O corpo feminino dentro da prática evangélica
Sexta-feira, 23 de março de 2018

O corpo feminino dentro da prática evangélica

Ilustração: Reprodução/Pinterest

Em boa parte dos ambientes evangélicos a sexualidade feminina ainda não costuma ser vista de forma natural e o que vem dela pode resultar em opressão e culpabilização das mulheres.

Vivo dentro da cultura cristã evangélica há 16 anos e já tive a oportunidade de presenciar muitas situações em que nós mulheres somos estigmatizadas por despertar – ou não (e já vou explicar) – o desejo nos homens. É como se fôssemos responsáveis pelas atitudes sexuais masculinas.

Obviamente – e quero deixar isto muito claro já de início -, esta situação dentro das igrejas é também o reflexo de uma sociedade machista, mas torna-se ainda mais forte impulsionada pelas ideias de uma religião de origem patriarcal onde a mulher deve sempre se submeter ao homem.

Dentro da premissa de submissão feminina de muitas igrejas, está também implícita a submissão sexual.

Como resultado, temos regras de conduta e consequências diferentes para homens e mulheres. Os impulsos sexuais dos homens são vistos como algo inerente à sua constituição enquanto indivíduos do sexo masculino. De outra forma, somos julgadas por sermos mulheres e nossos impulsos sexuais podem ser atribuídos a uma influência demoníaca, e não aos nossos hormônios e desejos naturais.

As palavras usadas pelo Apóstolo Paulo na primeira carta aos Coríntios capítulo 7, dizendo que o corpo da mulher pertence ao marido (ainda que ele também escreva que o corpo do marido pertence à mulher), são potencializadas pela ideia de submissão feminina, levando a muitos casos de abusos dentro dos próprios casamentos.

Como se o corpo da mulher fosse uma possessão do marido e ela precisasse ter relações sexuais sempre que ele decidisse. Ou, muitas vezes, ela consente por medo de pecar ou de seu marido procurar por outra. Frequentemente, os eventos e reuniões de mulheres fazem questão de reiterar a importância de se manter sempre atrativa sexualmente para o marido.

A mulher, que nunca teve permissão para tocar seu próprio corpo e descobrir o caminho para o seu prazer, agora permanece em um relacionamento onde o sexo tem que ser obedecido. Seu corpo se mantém no limite do pecado e as roupas que escolhe usar devem ser recatadas para ‘não despertar o desejo dos irmãos fazendo-os pecar’. É a demonização da sexualidade feminina.

Os ditos “pecados sexuais” também não são bem vistos quando praticados pelos homens, mas acredito que são mais tolerados. Isso acontece desde o momento em que o menino começa a tocar seu corpo e isto é entendido como uma natural curiosidade (pois realmente o é) e passa pelo dia em que ele tenta olhar as meninas no banheiro e tudo pode ser equivocadamente interpretado como uma brincadeira, por exemplo.

Situações toleradas por causa da crença comportamental machista que, como eu escrevi no início, é reflexo de nossa sociedade, não apenas do ambiente evangélico.

Homens não aprendem sobre consentimento e a educação sexual é um assunto que costuma não ser abordado, porque existe o receio de que educar jovens a respeito de sua sexualidade fosse estimulá-los a serem promíscuos.

Dentro da comunidade cristã em que vivo, ainda há um cenário machista sobre a sexualidade feminina. Mas sinto que, aos poucos, as coisas têm mudado. E acredito que nós, (fé)ministas, temos um papel de fundamental importância para levar esclarecimento, libertando assim, as mulheres e também os homens, das correntes machistas e preconceituosas do passado.

Alessandra Rebecchi é Jornalista e Mestre em Comunicação. Estuda a Comunicação na Contemporaneidade e é pastora de uma igreja evangélica em São Paulo.


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Sexta-feira, 23 de março de 2018
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