Tristes tempos em que o povo carrega seu líder para entrar em um carro de polícia
Quarta-feira, 11 de abril de 2018

Tristes tempos em que o povo carrega seu líder para entrar em um carro de polícia

Lula em meio a multidão antes de sua prisão. Foto: Miguel Schincariol/AFP

Na cultura coreana existe um sentimento chamado han, atribuído à longa história de colonização da Coreia, traduzindo uma espécie aceitação coletiva do sofrimento com um certo desejo de que as coisas fossem diferentes, um misto de resignação, tristeza e esperança (SMITH, 2016, p.127) sentimento para o qual não temos palavra na língua portuguesa, apesar do nosso passado também de povo colonizado.

Os dias atuais são desse tipo, dias sem palavras, daqueles em que a angústia toma conta e a impossibilidade de gritar se soma à perda de chão. A tristeza, no caso, é maior que a resignação, e a esperança persiste apenas porque onde ainda há vida sempre vai haver esperança.

A prisão de um dos maiores líderes, representante popular, da história recente do Brasil, após um golpe que tirou do poder uma presidente eleita pelo voto da maioria da sociedade, causa perplexidade, principalmente porque tudo realizado sem muito derramamento de sangue, mas com ares de morte, morte burocrática, morte de direitos conquistados a duras penas.

O novo golpe não veio com mais casos e episódios de tortura, além dos que já conhecemos por aí, mas, disfarçado de procedimento legal, o golpe atual trouxe a tortura que mais faz sofrer, a tortura que não permite o socorro e impossibilita a autodefesa. A tortura que não vê saída, a tortura de um processo kafkiano, tortura típica da angústia sem explicação.

Por isso, exemplos de resistência de outras situações históricas podem ajudar, embora pouco, porque resistência sempre foi algo baseado em uma ideia, em uma opção alternativa ao status quo, coisa que parece nos faltar atualmente. Talvez por isso se fale tanto em resignação, em resiliência, mas resistência mesmo, muito pouco.

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Carlos Marighella escreveu um livro intitulado Por que resisti à prisão (1994) narrando quando entrou em um cinema para não ser preso e a polícia, encontrando-o na sala, no meio das pessoas, em plena sessão de cinema, atirou e quase o matou. Marighella morreu depois, mas nesse dia, escapou baleado e gritando contra o golpe, gritando que era um preso político.

É Marighella que lembra jamais se poder “dar crédito a uma versão policial em assunto de natureza política”, porque as forças de repressão estarão sempre a serviço dos “interesses das classes dirigentes, defendidos ciosamente por uma organização de segurança, repressiva por excelência, arbitrária e prepotente. Qualquer assunto político tratado pela policia tem um sabor indisfarçável de algo preparado com temperos podres. É preciso desconfiar” (p. 30).

Mas hoje o que temos, além de polícia, militar, civil, federal, exército e judiciário? A apatia é tanta que a única coisa na qual a sociedade acredita é em polícia. Atônita, a população segue os ritos sem conteúdo, simplesmente porque são ritos, endeusando instituições, pensando que juízes são sacerdotes e que a reunião de um tribunal leva à magia da justiça, e pensam assim justamente por falta de algo diferente em que acreditar.

Hoje, criticar a polícia e o judiciário é uma heresia e, nesse quadro, não há mesmo como reagir, o que agrava a tortura. Não por outro motivo a pessoa que é carregada pelo povo, por trabalhadores, sindicalistas e estudantes, é carregada para entrar em um carro da polícia. Uma manifestação popular não poderia acabar de forma mais deprimente.

Por isso Daniele Giglioli caracterizou bem os tempos atuais como tempos antirrevolucionários: “jamais, ao longo da sua história, a humanidade se viu vivendo um tempo tão radicalmente contrarrevolucionário. Evidente é o fato de que basta inverter a ideia de revolução para se obter a mais exata e confiável cartografia do presente”. (2016, p. 132).

A antirrevolução constitui as pessoas, desejosas apenas de serem governadas, sem autonomia e consciência, tudo isso agravado pelo medo infantil e genérico, natural em uma população infantilizada pela necessidade de heróis, de comando, de regras. Nada é mais contrário à mudança, nada é mais parecido com a morte, do que o enaltecimento da polícia, que é sempre o enaltecimento da repressão e da menor possibilidade de vida.

Lula não levou um tiro como Marighuella, mas deve estar sofrendo mais em sua cela, sofrimento que só se agravará, porque o sistema se movimenta automaticamente para espezinhar as pessoas, a cada transferência, a cada hora de refeição, a cada visita. Sua tortura é maior porque foi preso com milhares, carregado por milhares de pessoas em um cortejo que simbolizava justamente a crença no sistema repressivo que agora o acolhe.

Enfim, só resta terminar com uma palavra de esperança, a última das características do han, e encerro com a citação de uma presa também do passado. Uma presa que, durante todo o tempo de cárcere, fez do otimismo e da bondade princípios. Em uma de suas cartas da prisão, de 1917, Rosa Luxemburgo escreveu: “A história quase sempre sabe a melhor maneira de encontrar saída justamente quando da maneira mais desesperada parece ter se metido num beco sem saída” (2011, p. 259).

Luís Carlos Valois é Juiz de direito, mestre e doutor em direito penal e criminologia pela Universidade de São Paulo – USP, membro da Associação de Juízes para Democracia – AJD, e porta-voz da Law Enforcement Against Prohibition – LEAP (Agentes da Lei contra a Proibição).


Referências:

GIGLIOLI, Daniele. Crítica da vítima. Belo Horizonte: Editora Âyné, 2016.

LUXEMBURGO, Rosa. Rosa Luxemburgo: cartas: volume III. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

MARIGHELLA, Carlos. Por que resisti à prisão: morto em defesa da liberdade. São Paulo: Brasiliense, 1994.

SMITH, Tiffany Watt. The book of human emotions: na Encyclopedia of feeling from anger to wanderlust. Londres, Inglaterra: Profile Books, 2016.

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