua mãe a inspirou com sua força, mesmo sem ter participado de movimentos de liber(t)ação das mulheres, ou sem teorias que a subsidiasse, soube deixar às gerações futuras a prática de como alcançar suas próprias escolhas, liberdade e integralidade de mente, corpo e ser.

Por razões históricas e socioeconômicas, (…) nós negras não fazemos o gênero submissa. Além de outros efeitos do racismo brasileiro, nossa vida cotidiana como chefes de família, em decorrência do desemprego, da escolaridade insuficiente, baixa remuneração e da violência policial que atingem nossos companheiros, acabou por nos conferir práticas e posturas consideradas agressivas, porque dotadas de autonomia

– Gonzales e Hansenbalg, 1982.

A sociedade brasileira e cristã pretendeu expiar a culpa de seu pecado colonial com a criação de instituições públicas – fundações, secretarias, conselhos – além de amparar constitucionalmente, desde 1988, a punição de práticas racistas e sexistas no Brasil. Mas as instituições têm orçamento insuficiente e são, em grande parte, equivocadas em suas políticas. O sexismo “carinhoso” e o racismo cordial, que ainda permanecem na exaltação da mulata e do modelo afro-baiano de carnaval ou na exigência, por parte dos mesmos segmentos empenhados na destruição das identidades étnicas nativas daqui e d’África, de uma identidade indígena “cientificamente comprovada”, remete a questões que não são tematizada, consideradas como problemas periféricos, logo, sem opção preferencial”.

– ESTANISLAU em FONSECA, 2001, pp. 214-215

Queremos deixar nítido aqui os princípios fundadores da filosofia e cosmovisão da espiritualidade afroameríndia que a distingue então da lógica sexista sedimentada na sociedade ocidental moderna.

Chamamos a atenção que, apesar dos esforços de se propagar esta distinção, o Candomblé e demais religiões de matriz afroameríndia não estão salvas das práticas e distorções causadas pela perversidade e oportunismo machistas, presentes em nossa sociedade como um todo.

Este exercício de tomada de consciência é de extrema importância para que possamos, ambos os gêneros e outras identidades sexuais em conjunto, superar as desigualdades e opressões de gênero dentro de nossas comunidades e formando assim uma voz que ecoe em nossa sociedade nos dias de hoje. Esta é uma luta que deve ser empreitada pelas comunidades religiosas afroameríndias e descendentes em geral, uma vez que é na espiritualidade que as pessoas buscam a paz, a congregação da fé e do culto a ancestralidade matrial, a Mãe Terra. Reverberando em nossos lares, na educação de nossas crianças e na impressão da população em geral que queira nos ter como referência de transformação social e prática de humanismo.

Como nos lembra Stuart Hall, a África metafórica é a principal dimensão de nossa sociedade e história que foi maciçamente suprimida, sistematicamente desonrada e incessantemente negada e isso, apesar de tudo o que ocorreu, permanece. (HALL, 2003, p.41) Unida a minha eterna parceira Elis Regina Feitosa do Vale, aplicamos igualmente esta desonrosa empreitada da colonização contra PachaMama, como a chama os povos andinos. Esta tomada de consciência é de fundamental importância rumo à decolonização tão almejada ao nosso pensamento e a nossos corpos res(ex)istentes das diásporas africanas em terras ameríndias.

Ekedji Erenay Mawúsì Tupinamba é o nome religioso adotado por Erenay Martins Maciel, capoeira e arteducadora, geógrafa mestra em Educação pela Universidade de São Paulo.


Bibliografia

FERREIRA-SANTOS, Marcos. Práticas Crepusculares: Mytho, Ciência & Educação no Instituto Butantan – Um Estudo de Caso em Antropologia Filosófica. FEUSP, Tese de doutoramento, 1998.

_______________________. Matrices de la persona afro-ameríndia: escritura como obra de vida. Cali: Universidad de San Buenaventura Cali, Maestría en Educación –Desarrollo Humano, 2009.

FONSECA, Maria Nazareth Soares (org.). Brasil afro-brasileiro. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

HOOKS, Bell. Ain’t I a woman: Black women and feminism. NY: Routledge, 2015.

MARTINS-MACIEL, Erenay. Espaçotempo & Ancestralidadede Matriz Africana em Terras Caboclas. São Paulo: FEUSP, dissertação de Mestrado, 2015.

MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de (org.). As Senhoras do Pássaro da Noite: Escritos sobre a Religião dos Orixás V. São Paulo: EdUSP/Axis Mundi, 1994.

OLIVEIRA, David Eduardo de. Cosmovisão Africana no Brasil, elementos para uma filosofia afrodescendente. Fortaleza: LCR, 2003.

VALE, Elis Regina Feitosa. Capoeranças em verso e prosa: imagens da força matrial afro-ameríndia em literaturas da Capoeira Angola. São Paulo: FEUSP, dissertação de Mestrado, 2012.

[1] Ferreira-Santos: “Holonômico provém do grego holón: inteiro, completo. Portanto complexo e vinculado.” (…) “Aqui utilizo o termo “gradiente” em substituição ao termo ‘paradigma’ ao me referir à transmutação da racionalização clássica em uma racionalidade/sensibilidade hermesiana (holonômica, ou em termos mais simples: uma razão sensível).” FERREIRA-SANTOS, 1998, p. 32-33

Segunda-feira, 12 de março de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]