O que é ser Judia
Sábado, 14 de abril de 2018

O que é ser Judia

Foto: Woman in gold, clássica pintura de Gustav Kilmt

O Judaísmo, para mim, não foi uma questão de escolha: eu nasci Judeu e ponto. E falo no masculino sobre esse passado porque eu sou uma mulher trans/travesti e essa parte da minha infância era uma parte que eu lembro com carinho, uma coisa do meu passado que eu respeito e valorizo. Então, desde que eu era uma criança eu fui criado com esse fato na minha mente, você é judeu. A influência da meu avô, que ensinou que judaísmo não é escolha, foi a maior parte da minha conexão com Judaísmo. E isso me levou a construir o que o Judaísmo significa para mim e o que viria a significar para mim nas várias fases da minha vida. Eu nunca fui na sinagoga com frequência quando eu era criança e até meus 20 anos eu não frequentei nenhuma sinagoga regularmente. O judaísmo tradicional me atraiu, com a tradição rica que temos como Judeus, mas foi apenas um aspecto pra me guiar no meu processo de descobrir como Judaísmo encaixa na minha vida.

Desde que eu era criança, nunca fui aceita na comunidade Judaica em si. Eu sempre era uma pessoa olhando pra fora, um goy[1] talvez, mesmo com um desejo forte de ser parte desse grupo. Por que minha família não participava na comunidade, não fomos na sinagoga, não me colocou nas escolas hebraicas que todos meus amigos judeus frequentavam, eu não me encaixei nesse coletivo de pessoas que eu sabia que eu tinha direito de ser parte. Então eu lutava, eu falava pra todos que eu era judeu, eu aprendi que eu podia sozinha ser Judeu, eu me encaixei nas tradições e encaixei as tradições que funcionavam na minha vida. A coisa linda do Judaísmo é que tem essa flexibilidade, existe essa possibilidade de construir uma comunidade em volta duma crença compartilhada. Tem uma expressão em inglês, bastante usada para descrever os Judeus dos Estados Unidos, onde eu nasci e cresci: essa expressão é “dois judeus, três sinagogas”. O que significa isso é que sempre vai ter uma variação de opinião de como Judaísmo deve ser interpretado, seja na tradição, pratica, crença… e existe a grande possibilidade de achar seu próprio espaço na religião e cultura.

 

O Judaísmo que eu conheço, e que eu aprendi, tem uma tradição forte de mulheridade.

 

Minha família é matriarcal, as mulheres são as mais fortes, mais poderosas e lideram a família na jornada que é vida. Eu já tinha mudado para Brasil, em 2016, quando eu me assumi mulher trans e comecei minha transição em 2017. O processo de transição foi um processo duro, longe de família e sozinha aqui no Brasil, só com minha família de amigas que eu criei em torno de mim. Além de transfobia que sofri e ainda faz parte da minha vida, eu senti um maior impasse para conectar com a comunidade Judaica aqui em São Paulo, sendo que eu mudei para cá para fazer uma pesquisa etnográfica sobre a comunidade Judaica aqui no Brasil, especificamente focalizando as pessoas que se identificam como LGBT. Assim, eu tenho uma ideia de como a comunidade é no que toca à diversidade de gênero, baseado nas experiências dos meus interlocutores.

Claro que uma experiência pessoal e uma experiência baseada nas histórias das outras são coisas diferentes. Eu não consigo dizer de fato como será meu tratamento dentro da comunidade. Porém, consigo dizer sobre minhas experiências com outros membros da comunidade. Em geral, sendo uma mulher trans e Judia eu sou usualmente uma novidade pra pessoas, uma coisa rara. De fato, existem poucas mulheres trans/travestis e homens trans aqui no Brasil. Ou melhor, existem mais, mas nossa visibilidade é pouca, e a comunidade judia não está preparada para nos receber.

Durante minha pesquisa e conhecimento das pessoas LGBT judias no Brasil, sempre foi falado que nunca conheceram uma Judia travesti/trans. Elas relatam ter ouvido sobre a existência de mulheres trans no meio Judeu, mas sempre existia apenas a história duma travesti ou trans que se afastou da comunidade depois da transição e que, posteriormente, sumiu. Mas a presença das pessoas trans no Judaísmo não é uma coisa rara só no Brasil. Até nos Estados Unidos tem poucas pessoas, mesmo com Rabinas e Rabinos trans assumindo posições de liderança nas várias comunidades que existem lá. Então, eu não tentei, eu fiquei na minha, seguindo minhas tradições e minha vida aqui, contente e sabendo que eu sou Judia e ponto.

Recentemente, eu conheci uma mulher transexual Judia, ela é umas das quatro pessoas trans Judias que conheço aqui em São Paulo: eu, ela e mais dois homens trans. Eu fiquei com um senso de solidariedade com ela, com o desejo dela de fazer parte da comunidade que ela tinha sido parte no passado antes da transição dela.

O outro dia fomos num evento de Pesach, um evento vinculado com uma sinagoga mais aberta para essas questões e com a intenção de acolher pessoas Judias que não se encaixam em suas comunidades de origem. De chegada, eu percebi como mesmo havendo disponibilidade em nos entender, tinham dificuldades de lidar conosco. Isso me fez pensar bastante, que a comunidade tem de aprender sobre esse assunto, que não é suficiente só falar sobre como acolher pessoas LGBT, mas de fato como entender as pessoas Trans que fazem parte do meio do Judaísmo. Precisamos de educação, informação, e até trazendo a tradição Judaica que toca nesse assunto para a frente do debate de inclusão. Não é suficiente só dizer que aceita, respeita e tudo bem. O que precisa ser feito é entender como tratar essa pessoa como qualquer outra, respeitando de fato a existência dela e o direito dela de fazer parte desse espaço. Eu vou terminar esse relato com uma ideia que me dá força na minha jornada no Judaísmo: eu tenho direito de estar aqui, eu tenho direito de fazer parte de Judaísmo, ser Judia não era minha escolha então tem de me encaixar.

Lilyth Ester Grove é uma mulher trans/travesti nascida no Texas, Estados Unidos. Morou em Hong-Kong com a família por 8 anos, voltou para os EUA, Califórnia e, atualmente mora no Brasil. Assumiu ser uma mulher trans/travesti e, há um ano, começou a sua transição de gênero. Logo, terminará o mestrado (Unicamp) e se tornará uma antropóloga de fato, combinando ativismo e uma perspectiva pessoal para fortalecer o movimento trans/travesti aqui no Brasil.

Para todas as mulheres que têm nos acompanhado, mandem seus relatos! Nosso e-mail é: [email protected]


[1] Goy é um termo em Iidiche (um dialeto do Hebraico) que significa: alguém que não é Judeu.

Sábado, 14 de abril de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]