Quem pode acabar com as prisões?
Terça-feira, 20 de março de 2018

Quem pode acabar com as prisões?

Foto: Rogério Fernandes

Quem será capaz de findar com a violência? Tudo isto é uma busca utópica ou realidade possível? A partir de diversas interrogações relacionadas ao tema justiça e paz, venho aqui brincar um pouco, buscando infantilizar o debate sobre violência.

Calma! Não estou desmerecendo ou diminuindo a importância desta pauta, pelo contrário.

Na maioria das vezes tratamos infantilidade e brincadeira como algo menor, desprovido de seriedade, incapaz e menos importante, porém proponho que caminhemos pela viela que liga infância de muitos ao cárcere para refletir sobre violência e justiça. Em todos os enredos há possibilidades de identificar trajetos de encontros e desencontros dessas cenas, por hora, uso como laboratório a minha história.

Paulista de Taubaté, filho de uma retirante nordestina e de um mineiro descendente de espanhol decidi, com sete anos de idade, me refugiar na casa de minha avó materna para crescer mais próximo da minha raiz. Porém, naquela época o argumento não era este.

Carregava em mim na verdade o desejo de protegê-la, pois ela tinha medo de tempestades, em uma casa sem laje, dos grupos de extermínio tão comuns em São Paulo na década de 80 (Cabo Bruno que o diga!) e das encrencas que meu tio se envolvia com a polícia que o levou a prisão.

Neste período iniciei minha relação com o cárcere, e foi ali que aprendi que aquele era o lugar que me tirou um dos meus heróis favoritos, meu tio, do nosso convívio, em uma fase tão importante.

Eu era muito guri para entender sobre as contravenções dele e era impossível acreditar que alguém tão genial, bom e incrível, podia ser mau e que haviam decidido que ele deveria viver trancado.

Logo ele que foi meu grande professor, amava os pássaros e me ensinou que respeito e lealdade vem em primeiro lugar.

Ao receber os brinquedos que ele construía no cárcere com palito de sorvete, cola e papel celofane colorido, eu me perguntava como podia um talento destes viver isolado e preso, com tanta criança no mundo precisando de brinquedo assim como eu!

Quantos pais, tios, irmãos não estavam trancados lá dentro deixando de cuidar das suas crianças sem referência do lado de fora.

A partir daí me engajei nesta pauta por compromisso pessoal e também familiar. Acumulei mais horas de trabalho por essas pessoas e suas famílias do que horas de voo de um piloto veterano da American Airlines. Tudo isto sem precisar fazer selfies e buscar likes, porque outra lição que meu herói ensinou era: o que fazemos de bom não carece de ser divulgado.

Lidando com o cárcere de diversas formas desde a infância, sempre olhei para esse lugar, como uma caixa de vidas, onde histórias, talentos e potenciais eram depositados pela necessidade de dar uma resposta a necessidade de justiça.

Sempre compreendi aquele espaço como o símbolo do fracasso da escola, da capacidade humana de dialogar e de ofertar amor e carinho “pros menor”. E vi este fracasso sempre omitido pelos seus responsáveis ocultos ao longo da história e que, ainda hoje, serve de justificativa para punir aquilo que não deveria existir em uma ideal sociedade equilibrada e harmônica. 

Óbvio que essas ideias parecem utópicas demais, entretanto é irracional naturalizarmos a realidade social que vivemos, desprovida de equidade e fermentada em embates polarizados e pouco resolutivos entre adultos sobre violência, segurança pública e criminalização, entre outros temas que são vendidos em demasia.

Incitada especialmente pela grande mídia e de maneira mais contemporânea pelas redes sociais, uma onda de soluções medievais ultrajadas em gritos de justiça, nos leva para um cenário ainda mais violento e inseguro.

Como são essas as grandes preocupações para a população hoje, surgem as anomalias cívicas que se apresentam como salvadores em muitas disputas eleitorais.

Candidatos fortemente desequilibrados e sem nenhum preparo para – de fato – promover uma realidade mais pacífica.

A conclusão popular, quando exposta a essa onda de medo é que um estado de paz carece  de investimentos em contingente militar e em estruturas carcerárias e de controle.

Então, esses candidatos recheiam seus discursos desse tipo de solução fraca, ineficaz e altamente lucrativa. Mas parece que a sensação de segurança, pertencimento e confiança necessitam de muito mais do que propostas imediatistas e simplistas

Tudo é questão de educação e lições aprendidas, em especial quando a escola é a vida! É muito provável que uma criança exposta há anos de violência, marginalização e abandono, reproduza este aprendizado em suas relações sociais ao longo de sua juventude e vida adulta, seja por poder, reconhecimento, atenção ou diversão. 

A matemática é simples: as crianças precisam de uma atenção maior a que lhes são oferecidas hoje, seja pela família (que em muitos casos não existem) ou Estado (que também corrobora não existir).

Não se cura doença crônica como a violência com uma pílula, aqui também a indústria farmacêutica alopática não consegue ser bem sucedida. A medicina tradicional humana do contato, do respeito, da construção crítica e amorosa foi restauradora para mim e acredito ser uma profilaxia para uma sociedade de paz.

Se a quisermos, comecemos na infância com educação, cuidado, lazer e acima de tudo incentivo a sonhar, a acreditar nos heróis que te dão colo e a construir um mundo melhor, diferente deste!

Eduardo Bustamante é Arquiteto e Urbanista, especialista em mediação de conflitos e diálogo socioinstitucional. Responsável por ações em educação, cidadania, arte e cultura em prisões e comunidades marginalizadas.

Terça-feira, 20 de março de 2018
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