Ativistas do Movimento Negro se manifestam em repúdio ao assassinato de Marielle Franco
Quinta-feira, 15 de março de 2018

Ativistas do Movimento Negro se manifestam em repúdio ao assassinato de Marielle Franco

Mulher olha para carro em que corpo de Marielle estava sendo levado. Foto: Mauro Pimentel/AFP.

O assassinato brutal da vereadora no Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL-RJ) e de Anderson Gomes, seu motorista, na região central, ontem, 14, repercutiu intensamente no Movimento Negro, cujos ativistas lamentam, protestam, cobram postura de pessoas brancas e organizam manifestações em repúdio ao ocorrido.

Em publicação na rede social, a jornalista Monique Evelle cobrou pessoas brancas a tomarem posição. “A luta só continua para quem está vivo! E quem garante que continuaremos? A esquerda cirandeira não será massacrada por denunciar a polícia, porque ela nos faz de escudo igualzinho à Guerra do Paraguai (quem resiste, vai pra frente, enfrenta são corpos negros). Façam uma ciranda bem feita, a ponto de nos blindarmos, porque não aguento mais chorar por luto e enterrar corpos negro.”

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Já a colunista no Justificando, arquiteta e feminista negra Joice Berth, chamou a atenção para quem faz uso político do assassinato de Marielle pelo golpe, enquanto corrobora para a lógica racista se omitindo a respeito da discussão racial:

“As pessoas que estão atribuindo a execução da Marielle ao golpe, peço que parem. Isso é leviandade. Marielle foi executada por denunciar o genocídio da população negra, que segue em curso desde a época da escravidão.

É uma falta de respeito falar em golpe nesse momento. Nós estamos sendo executados nas mãos do sistema racista continuamente.

O nosso golpe, o golpe que deram na população negra antecede o impeachment da Dilma. É um golpe de toda a branquitude que se omite a respeito da discussão racial.

Respeitem a memória de Marielle, de Amarildo, dos 5 meninos de Costa Barros, do Cabula, da Luana Barbosa, da Claudia e de tantos outros pretos e pretas que morrem esperando que a branquitude acorde e faça sua parte.

Cuidem do racismo de vocês. Da omissão e do descaso diante do que sofremos diariamente.

Principalmente esses que se dizem “de esquerda” e que usam convenientemente a pauta racial mas nunca fazem nada pela população negra deste país.

Não é golpe. É genocídio.

Não adianta luto. Adianta luta”.

A ativista, advogada no Rio de Janeiro e feminista negra Laura Astrolabio dos Santos conclamou que a cidade deve parar – “os tiros em Marielle “pegaram de raspão” em cada uma de nós, mulheres negras, que não se calam diante das barbáries direcionadas a pretos e pobres nesse país. E isso acontece em plena intervenção militar no Estado do Rio de Janeiro. (…) Que Olorum a receba. Que Iansã conforte o coração da família dessa mulher, que a justiça seja feita e que amanhã todos tenham a consciência de que o Rio de Janeiro tem que parar!” – publicou em suas redes sociais.

Átila Roque, diretor da Fundação Ford no Brasil, lamentou a morte e afirmou que “vamos para cima, mais do que nunca” – Marielle Franco, guerreira, mulher negra, linda, destemida, amiga, ninguém podia parar você. Pensam que pararam, esses covardes que hoje tiraram a sua vida e a de Anderson Pedro Gomes, o motorista que a acompanhava. Mas apenas multiplicaram a sua força em todos nós. Vamos pra cima, mais do que nunca.

Ativistas lamentam com profundo pesar

Profundo pesar tomou ativistas que foram surpreendidos com este episódio tão brutal. Nas redes, a Mestra em Filosofia Djamila Ribeiro condenou “terrível assassinato”, que causou a “perda irreparável” – “Estou sem palavras hoje, meu peito dói, não consegui dormir, estou cansada de ver a gente ser escudo. Hoje vivo o luto. Mas, por tudo o que fizestes, seguiremos. Marielle, presente!”, afirmou.

Áurea Carolina, vereadora mais votada de Belo Horizonte, colega de partido e amiga de Marielle Franco, manifesta dor nas redes sociais.

Em nota, o mandato da vereadora em Niterói, cidade vizinha, Talíria Petrone (PSOL/RJ), manifestou profundo pesar: “com o assassinato de Marielle, choram a mãe, a irmã, a filha, a companheira de vida, os amigos, nossa militância e toda a população atingida por um modelo de sociedade seletivo no que se refere ao valor da vida. A morte da nossa amiga e companheira de lutas não terá, porém, sido em vão. O mundo inteiro tomou conhecimento desse atentado aos direitos humanos e à democracia e ninguém vai se calar. Marielle sempre dizia: “Eu sou porque nós somos”. Por isso mesmo, ela sempre será. Continuaremos firmes nas lutas às quais Marielle tanto se dedicou, à qual tanto nos dedicamos, e nenhum passo daremos atrás”.

Quinta-feira, 15 de março de 2018
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