A “verdade” do detento. Crítica à obra “Estação Carandiru”
Terça-feira, 8 de maio de 2018

A “verdade” do detento. Crítica à obra “Estação Carandiru”

Foto: Pavilhão do Carandiru, implodido em 2002

Certa vez, li na internet um comentário sobre a obra Estação Carandiru de Dráuzio Varella chamando-a de fantasiosa. De imediato me lembrei da música Diário de um detento, gravada no ano de 1997, pelo grupo de rap Racionais Mc’s. Trata-se de uma canção escrita por Jocenir, homem que foi detento da Casa de Detenção de São Paulo na década de 1990. A música cantada pelo grupo Racionais Mc’s, narra o cotidiano de um presidiário durante o dia que antecede o massacre do Carandiru, em 02 de outubro de 1992, encerrando a canção no dia seguinte ao ocorrido. A música termina com a frase: “quem vai acreditar no meu depoimento? Dia 03 de outubro, diário de um detento”.

Tanto a música como o livro de Dráuzio Varella são obras que tratam do cotidiano no presídio, ou melhor, exploram a visão de um mundo alheio ao mundo daqueles que estão fora da prisão. Percebam que na música há, após o longo testemunho, uma resignação, pois quem narra é um detento, um transgressor, uma párea social, um malandro – expressão que Varella se utiliza muito em seu livro, quando se refere à forma de tratamento dos presos no Carandiru. Dessa forma, os detentos seriam faltosos com a verdade, não dignos de credibilidade e o Carandiru, por conseguinte, seria a morada da mentira.

No comentário que li na internet, Varella não foi acusado de mentiroso, mas de fantasioso. Seria apenas uma expressão retórica, para deixar o argumento sobre o livro menos categórico e acusativo? Mesmo que tenha sido esse o motivo da escolha da palavra “fantasioso”, só comprova uma acusação comedida diante de um médico famoso e respeitado, um homem da ciência, por excelência. Dessa forma, Varella estaria sob o signo da suspeita, embora seu halo de médico o proteja da acusação mais veemente de mentiroso.

Hans-Georg Gadamer, em um ensaio de 1957, ao questionar o que consiste “a verdade”, diz, referindo-se à verdade científica, que a liberdade da ciência não liberta o pesquisador de sua responsabilidade política: “embora a ideia da verdade presida a vida do investigador de maneira incondicional e inequívoca, sua franqueza para falar é limitada e polivalente”[1]. Assim, o presidiário, já é objeto de desconfiança, restando pouca possibilidade de credibilidade em suas palavras – como a música do grupo Racionais Mc’s explicita. O médico que frequentou por mais de uma década o Carandiru como voluntário, ao conviver e até manter amizade com alguns detentos, passa a ter sua palavra sob o signo da suspeita. Enquanto médico, paradoxalmente, a sociedade não pode aceitar que ele tenha interação humana com os detentos – como Varella deixa claro no capítulo Os funcionários, aberto já com a seguinte passagem: “No início, fiquei com a impressão de que os funcionários não confiavam em mim. Depois, tive certeza.”[2] Sua verdade de médico e cientista não tem cabimento no mundo dos corrompidos, dos mentirosos. Por isso, quando Varella assimila em seu estilo narrativo a linguagem dos detentos, e com frequência, transferindo a voz narrativa aos personagens de seu relato (detentos), Varella cai de estatuto de médico, homem de ciência, para alguém “fantasioso”, pois aproximou-se perigosamente dos “mentirosos”.

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No mais, não creio que Varella esteja preocupado com os quesitos de mentira e verdade, se os presos mentem ou não, afinal, em sua obra, Varella está mais interessado em retratar um determinado cotidiano que foge à experiência dos não-detentos, dos homens na prisão, a curiosa articulação social gerada dentro daquele micro-cosmos, onde violência física e psicológica, determinações éticas, morais e até compaixão, todas próprias daquele mundo desterrado, se entrelaçam.

Varella, com grande expertise, consegue dissolver o tempo, deixando as histórias sobre e dos presos – que se passam em temporalidades distintas – diluídas na ação da narrativa, ou seja, sabemos que os acontecimentos dentro do presídio são da década de 1990, mas os anos não são precisados, dando-nos um efeito de que se trata de um tempo único, muito parecido com as narrativas dos bardos medievais, em que o tempo é o tempo do maravilhoso e, no caso de Varella, o tempo multifacetado: é o tempo do presídio, o tempo dos delitos e das penas, o tempo do antes do delito, e o tempo depois da sentença.

As histórias narradas pelos detentos funcionam como liga da ação pretendida por Varella, a saber, quando Varella se propõe a falar de um tema, ele recorre a alguma história que ele vivenciou ou que contaram a ele, e conforme o pavilhão muda, e o ambiente da história muda, muda com ele o objeto a ser narrado. Basta nos lembrarmos que Varella transitou por grande parte do presídio, e cada espaço físico tem uma função na narrativa de Varella – seja para situar os acontecimentos ou até como componentes da ação narrada.

A coisa mais importante na obra de Varella é resgatar a individualidade dos detentos, fazer o leitor lembrar que há sempre mais horizonte no limite do horizonte que nossos olhos enxergam. Mais uma vez, Varella não está interessado em produzir verdades factuais, nomes reais, linha temporal cronológica mais verossímil ao leitor cético. A verdade da obra é mostrar a verdade da prisão, uma realidade que se não for contada na letra do rapper ou na literatura do médico-voluntário, a esmagadora maioria da população nunca terá a possibilidade, mesmo que mínima, de experimentar, através de sua imaginação, a condição de um mundo alheio ao seu.

A literatura no século XX e XXI tem ocupado o lugar de produção da experiência imaginária, limítrofe ao da vivência empírica. Não preciso ter lutado na Primeira Grande Guerra para chorar pelos mortos narrados por Erich Maria Remarque, nem tampouco ter me tornado um inseto monstruoso para me angustiar com horripilante condição de uma figura que não consegue se comunicar, tal como narrado por Kafka. Essas são verdades da poesia, representação da ação, de pessoas que agem e sofrem, aquilo que Aristóteles chamou de mythos e mímesis. É a verdade do mythos e da mímesis que importa. O livro de Varella – e a poética, em geral – não correspondem a um perigo social, elas não são uma mentira a serviço de uma ideologia. A literatura não comporta a verdade e a mentira, não há a possibilidade de falar nesses termos quando lidamos com a mímesis literária.

O conceito de verdade utilizado no mundo contemporâneo tem correspondência com a filosofia Iluminista do século XVIII, que entendia a verdade atrelada ao desenvolvimento racional e científico. Assim, tudo que não corresponde a esse pressuposto é mentira, uma inverdade. Porém, para os gregos antigos a verdade e mentira não equivalem a essa conceituação. Os gregos associavam o conceito de verdade ao da aletheia. Martin Heidegger[3] traduziu a palavra grega aletheia, por desvelamento, e esse desvelamento não é propriamente a verdade, tal como a entendida hoje. O desvelamento heideggariano (tal como aparece também aos gregos) é o da palavra: a verdade da palavra, é o comunicado comunicável, ou seja, o que se comunica e que se pode ser compreendido de imediato. Essa verdade da palavra é o próprio poetar (pensar), e, ainda em Heidegger e a tradição grega, a poesia (poetar) é o próprio pensar, a substância mais íntima que o ser humano possui, é aquilo que lhe distingue e o eleva.

Enquanto vocábulo uma palavra pode ter um ou vários significados, mas isso não a resume, pois elas, as palavras, são mais que elementos construtivos isolados das proposições, elas respondem por um campo de sentido que se abre na própria palavra. Uma palavra é mais que uma mera palavra/sentido. Entretanto o sentido só advém em uma conexão pragmática, para que se desempenhe a sua significação, uma palavra precisa poder ser compreendida. Quando procuramos a palavra e porventura a encontramos, vem à tona aquilo que tínhamos em vista: a comunicação. Nesse sentido, a comunicação é a aletheia, a verdade, o desvelamento. Por isso que falar que se “diz a verdade” é ambíguo, pois pensa-se na possibilidade de mentira e aquilo que se desvela não é a mentira, mas sim o comunicável. Comunicar, é não esconder, é desvelar na palavra, desvelar ao outro um mundo.

Varella é fantasioso? Talvez ele seja fantasioso para aqueles que acreditam que a realidade concreta é a que se encontra em seu próprio horizonte, aqueles que contentam e estão presos no seu próprio círculo da comunicação. A fantasia de Estação Carandiru talvez seja a crença de que detrás dos muros do presídio encerra-se a vida e a história daqueles que transgrediram as normas, encerram lá dentro a mentira. Mas é válido lembrar que mesmo as fantasias têm consigo grande verdade, se assim como Nietzsche, vemos na verdade científica e moral, componentes comuns do fanático, do intolerante[4], do fechado à comunicação do mundo alheio ao seu.

Luís Alfredo Galeni é Graduado em História pela UNESP, mestre em Literatura pela UFRGS.


[1] GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método II. Complementos e índice. Tradução de Enio Paulo Giachini. Vozes: Petrópolis, 2011. p. 57.

[2] VARELLA, Dráuzio. Estação Carandiru. Companhia das Letras: São Paulo, 2003. p. 105.

[3] Seguimos a análise feita por Hans-Georg Gadamer a respeito da tradução e comentários que Martin Heidegger fez da aletheia. GADAMER, Hans-Georg. Pensar e poetar em Heidegger e Hölderlin (1988). In: ______. Hermenêutica em retrospectiva. Trad. Marco Antônio Casanova. Petrópolis: Vozes. 2009.

[4] Na voz de Gadamer sobre Nietzsche: “Ninguém é mais intolerante do que aquele que quer comprovar que aquilo que ele diz deve ser verdade”. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método II. Complementos e índice. Trad. Enio Paulo Giachini. Vozes: Petrópolis, 2011. p. 58.

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