O “Mecanismo” para boi dormir: distorções narrativas da Lava-jato na série
Terça-feira, 10 de abril de 2018

O “Mecanismo” para boi dormir: distorções narrativas da Lava-jato na série

Foto: Série “O Mecanismo”/Divulgação

Dia 7 de abril de 2018. Dois dias após o Supremo Tribunal Federal julgar, com espantosa celeridade, contra o pedido de habeas corpus 152.752, que permite a prisão do ex-presidente Lula[1], julgado culpado na segunda instância, e seis dias após o dia da mentira, que nos últimos anos, no Brasil, parece ser todos os dias. Se alguém ainda duvida disso, basta olhar nossa mais recente (e já chamada assim por vários) “fake News” intitulada, O Mecanismo. O leitor ou os leitores nesse momento
farão duas prováveis exclamações: “poxa, mas Lula tá para ser preso e esse sujeito vem falar sobre seriado?!”; ou, a segunda e mais tacanha alternativa, “lá vem o petista defender o Lula”. O quê raios, portanto, o seriado, financiado pela empresa de streaming Netflix, e dirigido pelo brasileiro José Padilha[2], tem a ver com esse atual momento e, na minha humilde e incipiente opinião, com os momentos que estão por vir?

O mecanismo, para o leitor que ainda não assistiu ou não ouviu falar, é um seriado brasileiro, baseado no livro Lava-jato: o juiz Sérgio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, do jornalista da (adivinha?) Globo, que assina o livro como Vladimir Netto, que convenientemente omite o sobrenome recebido da mãe, Miriam Leitão, também jornalista da Globo. O tema de O mecanismo é o famigerado esquema de corrupção, investigado pela também famigerada operação Lava-jato, a qual tem ocupado a cena pública, ao menos intensamente, nos últimos quatro anos[3]. A investigação iniciou com a busca por lavagem de dinheiro realizado por doleiros, mas que se espraiou em direção a empreiteiras e políticos, tornando-se um dos maiores escândalos de corrupção do Brasil ao atingir a direção da menina-dos-olhos brasileira, a companhia petrolífera Petrobrás. Até aqui nada a acrescentar.

O que chama a atenção na série, embora cada episódio inicie com o aviso de que se trata de uma obra de ficção, é o uso de fatos políticos que aconteceram na realidade e, de certa forma, sua preocupante distorção. Talvez não seja o caso de Padilha ou do roteirista saber, mas a partir da década de 1970 do século XX houve um intenso debate internacional, conhecido como linguistic turn[4], que envolveu vários países como EUA, França, Alemanha, Inglaterra, acerca das diversas e complexas relações entre a linguagem e o real, a narrativa ficcional e a narrativa histórica, a ficção e o imaginário. Apoio-me aqui no alemão Wolfgang Iser, quem possui profundo trabalho acerca da leitura, da narrativa literária e, de nosso interesse, a relação entre imaginário, ficção e realidade. Para não frustrar o leitor, consideremos rapidamente que, para Iser, ficção, realidade e imaginário possuem interseções entre si a partir do que o alemão denomina “atos de fingir”, o escritor, como Vladimir Netto, ou o cineasta, como Padilha, direcionam-se ao real, 1) “selecionam” um tema, uma estética, acontecimentos, sentimentos, anseios etc; 2) “combinam” esses elementos no interior de uma narrativa literária ou cinematográfica para, por fim, obter um resultado que transgrida os limites da realidade no interior da ficção; e, por fim, 3) “desnudam a ficção”, isto é, realizam transgressões que apresentam esse mundo da ficção como um mundo outro, um mundo representado[5]. Dito isso, o que me chama mais atenção na teoria de Iser é a definição que ele dá ao “imaginário”: o imaginário seria uma experiência de acontecimento. Iser, portanto, ressalta a possibilidade da imaginação alterar a nossa relação com o mundo real após lermos um livro, contemplarmos um quadro ou assistirmos a O Mecanismo.

 

Sobre esse pequeno desvio, peço desculpa ao leitor, e digo que, finalmente, chegamos ao x do problema. Sendo o seriado uma ficção, não deixa ele de influir sobre o pensamento humano e muito menos deixa de se relacionar mutuamente com o real.

 

O quê, portanto, deveria ser considerado pelos seus responsáveis ao, por exemplo, colocar na fala da personagem que, claramente, representa o ex-presidente Lula (Higino, de apelido el Capo. Não preciso comentar o quão maldoso e sugestivo é esse apelido, preciso?), a tão repercutida fala do ainda (tristemente) senador pelo então PMDB (atual, MDB) Romero Jucá ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado em áudio vazado (que, inclusive, virou até même nas redes sociais): “estancar essa sangria[6]. Em tal diálogo, discutiam a possibilidade de realizar um “acordão” para por fim à operação Lava-jato.

Esse detalhe, obviamente, não passou despercebido para alguns. Porém, o que O mecanismo realmente apresenta, talvez seja uma primeira tentativa pública de narrar, massivamente, o desenrolar da operação, juntamente com o impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef para, enfim, culminar na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. São oito episódios onde vemos personagens estereotipadas e simplórias em sua suposta complexidade, como a personagem, Marco Ruffo, interpretado pelo ator Selton Mello. Um agente da polícia federal, cuja obsessão e frustração geradas pelo trabalho cria conflitos com a família (sim, é isso). Nada de novo sob o sol, porém novamente o que surge na narrativa da série é um elogio acrítico à Polícia Federal, enquanto os abusos cometidos ao longo da operação, como a banalização do uso da prisão preventiva (utilizada, inclusive, fora da Lava-jato, como a coerção de docentes e reitores de Universidades país afora[7]), são negligenciados.

Outro ponto que apresenta uma profunda ausência na série é a participação popular. Não há povo. Não há conflito. Não há pressão e nem sequer o “pato pateta” nas ruas. A trama se desenvolve entre as instituições e somente por meio das instituições. A população não teria seu papel tanto na oposição quanto no apoio ao longo desse processo? Ou será mais um equivocado e moderno caso de “os bestializados”[8]? Cabe a nós considerar o significado político e histórico dessa perspectiva de Padilha.

Ao nosso ver, O Mecanismo apresenta-se como mais um elemento da disputa narrativa que testemunhamos nesse momento. Numa disputa narrativa o que está em jogo é o domínio do passado. É um conflito simbólico entre partes sociais e políticas que possuem projetos distintos de país, de nação e também de narrativa histórica. Disputa-se pelo poder e, no caso de muitos no nosso país, pela oportunidade de protagonizar na construção histórica da nação. O embate pela forma como contaremos o passado aos filhos e filhas, netos e netas e descendentes o que se passou segundo nossa perspectiva. Ao narrar o passado estamos, ao mesmo tempo, delineando uma compreensão de nossa própria experiência e, numa escala maior, moldando o rosto do nosso país. E a série em questão faz isso indubitavelmente mal.

O mecanismo, podemos dizer, deixa claro qual é sua narrativa: uma ficção que está mais para comédia de mau gosto e um cinema brasileiro que, como é possível ver pelas inúmeras cenas gratuitas de sexo (envolvendo, inclusive, todas as mulheres em primeiro plano ou sempre na parte clara do jogo de luz, principalmente a delegada Verena Cardoni, encenada pela atriz Caroline Abras), deu as costas aos anseios de seu próprio tempo, o que, aliás, grande parte do mercado cinematográfico não anda fazendo. Denominar ficção não basta para invalidar como real o que se representa, muito menos dá o direito de colocar frases, ditas de fato, na boca de personagens que claramente fazem menção a pessoas na realidade. Ainda mais quando o autor de tão penosa e inacreditável afirmação anda tranquilo pelo Senado, enquanto a pessoa que equivale a do seriado vê-se à beira da cela.

Sem dúvida a história será contada, cabe aos brasileiros decidirem como desejam nela atuar, como um povo que fincou o pé no opulento território da democracia ou, nas palavras de João da Ega, personagem de fato brilhante encenado por Selton Mello, ficou ao lado dessa “súcia de hipócritas” e “choldra ignóbil” que ameaça o Estado Democrático de Direito.

Marcos V. Gontijo é Licenciado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais e mestrando pela Universidade Federal de Ouro Preto. Membro do Núcleo de Pesquisa em Histórias das Américas (NUPHA) da UFMG.


[1] A prisão, em mais uma demonstra de exemplar celeridade, já foi ordenada pelo afobado juiz Sérgio Moro para às cinco da tarde do dia de hoje, 7 de abril de 2018.

[2] José Padilha é cineasta, diretor, roteirista, documentarista e produtor cinematográfico brasileiro. Foi o diretor do filme brasileiro Tropa de elite e Tropa de elite 2. Foi premiado com o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, na categoria melhor longa-metragem, ficção.

[3] Maiores informações sobre a operação disponível em: <http://www.mpf.mp.br/para-o-cidadao/caso-lava-jato/atuacao-na-1a-instancia/investigacao/historico> Acesso: 5 de abril de 2018.

[4] Para os interessados acerca desse riquíssimo e tão relevante debate, deixo aqui uma das mais fundamentais referências, que cujo autor, o historiador estadunidense Hayden White, infelizmente, deixou-nos no mês passado: WHITE, Hayden. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. Trad. De José Laurencio de Melo. 2. ed. . São Paulo: EDUSP, 1995.

[5] LIMA, Luiz Costa (org.). Teoria da literatura em suas fontes. vol. 2. 3. ed. . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

[6] Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/politica/os-14-atos-para-estancar-a-sangria-da-lava-jato>. Acessado em 6 de abril de 2018. A cena do episódio está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=76Q85czRNn4. Acesso em dia 7 de abril de 2018.

[7] Mais informações sobre as ações arbitrárias da Polícia Federal que envolveram reitores e docentes de Universidades Federais, disponíveis em: <https://www.cartacapital.com.br/politica/o-assassinato-do-reitor> e http://www.justificando.com/2017/12/06/conducao-coercitiva-de-reitores-da-ufmg-durante-operacao-da-policia-federal-levanta-criticas/. Acesso em 6 de abril de 2018.

[8] Sobre a questão de “os bestializados” (com a qual o presente autor não está de acordo), vide: CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. 3. ed. 13. reimp. . São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Terça-feira, 10 de abril de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend