Ser malandra não é ser empoderada
Terça-feira, 20 de março de 2018

Ser malandra não é ser empoderada

Foto: Clipe da música “Vai Malandra”.

Nosso país, todo ele, do Oiapoque ao Chuí (para ser bem clichê) precisa abandonar definitivamente a mania de nadar no raso diante de questões sérias e não admitir informações pela metade ou sem sentido.

Vejo pessoas falando incansavelmente sobre Empoderamento, como se tivesse falando de uma pílula mágica, daquelas “tomou/passou”.

Daí, sem nenhum aprofundamento, sem nenhum minuto que seja de reflexão e/ou busca por informação que forneçam condições para refletir, saem atribuindo a pessoas que nunca pediram, um lugar que não lhes cabe.

É o caso da Anitta.

É obvio que ela jamais pleiteou o lugar que a colocaram.

Mas, sabe como é né…quem não quer ficar no lugar de ídolo empoderador não é mesmo?!

Ganhar muito dinheiro, muita visibilidade, só pra rebolar em cima de uma laje na favela e mostrar umas celulites (que nem tem, diga-se de passagem).

A pessoa surfa mesmo, principalmente quando não precisa daquilo que está vendendo, ou seja, não precisa, ou acha que não precisa de ferramentas de luta social como a Teoria do Empoderamento aplicada.

 

Não estamos mais na década de 60/70 onde os artistas tinham uma responsabilidade política real e espontânea.

 

Grande parte das pessoas está ganhando dinheiro com uma militância ou com um ativismo que não existe. A pessoa artista diz ou dá a entender que é simpático a alguma causa, já que a mídia vem se apropriando de alguns debates de uma maneira nem sempre honesta e, voilá!, é alçada ao posto da ativista da vez. Não há problema algum em pessoas que trabalham com algum tipo de arte e se colocam como militantes/ativistas. Tá aí o Racionais Mc’s que honra muito bem essa dualidade. Mas mostrar uma consciência mínima frente aos problemas sociais e expressar isso em veículos artísticos, ou ainda, sinalizar de leve simpatia por causas sociais não torna ninguém inserido em uma atividade tão perigosa como é fazer ativismo/militância no Brasil.

Dançar em cima de uma laje se dizendo malandra, não tem absolutamente nada de empoderador, ao contrário, é questionável em diversos recortes.

Se as pessoas soubessem de fato, o que é Empoderamento e suas dimensões, jamais teriam vestido a Anitta de símbolo de nada além de ídolo pop, e tudo bem.

Agora, começar a pautar artista como possibilidade política é muito, muito, problemático.

Empoderamento é teoria e prática. É processual e contínuo. Não é apenas individual ou apenas coletivo. E não se trata de mostrar ou não mostrar o corpo. Vai muito além disso, muito além de um cabelo ou de uma maquiagem. E francamente, se há uma turma que dificilmente pode contribuir nesse processo, é a turma que depende da indústria do entretenimento. É preciso ter um adiantamento muito expressivo do que significa a teoria e de sua maneira de aplicá-la, bem como e quando ela serve e cabe.

E a culpa da Anitta falar um aglomerado de bobagens em um caso de repercussão ainda imensurável, sem o menor constrangimento, sem a menor sensibilidade, repetindo assustadoramente um senso comum domesticado pelo projeto de alienação pós-militarismo que atrofiou a capacidade do brasileiro de PENSAR, é de quem deu a ela essa moral. Ela foi colocada no lugar de “A Empoderada feministosa da vez” e surfou bonito nessa onda barulhenta.

Há alguns meses, aqueles que se manifestavam contra a ascensão dela a esse posto, era duramente atacado por um fandom que, de tão ensandecido, em nenhum momento parou pra pensar no que isso significa, no quanto isso é enfraquecedor para as lutas sociais.

Essa tática é bem recorrente na política partidária, por exemplo. O atual prefeito de São Paulo, se elegeu dizendo que não era um político, porque assimilou que as pessoas, perigosamente, cansaram-se de…políticos. Ou seja, esse movimento é recorrente no Brasil, mas está na hora de começar a ser muito questionado, pois é mais do que óbvio que os resultados são desastrosos.

Doria e Anitta são frutos da mesma árvore. A do oportunismo, dos caçadores de ocasião, achadores de brecha pública.

Sorry, mas ela não tem obrigação de corresponder a ansiedade de uma militância que não quer saber da extensão da própria luta.

Nem Anitta, nem Beyoncé, nem Rihanna, nem ninguém que chega à mídia. A arte pode e deve ser política, defendo isso. Mas tanto a arte quanto a política, não é pra qualquer um… O artista pode sim contribuir para a conscientização de toda uma sociedade, visto que detém o poder da velocidade que os meios de comunicação de massa disponibilizam. Mas estejamos atentos e, principalmente, muito bem informados sobre assuntos como Empoderamento, Lugar de Fala, e todos os outros instrumentos de emancipação vitais para os grupos oprimidos para que acabe esse esvaziamento que enriquece, via de regra, aqueles que nos oprimem.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.

Terça-feira, 20 de março de 2018
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