O que as palavras fazem com a gente: alimentando o maniqueísmo da esquerda
Quinta-feira, 3 de maio de 2018

O que as palavras fazem com a gente: alimentando o maniqueísmo da esquerda

Manifestação de 1º de maio. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Por Valdirene Daufemback

 

Adotando a concepção de maniqueísmo como poderes opostos e incompatíveis, sendo um “o bem” e outro “o mal” e devendo o bem travar uma luta inglória e abnegada para se sobrepor ao mal, caracterizamos um fenômeno que parece estar colocado em quase todos os ambientes no Brasil da atualidade. Da sala de estar das casas à praia de Ipanema, temos divisões que não querem conviver, se desqualificam e se dessensibilizam.

A prisão talvez seja o local que mais consolide no imaginário das pessoas os muros valorativos. Está dentro é do time do mal. Está fora, do time do bem. Muitas são as demonstrações disso. Certa vez, me preparando para uma palestra no Espírito Santo, resmungava a TV no quarto do hotel. Faltando inspiração para abordar de maneira mais explícita a construção de estereótipos, me permiti ouvir a máquina gastadora de tempo. Era hora do jornal, o que há muito tempo passou a ser programa policial. Bastaram três notícias para encontrar um caminho no labirinto das ideias. As chamadas: “Menor tenta assaltar comerciante com arma de brinquedo”; “Vizinhos socorrem crianças que haviam sido abandonadas em casa”; “Os bandidos foram levados à delegacia após reagirem durante uma abordagem policial…”. As imagens também gritavam significados. Enquanto dois corpos pequenos e assustados eram apresentados próximos à viatura, no primeiro caso. No segundo, estavam numa sala sendo protegidos por adultos que falavam de forma empática. Para construir a identidade do indivíduo do mal que não merece o título de criança, apresenta-se o “menor” que é “autor”, em condições de exposição. Já as “crianças” são “vítimas” e estão em circunstâncias de acolhimento. A terceira notícia tem a típica habilidade de julgar antes de qualquer investigação ou processo; de possível acusado, o sujeito já é dado como culpado e desqualificado com a designação de “bandido”. Pronto, caricaturas desenhadas.

Outro campo fértil de significados são as paredes das cadeias. Registros religiosos, códigos ligados aos grupos criminais, pedidos de socorro, declarações de amor, expressões de raiva, enfim, um mundo fascinante mesmo para o mais pragmático dos estudiosos. Normalmente esse arsenal de palavras e figuras são de autoria dos presos, já que funcionários tem outras formas de explicitar suas marcações. No entanto, visitando uma prisão encontrei as seguintes frases escritas no painel das chaves: “É do inferno que se vê o céu”; “Se não tiveres o olhar da águia, a rapidez de um raio, a coragem do coelho, não é digno de pertencer ao Pav B”; “A morte do homem começa no instante que ele desiste de sonhar”.

Vou confessar que a primeira constatação que fiz é que não sei nada sobre coelhos. Por que ele seria considerado corajoso? Nem a mais remota ideia. Depois procurei no oráculo da modernidade, Sr. Google, “coragem do coelho”. Fui apresentada a personagem Tingo, o Coelho Corajoso, e aos escritos de Paulo Coelho. Cheguei à conclusão que esse atributo dos coelhos deve ser de domínio dos especialistas. Entretanto, daquilo que meu repertório alcança, a primeira frase novamente me remeteu aos posicionamentos maniqueístas. Estando no pior lugar, como é considerado comumente o inferno, vê-se o melhor, o céu. Destoando do contexto dualista, a última frase traz a ideia de processo. Embora a morte pareça algo binário, ela é apresentada como gradativa e com possibilidade de escolha.

A capacidade cognitiva que é acionada quando nos deparamos com uma construção discursiva que vai para além do dual em oposição é infinita. Veja o exemplo da morte, trazida como algo que contém também uma dimensão subjetiva, vivida por alguém que decide e não é vítima, e, por fim, que se dá no tempo. Imagine reportar essa dimensão para a análise da violência urbana. Versão maniqueísta e versão complexa. Faz muita diferença para definir o posicionamento dos agentes responsáveis pelas políticas públicas e de cada um de nós adotar uma ou outra concepção.

Mas o maniqueísmo não vem só, geralmente soma-se a paranoias. Isso significa que seus adeptos desenvolvem equívocos ou delírios perante fatos ou circunstâncias atribuindo-lhes excessiva importância ou interpretação errada. Eles se sentem absolutamente convencidos que há pessoas ou situações que estão contra eles, que estão ameaçados ou são perseguidos, por isso lidam com o dia-a-dia em estado de permanente desconfiança. Essa fórmula é perfeita para desumanizar aqueles que são diferentes e estereotipados, aos que a sociedade atribui o rótulo de indesejáveis ou perigosos. Contra essa perspectiva, muitos grupos se colocam ao defender a condição de cidadania e humanidade para todas as pessoas, apoiando-se no Estado Democrático de Direitos. Entre eles os movimentos sociais e organizações não governamentais de perspectiva crítica, com propostas coletivas, a nominada esquerda.

Nos últimos anos, porém, tem aparecido também expressões maniqueístas e paranoicas nas vivências dos próprios grupos que atuam contra isso. Os mais diversos seguimentos de esquerda têm potencializado a divisão e a ameaça entre si. Discussões sobre legitimidade, possibilidades de fala, enfoques da militância, entre outras questões, revelam pouca empatia, sororidade, acolhimento e disposição para construir sem ter a exclusão como lógica. Isso me faz recordar as palavras de Mano Brown: “O sistema precisa de violência para sobreviver”. A violência da ideologia do inimigo, a violência que demanda aparatos de proteção e movimenta a indústria bélica, a violência que desqualifica e segrega. Pensemos, permanentemente, em que medida estamos alimentando, com nossa agressividade e intolerância, justamente aquilo pretendemos combater. Um alerta deveria soar toda vez que parecemos mais focados em valorizar as nossas posições do que em traduzir nossa defesa em ações que realmente modificam as relações assimétricas e injustas.

Valdirene Daufemback é psicóloga, doutora em Direito e integrante do Laboratório de Gestão de Políticas Penais da UnB. Foi Ouvidora e Diretora do Departamento Penitenciário Nacional. Acredita na promoção de políticas públicas e numa visão interdisciplinar e comunitária para termos um mundo melhor para todxs.

Quinta-feira, 3 de maio de 2018
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