Luto por Marielle e Anderson
Quinta-feira, 15 de março de 2018

Luto por Marielle e Anderson

Mauro Pimentel / AFP

Na noite de ontem, no Rio de Janeiro sitiado e dominado por exércitos, oficiais e oficiosos, Marielle Franco, civil e desarmada, foi morta com uma saraivada de tiros, que também ceifou a vida de Anderson Pedro Gomes, seu motorista; os talentos revelados por quem efetuou os disparos nos dão certeza de uma execução. Um crime político, ocorrido numa rua comum, matou uma mulher que tinha todos os méritos de ter vencido todas as vicissitudes que poderia alguém enfrentar e um homem que apenas procurava ganhar sua vida honestamente, vítimas de um atentado político, que ocorre dentro do coração do estado de exceção que tão orgulhosamente os governos federal, estadual e municipal anunciaram. Não tenho dúvidas que muitos burocratas comemoraram.

A intervenção negou tudo o que o poder, público, porque emana do povo e em seu nome é exercido, deveria fazer, que é garantir um mínimo de bem estar a quem estivesse nos limites geográficos desse imenso pasto racista em que se transformou o Brasil.

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No momento em que o exército assume a direção do estado do Rio de Janeiro, o policiamento deixa de existir e o extermínio passa a ser a única política pública vigente. Caveirões não invadem comunidades pobres para prender, senão para destruir; tiros de fuzis são desferidos, não para prender, mas para matar. Atira-se nas ruas, atira-se em escolas, atira-se em tudo o que se move. Crianças foram alvos de buscas pessoais e de tiros, balas perdidas, como se pudessem ser perdidas balas disparadas por soldados fardados; tantos são os que tão estupidamente aplaudem, hipnotizados pela Rede Globo, monopolista da informação catastrófica de todos os dias e estimuladora principal da barbárie que edita e que reduz os quase duzentos mil habitantes da Rocinha em criminosos ou ajudantes de criminosos, que transformou toda a Rochinha em território inimigo, que exigia todos os dias que providências enérgicas fossem tomadas, que a intervenção passou a ser vista como uma espécie de terrorismo do bem, aquele que busca proteger a sociedade ordeira contra a sociedade cúmplice do crime organizado.

Nenhum motivo mais havia, alimentados os ódios cotidianos, para que se fizesse o trabalho de formiguinha, chamado policiamento, mas tão somente em exterminar fisicamente o inimigo eleito: os traficantes, assim tomadas todas as pessoas que os soldados entendessem pudessem ser suspeitas, direta ou remotamente, notadamente de integrar associações criminosas.

Sabia-se de antemão, sob pena de renúncia prévia ao sistema nervoso central, que seria impossível fazê-lo sem que a ordem jurídica ou o que dela restasse fosse destruída e as ruas fossem transformadas em campos de batalha.

Tantos tiros e tantas mortes, o cheiro de sangue logo despertaria as matilhas de sempre: matar vicia, me disse certa vez um policial de grupos de extermínio. Farda, treinamento, munição, autoridade, mistures tudo isso em uma mente assassina e terás o perfil de quem matou tão covardemente Marielle e Anderson. A ausência inteira e deliberada de legalidade gera narco-milicianos que se confundem com os soldados da força de paz. A dificuldade de combatê-los é que eles estão nas entranhas do poder oficial, são amigos daqueles que os deveriam perseguir.

Afirmo que os tiros que mataram Marielle e Anderson foram disparados no âmago da intervenção militar, são tiros da intervenção militar, são tiros disparados no caudal conceitual da intervenção militar que separa, maniqueísta, a cidade entre os amigos e aliados (os que aprovam e lambem a intervenção) e inimigos e infiltrados (aqueles que a criticam e a desaprovam). Quem matou, estava seguro de que eliminava uma inimiga, militante de direitos humanos, que protestava contra mortes inexplicáveis, praticadas pelas forças militares de invasão.

Além dos executores materiais do crime (aqueles que efetivamente atiraram), há outros culpados e são todos aqueles que realizaram a intervenção, que, doravante, terão que lidar com uma epidemia de assassinatos, que ocorrerão, não mais nas beiradas das autoridades públicas, uma vez que a morte de Marielle e de seu motorista Anderson foi uma clara mensagem a quem quiser seguir os passos corajosos e destemidos dela. Se não se estancarem imediatamente essas mortes, será criada uma cultura de matança, esta, sim, inteiramente incontrolável. Já vimos esse filme nas periferias de São Paulo, Rio e outras capitais.

Morrerão ainda mais os pretos, os favelados, assassinados pela matilhas sedentas por sangue, as quais somente existem porque há ainda menos direitos para os pretos e os favelados, que estão sob fogo do exército. Não haverá ministro que as controle e é mais provável que as matilhas milicianas agreguem novos integrantes, colhidos nas forças invasoras. Não tardará ter o exército que atirar em seu próprio exército.

Estúpidos, nem sabem que não muito longe dali, a festa continua e a cidade maravilhosa continuará a encantar na zona sul. Vôlei em dia de sol, praia, beleza, calor e sensualidade burguesa continuarão. Em São Paulo, os restaurantes dos Jardins permanecerão com as portas abertas, a receber seleta clientela, que sabe apreciar glamurosas cartas de vinho. Estúpidos porque matam e morrem a serviço de quem os despreza.

Marielle e Anderson se constituem em um marco da ilegalidade, constituem-se na visualização do que efetivamente se transformou a intervenção militar, a mais vergonhosa operação em que o exército brasileiro se meteu depois do fim (houve mesmo o fim?) da ditadura. Os meninos pretos da favela e os quase pretos de tão pobres nunca terão motivo para se orgulhar da farda, da bandeira, do hino, que devem ouvir mentalmente antes de morrer dos tiros oficiais.

Os protestos, as notas enfurecidas e enlutadas, prenhes de uma dor que vai parir outras dores, outras solidões. A dor da família, a dor do filho, a dor do irmão, a dor dos amigos, a dor daqueles que a conheciam e a abraçavam, a dor de quem com ela militava, a dor que vem de dentro daquelas pessoas miseráveis e que viam nela uma forma real de representatividade, a dor de quem servia a ela uma média na padaria, a dor de quem vendia livros a ela, a dor de quem a via andando e a admirava porque andava com altivez, a dor de minha querida Djamila e de meu amado filho Brenno, a dor de quem vê o país em ruínas, a dor de quem odeia essa intervenção que nada mais fez do que matar e aterrorizar, a dor de quem ainda acredita na possibilidade de pacificação e de extirpação dos ódios e dos preconceitos que fazem de nossa sociedade uma das mais odiosas do planeta, a dor de quem procura ensinar que a democracia só tem sentido se for plena e assegurar a todos igualmente os mecanismos de acesso à cultura, à educação e à inclusão de todas as formas, a dor, a dor, a dor, a dor.

Todas as dores somadas, todas as dores vividas, todas as dores que serão, ah serão, ainda dobradas…

Roberto Tardelli é Advogado e Procurador de Justiça Aposentado. 

Quinta-feira, 15 de março de 2018
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