Uma proposta de leitura marxista do filme “Eu, Daniel Blake”
Terça-feira, 17 de abril de 2018

Uma proposta de leitura marxista do filme “Eu, Daniel Blake”

Foto: “Eu Daniel Blake”/Divulgação

Contém spoilers

“Eu, Daniel Blake” tem como enredo central a saga do personagem que dá nome ao filme, um senhor inglês que, após sofrer um infarto e quase cair de um andaime, contando já com 40 anos de trabalho, dá entrada no seguro social para pedir um benefício em razão de sua invalidez. A negação desse primeiro pedido feito ao Estado de Bem-Estar Social do Reino Unido (a história se passa em Newcastle, cidade a 450Km de Londres) ocorre nos primeiros minutos da trama. A partir de então, a história se desenvolve com Dan lutando para marcar a data da feitura do seu pedido de reconsideração (em relação ao benefício previdenciário negado), ao mesmo em que deve cumprir as exigências para manutenção do seguro-desemprego, sua única fonte de renda, já que, por decisão médica, está proibido de voltar ao trabalho.

A primeira coisa que nos deve chamar a atenção no enredo construído é a profissão de Daniel, que faz dele um “homem fora de seu tempo”. Dan é carpinteiro, uma ocupação que ainda carrega forte ligação com o trabalho concreto, ou seja, com o fato da extração da mais-valia ainda depender dos conhecimentos adquiridos pelo trabalhador, de sua experiência e habilidade, fazendo com ele detenha algum controle sobre o ritmo da produção e o maquinário manipulado. Não é um por acaso que a carpintaria, assim como outras ocupações tradicionais, esteja em extinção no âmbito do processo de passagem da subsunção formal do trabalho ao capital para a sua subsunção real. Nesse sentido, um ofício que forja um trabalhador para quem “se dado o terreno, constrói uma casa” não pode sobreviver ao processo de expansão do capital, que é o processo de abstração do trabalho, transformando-o em “geleia amorfa de energia humana dispendida”, em “trabalho genérico”, em mero dispêndio de energia laboral”. Aqui vemos o primeiro descompasso entre o personagem e o mundo em que está forçosamente inserido: Daniel se vê como carpinteiro – o fato dele ter uma “mini oficina” em casa só reforça esse vínculo orgânico com o trabalho; Daniel “não foge do trabalho como se foge da peste”, como muitos de nós o fazemos; para ele o trabalho é parte constituinte de sua vida e identidade – mas o Estado o vê apenas como força de trabalho.

“Eu posso consertar tudo, menos um computador”, diz Daniel a Katie quando se conhecem, reforçando sua inadequação às atuais configurações do modo de produção capitalista, afinal, de que vale alguém que concerta cisternas, fabrica móveis, produz um sistema de aquecimento com plástico bolha? O capitalismo, em sua configuração contemporânea, só precisa que ele saiba o que é um mouse e esteja capacitado para dar um clique.

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Assim, desde o começo da narrativa, Daniel se vê em um labirinto de repartições burocráticas tentando fazer com seus direitos sociais previdenciários sejam realizados. É numa dessas ocasiões que ele conhece Katie. Diferentemente das interpretações sentimentais e “cristãs” que usualmente vimos sobre a trama, é de relevo salientar que, no seu transcurso, o que identificamos em seus momentos de maior emoção é a solidariedade de classe: é em razão dela que Daniel, logo após receber seu 2º “não” e sentir-se mal do coração ante ao desespero, levanta-se para defender Katie quando ela está sendo expulsa da repartição por ter chegado atrasada… Também é a solidariedade de classe que faz com que Ann, a funcionária pública amável, se reconheça em Daniel e diga a ele “sou eu quem lhe deveria pedir desculpas” quando ele não consegue preencher o formulário online sozinho. Também é a solidariedade de classe (e não a “compaixão”) que faz com que o gerente do supermercado, mesmo ocupando posição de hierarquia na cadeia de relações capitalistas, libere Katie da acusação de roubo: “Isso é entre mim e você, não tem nada a ver com a loja, está entendendo? Esses produtos já estão pagos, pode ir embora”. Por sua vez, é a ausência dessa solidariedade por força da não consciência de classe que marca os comportamentos dos vigilantes da seção de atendimento ao público do seguro social (agentes do “poder punitivo”) e, especialmente, da chefe de Ann (classe média), que não se enxergam em Daniel ou Katie, vendo-os como “inferiores” porque dependentes de “ajuda estatal”.

Falando sobre solidariedade e consciência de classe, uma das partes mais brilhantes do filme é a cena da “oficina de currículo” a que Daniel é obrigado a participar para manter o recebimento de seu seguro-desemprego. A cena mostra com clareza e refinada ironia a ideologia da formação continuada e a incitação à concorrência e competitividade entre os trabalhadores: o palestrante diz que há uma multidão de pessoas para poucos empregos, então como fazer para garantir-se? Destacar-se da multidão! Ser o mais capacitado, o mais comprometido, o mais “proativo”… ainda que não haja empregos para todos (o que o próprio palestrante reconhece).

A moralidade burguesa e a disciplina para o trabalho aparecem aqui com um quê tragicômico: Daniel, desempregado, deve comprovar ao seguro social que passa 35h por semana buscando emprego, ainda que ele não possa trabalhar (por recomendação médica do próprio sistema público de saúde) e ainda que a “prova de invalidez” seja o requisito necessário para que seu pedido de reconsideração seja aceito e ele possa deixar de receber seguro-desemprego e passar a receber algo como uma aposentadoria por invalidez (após 40 anos de trabalho, frise-se)! “China”, o vizinho de Daniel (de quem falaremos depois) já o havia alertado que essa aparente “esquizofrenia de critérios”, com agências governamentais exigindo condicionantes contraditórias não é “por acaso” ou em razão da “falta de racionalidade do Estado”: “Eles vão complicar de propósito! Já vi muita gente desistir…”

O toque de refinamento é dado quando Daniel, “analfabeto digital”, com um currículo escrito à mão e a lápis, é o único dentre os personagens a receber uma ligação ofertando-lhe trabalho: “você tem a experiência que eu procuro, os jovens de hoje não têm compromisso e são preguiçosos”. A tentativa de Daniel explicar que não poderia aceitar o trabalho é angustiante; a moralidade burguesa com seu individualismo egoísta, que suspeita sempre dos indivíduos autocentrados, lhe humilha: é Benthan e, não o potencial empregador, que acusa Dan de “preferir o benefício a um dia de trabalho”.

Por sua vez, a fala sobre a falta de compromisso e a preguiça da juventude nos soa tão próxima que parece que estamos em um jantar de família: é difícil mesmo para as gerações de trabalhadores mais velhos, sobretudo para aqueles que viveram o apogeu do Estado de Bem-Estar e o compromisso de classes, entender que a atual geração não “se compromete com o trabalho” porque sabe que ele não lhe assegura nenhuma perspectiva de futuro, nem a mais sorrateia ascensão econômica, muito menos todas as promessas de consumo que lhe foram feitas.

O diálogo entre esses trabalhadores é truncado, marcado pelo ressentimento e incompreensão de uma geração educada por aparelhos ideológicos a “trabalhar para conquistar” e uma para quem essa ideologia já não carrega sequer aparência de verdade… isso porque estamos a falar da juventude inglesa! Ousemos transferir essa análise para a periferia do capitalismo, com recortes raciais e de gênero, tendo por interlocutores uma geração passada que apenas se alimentou de “promessas” de um Estado Social inconcluso e teremos, diante de nós, a profundidade do nosso desafio e a dimensão de nossa tarefa.

Aqui vale lembrar de “China” e Pipper, os vizinhos de Daniel e, não por acaso, os únicos personagens negros do filme. O racismo rebaixa-os à condição de receberem 3,47 libras por 45 min de serviço descarregando um caminhão às 05:30 da manhã no inverno inglês, o que é menos que China ganhava quando imigrou, viajam só, para a CHINA… ou seja, ainda que europeus, os trabalhadores negros valem menos que um trabalhador chinês! Demonstrando a potencialidade do racismo estrutural no rebaixamento do preço da força de trabalho. O insuportável dessa condição os faz comprar a ideologia do empreendedorismo, arriscando-se no comércio ilegal de falsificados, em que a qualquer momento, o “investimento de uma vida” pode ser apreendido pela fiscalização e eles perdem a chance de “darem certo”.[1]

Ainda teríamos que analisar Katie, a personagem que representa o rebaixamento da condição da mulher trabalhadora. O abandono paternal de seus 2 filhos e a temática da prostituição como “mercado” que só se apresenta a mulher são apenas 2 dos recortes de gênero que perpassam sua história. Para mim, no entanto, a cena mais simbólica é a de sua filha Daisy, uma menina negra, desconstruindo a masculinidade tóxica de Dan (homem como provedor) e apresentando-lhe à solidariedade de classe de maneira a não deixar margem a outra interpretação: “você não nos ajudou? Então porque não podemos ajuda-lo?”, mostrando a Daniel (e a todos nós) que a “hierarquia” construída pelo patriarcado entre ele (homem branco idoso) e ela (menina negra) se dissolve na perspectiva de classe, especialmente na situação de “estamos todos nesse mesmo barco, furado e à deriva”.

A cena da pichação é belíssima para discutirmos direito penal simbólico e a “esperança” (justificativa “teórica”) de que a pena reprima comportamentos desviantes (a famosa prevenção geral e prevenção especial). Em meio ao desespero de Dan, que constata toda lógica de um sistema que o faz navegar em círculos num oceano de burocracia (para aludir a sua amada Molly) em busca de empregos inexistentes, o vigilante só consegue lhe dizer “como você fez isso? não pensou nas consequências?” – como se qualquer consequência pudesse aplacar o ato último de um indivíduo que se desprendeu de todas as amarras sociais… O direito penal é o “terror de classe organizado”, já nos diria Pachukanis, e seus agentes não titubeiam em levar em custódia um trabalhador idoso que pichou uma repartição pública, sob os “protestos” de uma pequena e “curiosa” multidão, ocupada em documentar o “fato bizarro” com fotos e transformar o ato de revolta em “evento” nas redes sociais… A única clareza sobre o episódio é alcançada pelo trabalhador anônimo que doa sua jaqueta à Daniel e diz aos policiais “vocês também serão demitidos, eles estão privatizando tudo!”

 

Assim, por tudo que expusemos, não podemos concordar com as leituras que apontam o final do longa-metragem como uma “ode” a cidadania e ao Estado de Bem-Estar Social, especialmente diante das palavras escritas por Dan e lidas por Katie em seu funeral.

 

Em nossa análise, ao matar Daniel no banheiro da repartição pública onde, finalmente, ele teria seu pedido de reconsideração analisado – e isso após um diálogo cheio de esperanças com um advogado cadeirante, que atesta que “aposta sua vida” na revisão e concessão do benefício, porque todos estão “revoltados” com sua situação -, a mensagem final do filme é de que “ao cidadão” do Estado de Bem-Estar Social, incapaz de continuar produzindo, o que lhe é reservado é uma peregrinação de humilhações e privações até a morte, chorada em um “velório de pobre”, as 09:30. “Nada mais, nada menos”. Novamente, fica o convite: se isso é “tudo” que a cidadania tem a oferecer nos Estados de capitalismo central aos trabalhadores “sobrantes”, o que esperar dela na periferia do sistema? Como confiar na reedição de um modelo historicamente datado que, num país tido como exemplo de seu desenvolvimento, relega uma mulher, mãe de 2 filhos, à fome (a cena de Katie abrindo uma lata de molho no meio do banco de alimentos, no auge da “dor da fome”, é das mais doloridas de toda a trama) e à prostituição e à morte um senhor branco com 40 anos de “serviços prestados”?

Portanto, não foi o Estado quem matou o carpinteiro Daniel Blake. Foi o capitalismo, por meio de sua forma política consagrando, ademais, a liberdade e a igualdade do sujeito de direito: Daniel era livre para escolher entre pleitear ou não o seguro desemprego, se submeter ou não as suas condicionantes, como lhe lembrou a funcionária Sheila; também foi tratado exatamente como os demais usuários de todos os serviços públicos por onde passou, mentira: de fato, quando recebe a ajuda de Ann para preencher o formulário do seguro-desemprego, a situação representa “perigosa” exceção, que de pronto é interrompida pela chefe de Ann que nos lembra “não podemos criar precedentes”. Daniel não foi tratado como cachorro, mas sim como cidadão, ou melhor, como força de trabalho que, saindo da fábrica, emergiu na “sociedade civil”. Nada mais, nada menos.

Júlia Lenzi Silva é Doutoranda em direito do trabalho e da seguridade social pela USP. Membra do grupo de pesquisa DHCTEM (Direitos Humanos, Centralidade do Trabalho e marxismo). Professora universitária.


[1] Obs: o futebol como “linguagem universal” da classe trabalhadora é um capítulo à parte nessa história, bem como o fato do chinês que assegura a mercadoria dos trabalhadores ingleses chamar-se Stan-li, fazendo Dan cair na risada com a remissão a Stalin (em referencias)

Terça-feira, 17 de abril de 2018
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