Anitta e Multishow devem retratação e diálogo em programa que ofendeu pessoas com hanseníase
Sexta-feira, 13 de abril de 2018

Anitta e Multishow devem retratação e diálogo em programa que ofendeu pessoas com hanseníase

Na última terça, 10, em seu programa “Anitta entrou no Grupo”, no canal Multishow, a cantora Anitta fez referência à hanseníase de forma pejorativa e discriminatória ao afirmar: “Eu queria dizer que minhas amigas são muito amigas mesmo. Só convido gente que eu amo, não convido gente hanseníase”.

Além desse, outro vídeo da cantora foi divulgado em seus stories do instagram, que conta com dezenas de milhões de seguidores com conteúdo semelhante, usando da doença de forma pejorativa.

Após pedido de retratação por parte do Movimento das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (MORHAN)[1] e abaixo assinado de milhares de brasileiros no mesmo sentido, Anitta se retratou em sua página oficial do Facebook, alegando que se confundiu referindo-se a “pessoas hanseníases” quando teria querido dizer que não convidaria pessoas das quais tem “ranço” para o seu programa.

Entretanto, em que pese os esforços positivos da cantora em divulgar um cadastro de voluntários à causa, gesto que temos certeza que irá inspirar muitas pessoas, não se retira o fato de a discriminação – ainda que culposa, admitamos para o debate – tenha sido proferida em programa assistido por um número incontável de pessoas, sem contar sua conta do instagram de alcance monumental. Não entremos no mérito se foi ranço ou hanseníase, uma vez que o fato é que a cantora tem cerca de 27 milhões de seguidores em suas redes sociais e a declaração feita por ela ofendeu as pessoas atingidas pela hanseníase, que lutam diariamente para superar o preconceito.

Gíria ou não, esse tipo de brincadeira de péssimo gosto feita por pessoas com grande repercussão na mídia servem apenas para reforçar estigmas e estereótipos sobre grupos de outras pessoas que sempre sofreram preconceito e discriminação. A hanseníase é uma doença curável que só existe no Brasil em razão da omissão do estado na adoção de políticas públicas eficientes para a erradicação de suas causas. Vale lembrar que todo ano são registrados milhares de novos casos de hanseníase no Brasil, fazendo do país o 2° com mais quantidade de pessoas atingidas pela doença.

Leia também:

Precisamos Falar Sobre A Hanseníase E As Vítimas Abandonadas Pelo Estado

Brasil castigou pessoas com hanseníase, separou-as à força de seus filhos e você nem sabe

As pessoas com hanseníase foram vítimas de graves violações aos direitos humanos por terem sido submetidas a um processo desumano de internação compulsória entre as décadas de 40 e 80, ocasião em que foram torturadas e separadas de seus filhos e familiares. Além disso, as pessoas diagnosticadas com a doença e seus filhos, até o ano de 1986 eram isoladas em instituições totais como colônias e preventórios. Milhares de pessoas ainda hoje lutam pelo direito de ter uma vida digna longe do preconceito e da discriminação. Anitta, com toda certeza, tem uma excelente assessoria que pode informá-la melhor para que forneça dados para que essa realidade tão dura seja conhecida pelo grande público.

Além disso, o Brasil adotou por décadas uma política pública de separação dos filhos à força dos pais e mães diagnosticados com a doença, tratável há muitos anos, e internados, como já dito. Os filhos, por sua vez, passaram por duríssimas trajetórias de vida, muitos deles em abrigos precários ou enviados para casas em condições indignas. Falar sobre hanseníase é algo sério e doloroso para muitas pessoas. É preciso ter cuidado e respeito, inclusive para se consertar o erro feito.

Vale dizer que, caso as falas tenham sido para se referir a pessoas com hanseníase de forma discriminatória, causa espanto pessoas com acesso aos principais meios de comunicação e com acesso à informação insistirem na utilização desse termo de forma pejorativa, agindo com a mesma truculência que aqueles que zombam dos judeus que foram levados aos campos de concentração, aos indígenas que foram assassinados e os negros escravizados no processo de colonização deste país. Caso tenha sido um engano, não deixa de ser lamentável que a cantora tenha dito e repetido, faltando-lhe aconselhamento e empatia.

 

Dessa forma, o MORHAN espera que Anitta e o Multishow – veículo que propagou a fala da cantora – abram um diálogo no mesmo programa, para falar sobre hanseníase e os direitos das pessoas atingidas pela doença no Brasil, como forma de conscientização e informação, ajudando a diminuir o preconceito existente e contribuindo, de fato, para reverter as equivocadas propagadas.

 

Thiago Flores é Advogado, militante do Morhan e Mestre em Ciências Sociais pela Puc Minas. Atua na coordenação jurídica do movimento e na ação dos filhos separados pelo Estado brasileiro em razão da política pública de separação dos filhos.

Pedro Pulzatto Peruzzo é Doutor em Filosofia do Direito pela USP e Professor na PUC/Campinas. Atua na na ação dos filhos separados pelo Estado brasileiro em razão da política pública de separação dos filhos.

Bruna de Oliveira Zaparoli é acadêmica no curso de Direito da PUC/Campinas. Atua na na ação dos filhos separados pelo Estado brasileiro em razão da política pública de separação dos filhos.

Juliana Simonassi Garcia Duarte é acadêmica no curso de Direito da PUC/Campinas. Atua na na ação dos filhos separados pelo Estado brasileiro em razão da política pública de separação dos filhos.

Brenno Tardelli é diretor de redação do Justificando e advogado. Atua na na ação dos filhos separados pelo Estado brasileiro em razão da política pública de separação dos filhos.


[1] Convidamos todos e todas a conhecer o trabalho incansável do MORHAN na luta pelo conhecimento da doença e propagação de seu tratamento e cura, através do link.

 

Sexta-feira, 13 de abril de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend