Associação de Juízes exige investigação independente no caso Marielle
Sexta-feira, 16 de março de 2018

Associação de Juízes exige investigação independente no caso Marielle

Foto: DANIELA MOURA/MÍDIA NINJA

A Associação de Juízes para a Democracia (AJD) cobrou, em nota, uma investigação independente no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e seu motorista, Anderson Gomes.

De acordo com a organização, eles não foram vítimas do “delírio fascista chamado ‘falta de segurança pública'”. “Foram vítimas do aparelho estatal que não admite mudar, que não admite ser criticado, causador em primeiro e último grau de toda essa violência que ele, ao fingir combater, multiplica e retroalimenta“, diz a AJD.

Ainda de acordo com a nota, a “intervenção militar, um ato de força e ignorância, não deteve as nove balas que mataram Marielle e Anderson. Nunca deterá. Não se combate violência com mais violência”. Eles consideram que foram “mortes de ódio, ódio à democracia”.

A falsa democracia brasileira permite que uma pessoa como Marielle seja eleita, mas não que exista e muito menos que resista, diz a AJD.

Marielle foi a quinta vereadora mais votada nas eleições de 2016, com mais de 46 mil votos. Nascida no Complexo da Maré, era socióloga, com mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Em sua dissertação tratou do funcionamento das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) nas favelas.

Algumas entidades lamentaram a morte da vereadora. Dentre elas, Anistia Internacional, Artigo 19, Human Rights Watch, MST, Defensoria Pública do Rio e da União, Instituto Sou da Paz, OAB e IAB. Além disso, ativistas do Movimento Negro também se manifestam em repúdio.

Leia a nota da AJD na íntegra:

” Fico manso, amanso a dor

Holiday é um dia de paz

Solto o ódio, mato o amor

Holiday eu já não penso mais” – Estácio Holly Estácio, de Luiz Melodia

“Marielle e Anderson morreram no Estácio. Duas pessoas que não foram mortes à toa. Não existem mortes à toa. Foram mortes de ódio. No caso de Marielle, ódio a uma mulher negra, jovem e oriunda da Favela da Maré, que sobreviveu à miséria e à violência. Sobreviveu à sabotagem estatal à educação e à saúde, e conseguiu ser eleita vereadora no Rio de Janeiro.

Não “mais uma vereadora”, numa casa legislativa onde muitos são  sanguessugas da miséria, exploradores do medo, vendedores de uma vida melhor após a morte. Uma mulher que, no pequeno espaço do que resta de democracia, colocou sua vida a serviço dos seus, enfrentando as incontáveis violências que a população negra e favelada sofre todos os dias.

Marielle e Anderson não foram vítimas do delírio fascista chamado “falta de segurança pública”. Foram vítimas do aparelho estatal que não admite mudar, que não admite ser criticado, causador em primeiro e último grau de toda essa violência que ele, ao fingir combater, multiplica e retroalimenta.

Vítima também é a ideia de comunidade com sua vida em rede e seus laços de solidariedade.

A intervenção militar, um ato de força e ignorância, não deteve as nove balas que mataram Marielle e Anderson. Nunca deterá. Não se combate violência com mais violência.

As mortes de Marielle e Anderson foram, repita -se, mortes de ódio, ódio à democracia. A falsa democracia brasileira permite que uma pessoa como Marielle seja eleita, mas não que exista e muito menos que resista.

Pela real possibilidade de participação de agentes estatais no extermínio de Marielle e Anderson, e suas famílias e amigos: a AJD, Associação Juízes para a Democracia, exige uma investigação independente. Propõe ainda uma discussão democrática e radical de alterações na sangrenta “política de segurança pública” conduzida pelo Estado antidemocrático e violador dos direitos humanos.

Nossa proposta marca nosso repúdio ao recado dado por aqueles que odeiam a democracia e semeiam a violência em todas as partes.”

Sexta-feira, 16 de março de 2018
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