Junto de Marielle, eu morri
Sexta-feira, 16 de março de 2018

Junto de Marielle, eu morri

Foto: Mídia NINJA

Por Simony dos Anjos

 

Eu morri, ontem! Muitas pessoas morreram, ontem! Na verdade, todos os dias milhares morrem! Para ser exata, a cada 23 minutos um jovem negro morre.

A mortalidade materna entre mulheres negras é maior do que entre as brancas. Os homicídios de mulheres negras cresceu 22% entre 2005 e 2015. Uma mulher negra tem 2 vezes mais chance de morrer vítima de homicídio, hoje, no Brasil.

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O lesbocídio (caracterizado por homicídio ou suicídio de mulheres lésbicas, em decorrência de sua sexualidade) vem crescendo no país. Marielle era mãe, negra, lésbica, periférica. Ela reunia tantas intersecções de opressão social que ela, de fato, era porta voz de todas nós, de todo nós. 

Não era porta voz por acaso, ela se fez representante, eleita com 46.502 votos. Ela se fez representante ao construir uma carreira linda de empatia, dedicação ao próximo e denúncia contra nossos algozes. Ela é a típica figura que a meritocracia exalta: “olha lá ela conseguiu, parem de chorar por esmolas”.

De fato, ela conseguiu e, em nenhum momento, ela parou de gritar por políticas públicas para a reparação histórica do que foi a escravização de pessoas negras em nosso país.

Ela rompeu com cordas hostis que a cercavam, e o que aconteceu com ela? Mataram!

Não! Isso não é por acaso. Há centenas de anos a nossa carne é marcada pelo chicote, pela miséria e pela morte.

Nos sequestraram de nossa mãe África, nos arrancaram da nossa terra de Reis e Rainhas e nos forçaram a produzir riqueza para gente podre. Tão podre, que nos causa asco.

Mesmo com tanta violência, tanta desigualdade e falta de respeito, nos mantivemos vivos, ah, como nos mantivemos vivos. Não conseguiram nos apagar, mesmo com políticas eugênicas de branqueamento. Criminalizaram nossa capoeira, nosso samba, nossa comida, nossa beleza. Mas estamos aqui, continuamos aqui.

Milhares de pessoas realizam ato em memória e solidariedade ao motorista Anderson Pedro Gomes e a vereadora Marielle. Foto: Tania Rego/Agência Brasil

Marielle veio de um povo forte e de luta, ela seguiu os passos de sua ancestralidade, ela gritou, ela amou, ela protegeu. Lutando contra a violência policial nas periferias, contra a violência contra a mulher (lésbica, trans, cis, negras, bi), contra esquemas de corrupção que estão promovendo um genocídio da população negra!

Ela morreu, eu morri um pouco também, e cada palavra escrita, aqui, foi banhada em sangue.

Sangue que nossas antepassadas derramaram ao serem escravizadas; sangue dos filhos mortos nas periferias; sangue da minha gente, da nossa gente. Contudo, há uma esperança, o sangue do povo negro é tal qual semente boa, aquela que dá 100 frutos por uma semente.

Temos tanta raiva de vê-lo derramado, que nos movemos. A raiva move o mundo, mais que o medo paralisa.

Ontem, eu morri, mas ressuscitei.

Ressuscitei juntamente com milhares de manas nas ruas gritando: Marielle, presente! E, de fato, está, hoje, e estará sempre.

Sempre haverá uma Marielle para gritar, sempre gritaremos. A maior ameaça não é medo da morte, é a repulsa de viver essa vida que querem nos impor! Para isso, dizemos não! Não ao genocídio da população negra! Há mais de 400 anos transformamos nossa dor em luta e não vão nos parar, agora!

Mana Marielle, presente!

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

Sexta-feira, 16 de março de 2018
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