Exclusões raciais nos espaços das cidades: a loja Choix
Segunda-feira, 26 de março de 2018

Exclusões raciais nos espaços das cidades: a loja Choix

Quilombo é uma história. Essa palavra tem uma história. Também tem uma tipologia de acordo com a região e de acordo com a época, o tempo. Sua relação com o seu território. É importante ver que, hoje, o quilombo traz pra gente não mais o território geográfico, mas o território a nível (sic) duma simbologia. Nós somos homens. Nós temos direitos ao território, à terra. Várias e várias e várias partes da minha história contam que eu tenho o direito ao espaço que ocupo na nação. E é isso que Palmares vem revelando nesse momento. Eu tenho a direito ao espaço que ocupo dentro desse sistema, dentro dessa nação, dentro desse nicho geográfico, dessa serra de Pernambuco. A Terra é o meu quilombo. Meu espaço é meu quilombo. Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou.”(1989)”

Beatriz Nascimento em Eu Sou Atlântica de Alex Ratts.

Quando falamos de exclusões racistas no âmbito da territorialidade, estamos falando que o racismo acontece fisicamente segregando a cidade em branca e preta demarcando simbolicamente onde pessoas negras podem ou não ocupar.

Loja Choix na região do Itaim Bibi é um bom exemplo disso. Fez um evento e o convite foi aparentemente amplo, geral e irrestrito.

A loja tem elementos que remetem a uma possível aceitação da presença de pessoas negras, como a referência a estrela pop norte-americana Rihanna. Mas, ao se deparar com pessoas negras adentrando o evento, imediatamente forjaram o roubo de um sabonete e atribuíram a essas pessoas negras o ocorrido. E ainda disseram que essas pessoas eram criminosas e não representavam o perfil da loja.

Muito semelhante aos anúncios de emprego que destacam a “boa aparência” como um dos requisitos para contratação. 

É isso que afirmamos quando dizemos que o racismo brasileiro é cínico.

Ele está até na delimitação dos espaços das cidades e quando tentamos furar o bloqueio constituído por esse planejamento urbano excludente que está obviamente disposto a colaborar com as estruturas sociais que produzem as desigualdades, somos chamados de criminososOu seja, é uma articulação em diversas frentes para barrar a mobilidade social da pessoa negra.

Eles se valem da nossa força de trabalho, mas quando queremos usufruir dos frutos dessa força, somos barrados em diversos níveis, inclusive na maneira como a cidade está “organizada”.

A Casa Grande urbana trabalha silenciosamente para manter a Senzala longe do seu raio de ocupação espacial. A preta pode estar na parede, pois ali ela é estática, ela é passiva, ela é adorno. Não oferece risco, pois é cativa, descansa sua imagem dominada, tal qual as pessoas negras viviam nas senzalas.

Como todo preto é um quilombo em si mesmo (e quilombo é a senzala que se rebela e, portanto, sai da “parede” para se tornar uma realidade viva), nossa presença é combatida, repelida, violentada e caluniada. 

Os chamados “bairros nobres” que de nobreza não tem absolutamente nada, pois são ocupados pela continuidade fraudulenta da hierarquia racial opressora, são polos de exclusão racista que atuam silenciosamente contra a negritude desse país.

Cada vez que circulamos por esses espaços, urbanisticamente racistas, sentimos na pele que existe a cidade branca e a cidade preta. São olhares e ações que questionam o porque o quilombo se move ali, os fazendo lembrar que são herdeiros de um legado sangrento.

O corpo preto é um território que fala, que impõe uma dignidade resistente a tentativas diversas de apagamento. O corpo preto é um território que afronta, que se move e que delimita dentro do espaço produzido para excluir, sua existência com todos os contra-discursos que ele representa.

Ele é aceito pela branquitude, desde que passivo, estático e silencioso. Ele é aceito desde que, não perverta a lógica branca que se reafirma no tecido urbano, onde as periferias são depósitos de indesejáveis, cuja única finalidade é construir as benesses que serão acumuladas pela branquitude.

As diferenças raciais são óbvias também no espaço urbano, onde o “clima” é diferenciado quando adentramos os “bairros nobres”.

Eles estão planejados para ter a mão toda a infraestrutura que a periferia não tem. O mobiliário urbano, as premissas urbanísticas que garantem a salubridade das construções, as divisões dos lotes, os materiais utilizados nas construções, as cores, todos os elementos estão definidos conscientemente para enfatizar que ali há pessoas. Ao passo que nas periferias, a coisa é visivelmente diferente.

Leia também: Ser malandra não é ser empoderada

Branquidade e privilégio: o lacre social

Ninguém estuda bairros nobres, a privacidade é garantida. Não há assistencialismo e benevolência branca, apenas as relações nuas e cruas de poder e submissão. Temos um espaço urbano segregado e não é uma casualidade. São decisões tomadas a partir da indisposição de quem decide em questionar as nascentes das exclusões e apagamentos que se dá nos espaços físicos das cidades.

Quando uma loja implantada na ala branca da cidade faz um evento aberto ao público, não está dialogando com a parte preta da cidade, está falando com os seus. Por isso reprime os quilombos que se colocam dentro do seu espaço privado, afinal se for permitida a permanência negra nesses espaços tem que ser no formato senzala, estático e passivo.

E que a negritude acorde

Representatividade também tem sido uma distorção, uma cooptação de nossas lutas, pois ela importa sim, mas não da maneira como vem sendo empregada, sem reflexão, apenas pra “cumprir cota”. Há muito venho pensando em que tipo de representatividade a branquitude abre para nossa existência, sendo que somos sempre minorias quantitativas  diante dessas aberturas.

A proporcionalidade não pode estar dissociada da representatividade, pois assim reafirma a exclusão. Ter uma pessoa negra nos espaços, só permite que essa ocupação seja senzala, nunca quilombo, pois as reivindicações se reafirmam na multiplicidade de vozes e existências pressionando as mudanças que precisamos.

Uma modelo negra ou uma estrela pop na parede, não significa a ausência de racismo. Ao contrário, significa a indisposição branca ao autoquestionamento da sua alma racista.

Loja Choix e bando, saibam que criminosos são vocês e trabalhamos como podemos para que um dia vocês ocupem o único espaço que deveria ser destinado para sub-humanidades que contribuem para manter as estruturas assassinas que temos nesse país: a cadeia.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.

Segunda-feira, 26 de março de 2018
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