Os povos, as lutas e as primaveras: Marielle, presente
Sexta-feira, 23 de março de 2018

Os povos, as lutas e as primaveras: Marielle, presente

Foto: Mídia Ninja

14 de março de 2018. Verão no Hemisfério Sul.

O dia era de nascimento. Nos últimos nove meses, em Recife, a nossa espera fora pela pujança da vida. A energia era tamanha que até o próprio rebento chegaria antes do dia 14 de março[1]. Maria Beatriz, nossa BiAtômica, nasceu aos 26 de fevereiro de 2018, às 12h56min porque “quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente” [2].

Éramos mulheres “preparando outra pessoa” e o tempo parava enquanto olhávamos “aquela barriga” [3]. Ela nos encantou e cantamos “Carinhoso”. Juntamo-nos em três a esperar 14 de março chegar. Dia do ‘Pi’, do aniversário do Titio, da Prima e de Einstein. Nesse emaranhado de sentimentos, celebrando as vidas já chegadas, soubemos de outras partidas.

14 de março de 2018. São as águas de março fechando o Verão” [4]

A noite seria de morte? Nos últimos trinta e nove anos, do útero à Maré carioca, a história era escrita para pujança da vida [5]. A energia se revelara tamanha que até o próprio arrebento se daria sem respeitar as vidas celebradas no dia 14 de março.

Marielle Franco faleceu na noite do dia 14 de março de 2018, depois de nove disparos efetuados contra o carro no qual ela se deslocava. A mira era Ela, mas com Ela seguiu o condutor do veículo, Anderson Gomes. O destino parecia dizer que ali era a parada final para ambos.

14 de março de 1883. Inverno no Hemisfério Norte.

Morreu Karl Marx. Vivera quase sessenta e cinco anos, encerrando sua existência corpórea na condição de apátrida em Londres.

O funeral contou, dentre outros, com o discurso de Engels: “(…) Marx era antes de tudo um revolucionário. (…) Lutar era o elemento dele. E ele lutou com uma paixão, uma tenacidade e um sucesso como poucos poderiam rivalizar”.

Nele convergiram referências históricas de destaque, dentre as quais uma mulher de partidas e chegadas: Flora Tristan. Em 1843, cinco anos antes de “O Manifesto Comunista”, Flora escreveu no seu “A União Obreira”: “proletários, uni-vos, (…) a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores” [6].

Fevereiros e Marços de 1848 até 2018. As muitas Primaveras dos Povos [7]

Morte e vida permaneceram em disputa, mas mesmo ceifando a vida, a morte nunca fez triunfar o silêncio, nem o fará.

Flora Tristan faleceu em 1844, não sem antes ter reivindicado às mulheres o direito à educação, à formação profissional, à igualdade de salários e ao poder familiar. Defendia o direito de as mulheres se divorciarem e denominava a tal reivindicação de direito ao erro [8].

Cemitério do Chartreuse de Bordeaux, França.

Ao longo das Revoluções de 1848, o nome de Flora Tristan foi reverenciado e milhares de pessoas se reuniram para lhe prestar homenagens, destacando-se o monumento erguido em sua memória naquele ano, no cemitério do Chartreuse de Bordeaux, França.

Mam Lydia Kompe-Ngwenya [9] nasceu em 1935 e, sim, ela vive para reivindicar direitos às mulheres, em especial às mulheres trabalhadoras rurais da África do Sul.

Trabalhadora rural e militante ativa na conquista dos direitos de sindicalização de trabalhadoras, Mam Lydia passou a integrar as listas de parlamentares daquele país desde o início dos anos 90. Foi ao Parlamento, em 1994, e ali ocupa o espaço de fala que representa, “levando consigo algumas dessas esperanças e lutas”.

Mam Lydia diz que as mulheres rurais eram deixadas para trás sem dinheiro e com as crianças para cuidar, então sua primeira iniciativa foi organizá-las em grupos: “O Movimento das Mulheres Rurais organiza as mulheres ajudando-as a formar estruturas em suas comunidades e a capacitá-las a procurar maneiras de expor seus problemas“.

Mam Lydia chama-se “Makwena” na sua língua de origem.

Makwena é a mãe do crocodilo. Ela é “Makwena” na representação das mulheres rurais em suas reivindicações por direitos básicos e detém essa apropriação naquele espaço institucional de fala por ter experienciado as mesmas dificuldades enquanto trabalhadora rural em uma época em que a regra era estarem sozinhas a enfrentar essas lutas diárias.

Da vivência, a percepção de que a rede de sororidade deveria ser tecida. Da força de “Makwena”, o ânimo para costurar as alianças entre mulheres trabalhadoras, especialmente mulheres trabalhadoras rurais.

Marielle Francisco da Silva, Marielle Franco. Nasceu no complexo da Maré, Rio de Janeiro. Vivia a partir desse local de fala e dele recebeu a força necessária ao tecido da vida.

As mulheres, as mulheres negras, as mulheres negras da Maré tinham nela expressão de vez e voz. Eleita vereadora do Rio de Janeiro, foi a quinta mais votada dentre 51 eleitxs e 1.516 candidatxs votadxs. Votaram em Marielle 46.502 vidas.

Na noite de 14 de março de 2018, a execução direcionada a Marielle, fez dela e de Anderson vítimas fatais, mas o propósito de silenciar a mulher parlamentar negra da Maré deu face e voz às 46.502 vidas que Marielle representava politicamente.

Estas e tantas outras vidas vigiam e ocupam os espaços públicos em todo o Brasil desde a noite de 14 de março de 2018. Muitas vidas já vigiaram e ocuparam antes disso e um sem número de outras mais vigiará e ocupará.

Vigiar e ocupar: Marielle, Marx, Flora, Lydia, BiAtômica, nós e quem mais chegar. Entre nascimentos e mortes, fevereiros e marços de tantos carnavais [*] já conheceram muitas histórias de luta no Brasil e no mundo.

São as primaveras de muitos povos a alegrar Paulo Freire, onde quer que ele esteja e caso ainda o seja:

“(…) Eu morreria feliz se eu visse o Brasil cheio em meu tempo histórico de marchas. Marcha dos que não tem escola, marcha dos reprovados, marchas dos que querem amar e não podem, marcha dos que recusam a uma obediência servil, marcha dos que se rebelam, marcha dos que querem ser e estão proibidos de ser. (…) Essas marchas nos afirmam como gente, como sociedade, querendo democratizar-se… estou absolutamente feliz por estar vivo ainda e ter acompanhado essa marcha (Marcha dos Sem Terras) que, como outras marchas históricas, revelam o ímpeto da vontade amorosa de mudar o mundo”.

Vigiar, andarilhar e ocupar juntxs é #mariellepresente, hoje e sempre, em quaisquer dos Hemisférios e em todas as estações.

Renata Nóbrega é membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia) e juíza do trabalho no TRT da 6ª Região. Foi agente de polícia, delegada e serventuária da justiça federal. Curiosa e precisando de poucas horas de sono para viver, vai deixar para dormir quando morrer. É casada com uma mulher que adora dormir. Mãe de Maria Beatriz, a Biatômica. Mestra em História Social pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Percebe que o capital rotula, pintando peles de cores e apelidando sexos de frágeis, mas acredita na paleta viva do arco-íris e na força da luta nada frágil do feminismo revolucionário para rearranjar a estrutura dinâmica de gênero e classe.

Compõe a coluna Sororidade em Pauta em conjunto com as magistradas Célia Regina Ody Benardes, Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Fernanda Orsomarzo, Gabriela Lenz de Lacerda, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Patrícia Maeda, Rose Taveira e Nubia Guedes.


[1] Data provável de parto (DPP), mas a menina avexou-se e marcou presença antes disso. Bem vinda filha!

[2] Trecho de “Quando fevereiro chegar”, composição de Geraldo Azevedo.

[3] Remissão a trechos da música Força Estranha, composição de Caetano Veloso.

[4] Trecho de “Águas de Março”, composição escrita por Tom Jobim.

[5] Na plataforma lattes (http://lattes.cnpq.br/9314795985644167), o currículo de Marielle nos é indiciário da verdade com a qual ela engendrava suas lutas. Práxis (teoria e ação) que se percebe harmônica, dentre outras, pela informação de que era membra do NEPOS – Núcleos de Estudos e Pesquisa do Observatório Social da Maré. Do resumo da dissertação de mestrado defendida em 2014 por Marielle Franco na UFF, lê-se: “A marca mais emblemática deste quadro é o cerco militarista nas favelas e o processo crescente de encarceramento, no seu sentido mais amplo. As UPPs tornam-se uma política que fortalece o Estado Penal com o objetivo de conter os insatisfeitos ou ‘excluídos’ do processo, formados por uma quantidade significativa de pobres, cada vez mais colocados nos guetos das cidades e nas prisõeshttp://biblioo.info/dissertacao-de-mestrado-de-marielle-franco/ .

[6] Tradução livre de L’Union Ouvrière e referência, dentre outras, DABAT, Christine. Cinco grandes figuras do feminismo revolucionário. in. “História do Pensamento Socialista e Libertário”. Recife: EdUFPE, 2008, p. 127-180.

[7] Referência às Revoluções de 1848, conhecidas como A Primavera dos Povos, especialmente as havidas em França, Alemanha e no  Império Austríaco.

[8] DABAT, Christine. Cinco grandes figuras do feminismo revolucionário. in. “História do Pensamento Socialista e Libertário”. Recife: EdUFPE, 2008, p. 127-180.

[9] Dentre as várias publicações interessantes, uma das seções da obra “As vozes do mundo: reinventar a emancipação social para novos manifestos” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 47-79), organizada por Boaventura de Souza Santos.

[*] Sobre luta, carnaval e política o artigo da jornalista e foliã Luciana Veras “Carnaval e política: quando a folia faz rima séria em matéria de gênero”, acessível em http://www.justificando.com/2018/01/17/carnaval-e-politica-quando-folia-faz-rima-seria-em-materia-de-genero/  O texto reportou o bloco Eu Acho É Pouco e a sua pauta feminista. Hoje, nós do Eu Acho é Pouco, vigiamos e ocupamos em nome de Baixinha, mulher e fundadora do bloco que, assim como Marielle, foi brutalmente assassinada e seu corpo encontrado aos 14 de março de 2018, mas não será silenciada: #baixinhapresente, #paremdenosmatar. Dentre outros: https://poraqui.news/olinda/apos-ato-por-mais-seguranca-olindenses-lancam-abaixo-assinado/ 

Sexta-feira, 23 de março de 2018
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