Assassinato de Marielle Franco está longe de ser caso isolado
Sexta-feira, 16 de março de 2018

Assassinato de Marielle Franco está longe de ser caso isolado

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A morte brutal da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) ganhou grande repercussão –e é justamente devida – mas a execução de ativistas sociais é uma prática que está se tornando comum no país.

Apenas neste ano somam-se ao caso de Marielle os assassinatos de Márcio Oliveira Matos (dia 26 de janeiro, era líder do MST na Bahia), Paulo Sérgio Almeida (em 13 de março, líder comunitário no Pará), Leandro Ribeiro Ribas (19 de janeiro, líder comunitário no RS), Jefferson Marcelo (04 de janeiro líder comunitário no RJ), Carlos Antônio dos Santos (08 de fevereiro, era líder do movimento agrário de Mato Grosso), George de Andrade Lima Rodrigues (dia 23 de fevereiro, líder comunitário Recife), Valdemir Resplandes (dia 09 de janeiro, era líder do MST no Pará).

Repito, apenas neste ano. Estamos ainda em março e 7 ativistas já tinha sido mortos antes da vereadora. Tenho em mãos uma lista de nomes do outros líderes e ativistas sociais e comunitários, sindicalistas, quilombolas e indígenas que, desde 2015 totalizam dezesseis assassinatos, sendo que imensa maioria (14) ocorreu de 2016 pra cá.

Ou seja, a perseguição e aniquilamento de ativistas corajosos que defendem causas que afrontam interesses de peixes grandes têm se intensificado.

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Dos episódios ocorridos neste ano, quase desnecessário dizer, nenhum foi solucionado até agora, o que leva a crer que a ‘apuração rápida e exemplar’da morte de Marielle Franco como prometida pelo Ministro Extraordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann, será difícil.

As críticas mais agudas da vereadora eram sobre a atuação truculenta e criminosa das polícias nas comunidades pobres, então é exatamente sobre a polícia que recaem as principais suspeitas. A forma e precisão dos disparos não foi coisa de amador nem de ladrão de galinhas. Até porque nada foi roubado.

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Não é preciso ser especialista em brasilianismo para saber que uma ‘resposta rápida’ para este caso pode sair de duas maneiras. Ou arranja-se a toque de caixa uma dupla ou um trio de otários que assuma o crime, ou – caso sejam policiais ou milicianos a mando destes – justifique-se a ação como ‘caso isolado entre policiais’, ‘conduta em desacordo com as normas da corporação’, ‘maçãs podres’ e bla bla bla. O discurso tão cínico que era exatamente o mote da luta de Marielle.

Pior que isso só a tentativa despudorada dos governistas (Michel Miguel incluso) em querer aproveitar-se do fato para defender a intervenção no Rio, como se o assassinato da vereadora se tratasse de um caso de violência cotidiana e obra de facções.

Marielle era visceralmente contrária à intervenção – fazia postagens com a hashtag #IntervençãoÉFarsa – e vinha denunciando os casos recentes de mortes de jovens negros que comprovam que a medida não traz nenhuma esperança de mudança. Uma operação parida sem nenhum planejamento não tem como dar boa coisa.

Marielle Franco, além da batalha corajosa contra injustiças e abusos das polícias, participou também da CPI dos transportes no Rio de Janeiro. Mexeu com gente muito poderosa e desagradou barões e coronéis urbanos. Corria risco, é evidente.

Ontem foi o dia no qual parecia que todo mundo conhecia a vereadora e suas causas. Todos a respeitavam. Balela. Autoridades vivem numa bolha.

O que dizer do pronunciamento do ministro Lewandowski, do STF, que afirmou reconhecimento pelo trabalho de Marielle Franco “pelas mulheres negras e outras minorias”? As mulheres são maioria na população brasileira (são quase 6,5 milhões a mais que homens) assim como negros e pardos (54%). Só mesmo no universo paralelo da elite isso é minoria.

Esperamos que a comoção causada pela morte não seja em vão nem efêmera, mas é importante ressaltar que não foi um episódio extraordinário. A perseguição e máquina de matar lideranças sociais está em pleno vapor. Quem vai dizer que‘é fato isolado’ será a polícia e as autoridades.

Mauro Donato é Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo. 

Sexta-feira, 16 de março de 2018
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