Tentam domesticar a figura de Marielle, mas não conseguirão
Terça-feira, 20 de março de 2018

Tentam domesticar a figura de Marielle, mas não conseguirão

Foto: Mídia Ninja

“Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los, por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para ‘consolo’ das classes oprimidas e para o seu ludibrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário”.

É desta forma que Lenin começa o livro O Estado e a Revolução, escrito às vésperas da Revolução de 1917 e interrompido em decorrência do irromper do processo revolucionário. No posfácio, Lenin dá uma justificativa convincente para a não conclusão da obra: “é melhor participar da revolução do que escrever sobre ela”.

O expediente denunciado por Lenin não era novidade em sua época e tampouco no transcorrer dos séculos XX e XXI. Boa parte das bandeiras da contracultura e dos movimentos de maio de 1968 foram incorporadas e domesticadas pelas forças hegemônicas do capitalismo, que, nas cordas, vestiu a anestésica roupagem do consumo e da sustentabilidade para sobreviver, tal qual fosse possível neutralizar sua natureza predatória.

A própria figura do revolucionário Che Guevara, símbolo da rebeldia da década, teve o sentido de sua luta esvaziado ao ser incorporado enquanto ícone de consumo que vai desde estampas de camisetas até sabores de sorvete.

A domesticação forçada e a colonização de símbolos de rebeldia foram usadas também contra outras personalidades de grande proeminência e destaque em suas lutas contra-hegemônicas. Veja-se o exemplo de Muhammad Ali, reduzido em suas homenagens póstumas ao espetacular atleta que era, ainda que incomodasse muito mais fora do que dentro dos ringues com suas denúncias contra a guerra do Vietnam e contra o racismo institucional dos EUA.

O mesmo se dá em relação a Martin Luther King Jr., perseguido pela CIA e assassinado durante sua ida a Memphis para apoiar a paralisação dos trabalhadores da limpeza urbana, e a Nelson Mandela, preso por quase trinta anos em razão de suas ações de guerrilha contra o regime racista na África do Sul. Todos vítimas de uma domesticação desonesta cujo objetivo é reescrever a história por meio da castração dos potenciais revolucionários de suas ações e ideias.

Marielle Franco, assim como Ali, Luther King Jr. e Mandela, era negra. Tinha também como bandeira um projeto de sociedade que quebrasse com a opressão institucional e endêmica que sofre o povo preto, pobre e favelado do qual se originou.

Marielle, a lá Paulo Freire, alicerçava-se na ação e na reflexão. Ativista dos Direitos Humanos, sua dissertação de mestrado tratou da inocuidade das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s) nas favelas. Foi a violência sentida na pele que a levou à militância.

Em 2005, após uma amiga ter sido vítima de “bala perdida” durante um tiroteio entre policiais e traficantes na Maré, passou a se engajar em campanhas contra a violência policial em favelas, luta que encampou até a morte.

Tal qual Ali, Luther King Jr. e Mandela, a figura de Marielle vem sendo alvo não apenas de criminosas fake news, mas também de sucessivas tentativas de domesticação por parte dos meios comerciais de comunicação, conforme aponta excelente matéria do coletivo Intervozes.

Em 2013, quando as jornadas de junho ganharam uma amplitude impossível de ser contida, a mídia comercial capitulou em um primeiro momento e passou da detração ao elogio cívico. Logo após, logrou êxito em inserir pautas genéricas na agenda das manifestações – vide o combate à PEC 37 – que acabaram por sabotá-las e, consequentemente, gestar a atmosfera do moralismo difuso que em agosto de 2016 serviria como amparo para a interrupção do nosso processo democrático.

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Assassinato de Marielle Franco está longe de ser caso isolado

“Quem matou Marielle?”, será que essa é a pergunta?

A lição foi clara: se não é possível conter o rio, que ditemos o seu curso. Diferentemente das jornadas de junho, o alcance das manifestações nascidas na esteira da execução de Marielle e de Anderson Pedro Gomes deixou evidente desde o início que não seria possível bater de frente com as ruas e com as redes sociais.

Adotou-se, então, a linha editorial de despolitização do caso, ignorando o histórico de militância de Marielle contra a matança do povo negro, sua posição de relatora da comissão que acompanha a intervenção militar e suas frequentes denúncias de violência policial em regiões periféricas, criando, assim, uma narrativa na qual teria sido apenas mais uma vítima da violência urbana.

O objetivo das corporações de mídia é cristalino: usar as mortes de Marielle e Anderson como plataforma de legitimação da intervenção militar do Rio de Janeiro, uma fraude, segundo o próprio interventor Braga Netto e o general Eduardo Villas Bôas, de acordo com a reportagem da Piauí do mês.

Em fevereiro de 1848, um banquete público organizado em prol do direito de voto foi além das intenções de seus organizadores, provocando a Primavera dos Povos e a queda do regime monárquico na França. “Toda revolução”, escreve Karl Marx em As Lutas de Classe na França, “necessita de um assunto para ser discutido durante o banquete. O direito universal de votar é o assunto dos banquetes da nova revolução”.

Cada revolução tem o seu “assunto para ser discutido durante o banquete”, um acontecimento que quebra o curso ordinário dos dias e o encadeamento monótono do cotidiano -o tempo homogêneo e vazio dos calendários eleitorais em que o inesperado não pode acontecer, como define o filósofo francês Daniel Bensaïd. O tempo da história sem heróis, heroínas, eventos e rupturas de monotonias domingueiras, o tempo da mecânica relojoeira da repetição constante das horas e estações.

Uma parlamentar negra, favelada, LGBT e porta-voz de sua comunidade acaba de ser executada em decorrência de sua militância nos Direitos Humanos, conforme apontam todas as informações existentes sobre o caso.

O recado foi dado à nossa já frágil e cambaleante democracia representativa, desnudando o fato de que pouca coisa tem de democracia e muito menos de representativa.

Cientes do potencial explosivo dos acontecimentos, lança-se mão não apenas da domesticação artificial da figura de Marielle, mas também de medidas emergenciais para que a intervenção siga seu roteiro e o rastilho de pólvora não tome proporções avassaladoras nas ruas.

As revoluções, ensina Bensaïd, são necessariamente intempestivas. Jamais pontuais, administram o efeito surpresa com o risco de apanhar desprevenidos seus próprios atores e atrizes. Divididas entre o necessário e o possível, entre o que vem cedo demais e o que vem tarde demais, jamais chegam na hora certa – mas chegam, e vêm de onde menos se espera.

Gustavo Freire Barbosa é Advogado.

Terça-feira, 20 de março de 2018
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