Precisamos falar sobre Anderson Gomes
Terça-feira, 20 de março de 2018

Precisamos falar sobre Anderson Gomes

Foto: Facebook/Reprodução

Diante da imensa mobilização política (no sentido mais amplo da palavra) que seguiu ao assassinato da Vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro, algumas vozes começam a protestar contra o que seria, aparentemente, um “privilégio fúnebre” negado a outras pessoas mortas de forma violenta. Dentre as vítimas supostamente relegadas a segundo plano, estaria Anderson Gomes.

Anderson era o motorista de Marielle Franco. Casado, tinha um filho bebê. Foi morto porque quem foi matar Marielle pouco se importava com quem eliminaria junto. Sua morte mostra a banalização da violência. É resultado monstruoso de uma coincidência: estar no lugar errado na hora errada.

A dor de seus familiares é imensa e merece toda a solidariedade, empatia e respeito. Mas a morte de Anderson não teve motivação política. 

Os assassinos não o visavam. Não se armou uma emboscada pra matar Anderson. As balas de estoque da Polícia Federal (!) não foram separadas para executar Anderson. O objetivo do crime não era calar Anderson. Anderson não ameaçava o poder corrupto, não desafiava policiais que chacinam. Anderson não iria investigar os abusos da intervenção militar. 

Anderson não era representante eleito do povo. Nem líder a construir com seu corpo a emancipação política de mulheres pobres e negras. Nem ponto de apoio para famílias (de policiais inclusive) de vítimas da violência.

A execução de Marielle tem motivação política. É ela quem preenche todos os itens acima. Marielle era o alvo, por ser Vereadora com a atuação que tinha.

Isso não diminui em nada a gravidade da morte violenta de Anderson. Nada. Toda vida humana importa.

Por isso, no dia de seu velório, lado a lado com Marielle, Anderson foi aclamado “presente”. Mas as vozes queriam mais e, para desgosto dos súbitos autores desse infeliz “Manual de Boas-Maneiras da Comoção Pública”, denunciavam o genocídio negro, apontavam as razões políticas da execução de Marielle e reafirmavam a identidade e representatividade da Vereadora. 

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Querer usar a morte de Anderson pra turvar o significado político da resposta social à execução de Marielle é, no mínimo, desonesto. Apontar “indignação seletiva”, sugerindo que Marielle está recebendo mais “honras fúnebres” que Anderson porque ninguém liga pra um homem branco pai de família, chega a ser ridículo. 

E o que dizer dos gênios que perguntam “por que só se fala de apurar a morte dela e não dele”? Será que acham mesmo um bom ponto de partida para a investigação indagar quem queria ver Anderson morto?

Precisa de uma mente muito obtusa ou de muita má-fé pra interpretar as manifestações no Brasil e no mundo em protesto contra execução de Marielle como, bem, um pacote funerário vip-plus-máster-topzera que, por acaso, se resolveu conceder a uma mulher aí que levou uns tiros.

Marielle era uma potente agente de transformação social, em uma luta que contemplava muitos, inclusive o próprio Anderson, no incansável esforço de que fazer prevalecer o respeito à vida e à dignidade de pessoas tidas cruelmente como descartáveis. 

Querem mesmo honrar a memória de Anderson? Pois não a manipulem de forma cínica para negar o significado simbólico da execução de Marielle e tentar deslegitimar a reação que se articula.

Roberta Maia Gresta é Doutoranda em Direito Político (UFMG). Mestre em Direito Processual (PUC Minas).

Terça-feira, 20 de março de 2018
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