Kroton Educacional: expansão e sujeição de todos ao trabalho
Quarta-feira, 9 de maio de 2018

Kroton Educacional: expansão e sujeição de todos ao trabalho

Foto: Candidatos em prova do ENEM em 2017. Foto: Agência Brasil

* Alterado em 10/05 às 12:51. Ao contrário do que fazia parecer a foto escolhida pela redação, o grupo Estácio não pertence ao grupo Kroton

Os veículos de mídia deram grande destaque à compra do Grupo Somos Educação (ex-Abril Educação) pela “módica” quantia de $4,6 bilhões pela holding Saber do Grupo Kroton Educacional (que já incluía os grupos Anhanguera, Unopar, Fama, Pitágoras e Uniderp). A espetaculosidade deste negócio se justifica não apenas pelo montante de dinheiro envolvido, mas sobretudo pela exarcebação do gigantismo da Kroton Educacional e do seu avanço no campo da educação básica. Ela que já dominava 14,4% do mercado de educação privada se consolida cada vez mais como sendo o maior grupo de oferta de ensino em todos os níveis e modalidades no mundo inteiro. Somente com a anterior incorporação do Grupo Anhanguera o seu valor de mercado (R$ 12 bilhões) passou a ser o dobro do segundo grupo mundial, a chinesa New Oriental, segundo informes da revista ISTO É (edição nº 2523 de 27/04/2017). O seu perfil corporativo até o presente estava definido pela propriedade de 667 polos de Educação a Distância, 124 campi de ensino superior e mais de um milhão de matrículas no ensino superior e pós-graduação, 41 mil alunos no Pronatec, 290 mil alunos de educação básica e mais de 600 escolas parceiras em 18 estados e 83 cidades brasileiras, além de sua atuação internacional.

Com esta última incorporação a Kroton amplia a sua ação ao passar a atuar no campo da educação básica assumindo o controle dos sistemas de ensino Anglo, pH, Maxi, Sigma, Ético, Geo, Profs e Somos, dos colégios Motivo, Integrado, Chave do Saber, dos cursos de idiomas Red Ballon e English Star e das editoras Ática, Scipione, Saraiva, Atual e Benvirá.

O agigantamento da Kroton, se de um lado traduz o seu sucesso administrativo e financeiro, de outro faz acender fortes luzes vermelhas no campo educacional brasileiro e, certamente, será objeto de análise pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE – e pela Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, os órgãos que compõem o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência – SBDC. Foram tais órgãos que a impediram de comprar o Grupo Estácio, o segundo maior do Brasil, em junho do ano passado, alegando que tal fusão significaria controlar 46% do mercado de educação superior a distância e 17% do mercado presencial (Época Negócios, 2017)[1].

No campo educacional a preocupação também passa a ser grande e mais luzes vermelhas se acendem, nomeadamente pela presença de grandes fundos de investimentos estrangeiros nos seus negócios e destinos. Não obstante a responsabilidade social da Kroton, que se traduz em inúmeros projetos sociais em áreas carentes e em escolas públicas de Minas Gerais, a sua realização é a lucratividade e bons dividendos a serem distribuídos entre os seus acionistas, concentrados em cinco grandes fundos internacionais.

A composição de seu capital social abarca 1.640.526.448 ações ordinárias com direito de voto, das quais 25,5% se concentram nas mãos de grandes investidores estrangeiros. Apenas quatro pessoas físicas brasileiras detêm 5,84% das suas ações. As demais, 67,83%, estão pulverizadas nas mãos de pequenos investidores e 0,83% são ações tesouraria (Kroton, 2017)[2]. Estes investidores, como sabemos, pouco cuidam do que acontece no interior das salas de aulas físicas ou virtuais; a rentabilidade dos seus investimentos é o que lhes tira o sono. Como diria Adam Smith, eles “têm em vista apenas sua própria segurança […] visam apenas o seu próprio ganho […] somente por mão invisível promovem um objetivo que não fazia parte de suas intenções” (Smith, 1996)[3]. Daí é que os seus objetivos de curto, médio e longo prazo são próprios dos grandes capitalistas: manter os seus negócios com elevados níveis de eficiência operacional e financeira; expandir a oferta de cursos de graduação, educação básica e educação continuada; e oferecer a educação mais digital do mundo com previsível diminuição dos gastos com profissionais de educação.

A mercadoria educação que vende em boas e más safras de estudantes é transformada em fetiche por boas campanhas de marketing, mas como educação de qualidade referenciada socialmente está despida de objetivos indispensáveis a uma sociedade mais livre, democrática, igualitária e justa.

O objetivo central da empresa é oferecer uma “educação de qualidade, inclusiva e que promova uma evolução cada vez maior dos alunos dentro do mercado de trabalho” (Kroton, 2017); este objetivo passa ao largo a formação humana dos cidadãos, vizinhos, pais de família, filhos, companheiros, amigos… É clara a destinação de todos os seus estudantes a viver para o trabalho, como se não tivessem outros destinos, entre os quais a elevação espiritual. É uma concepção de formação do homo faber com competências, habilidades e empregabilidade. O único involucro dos diplomas conferidos é a possibilidade de ser trocados por alguns níqueis no mercado de trabalho, exprimir posição e angariar reconhecimento social no mercado de bens simbólicos, como diria Bourdieu (2013)[4].

A oferta de educação presencial e a distância que vem realizando, muito embora esteja se traduzido em bons indicadores de qualidade construídos quantitativamente a partir do desempenho dos seus estudantes no ENADE – Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes e no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio, ambos referenciados a competências e habilidades, pouco contribui para atenuar as diferenças de classe existentes na sociedade brasileira. O ensino referenciado a competências, em coerência com a reestruturação produtiva do final do século passado, objetiva a que o estudante, futuro cidadão e trabalhador, aprenda a ser, a viver com os outros e em equipe, a conhecer a si e ao seu ambiente e a aprender a fazer.

O estudante é concebido apenas como capital humano e conduzido a desenvolver tais competências, a melhor qualificação deste capital supõe o desenvolvimento de competências, habilidades, conhecimentos, atitudes e valores, os insumos geradores de diferenciais demandados pelo mercado de trabalho.

Os investimentos pedagógicos são orientados à conquista de melhores colocações no mundo do trabalho; de forma pragmaticista os estudantes são conduzidos por uma pedagogia cibernética a um futuro individual, social e econômico de sucesso. Os programas de ensino são organizados tecnicamente para desenvolver o capital humano, o fator H, supondo que isto permitirá um incremento adicional (marginal) à formação dos estudantes, com garantias de rendimento e retorno positivo no futuro. As competências aprender a ser, a aprender a aprender, a fazer e a conviver, por meio do Kroton Learning Sistem 2.0 devem orientar os estudantes a cuidarem dos seus jeitos de ser em termos de autonomia, discernimento, responsabilidade, comunicabilidade e raciocínio nos escritórios e nas fábricas; a resolverem problemas para o enfrentamento de situações características de trabalho em equipe; a se tornarem competentes em dadas qualificações profissionais; a conviverem com os outros respeitando-os e compreendendo-os em empreendimentos comuns.

 

Se é deveras alarmante a utilização de uma pedagogia destinada ao desenvolvimento do capital humano nas instituições de nível superior por um grupo educacional com vocações monopolística, é de arrepiar a possibilidade de sua expansão na educação básica.

 

Nossas crianças e jovens passam a ser destinadas com exclusividade ao mercado de trabalho buscando freneticamente os seus sucessos individuais em ambientes de exagerada competição. Deixam de ser educados para fruir as delicias da música, teatro, poesia e artes em geral. Esquecem que o trabalho foi feito para o homem, e não o homem para o trabalho. As delicias terrenas colocadas à disposição dos homens e mulheres pelo Criador, afinal, são para a fruição de todos eles e não apenas no sábado.

O pensamento liberal, pragmaticista e utilitarista que transversaliza o projeto educacional da Kroton, da educação infantil à superior, parte do princípio segundo o qual todos os indivíduos nascem com as mesmas predisposições naturais demarcadas pela busca racional do que é agradável e útil, exacerba o individualismo em busca do proveito próprio e tenciona as relações sociais. Ao invés de unir, desune e produz sentimentos e ações inumanas nas corridas pela consecução dos fins pessoais.

A comunidade educacional brasileira precisa reagir a tamanha expansão não somente por sua voracidade monopolística e antidemocrática, mas, sobretudo, pela prática de uma pedagogia tecnicista e cibernética que destina todos com exclusividade ao mundo do trabalho, como se não houvesse alternativas para além da acumulação e do sucesso individual. Precisa ainda reagir às concepções pedagógicas positivistas, pragmaticistas, utilitaristas e funcionalistas que desprezam a filosofia, sociologia e sobrevalorizam o conhecimento neutro e científico.

Zacarias Gama é Professor Doutor de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).


[1] REVISTA ÉPOCA. CADE rejeita compra da Estácio pela Kroton. Disponível no site: https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2017/06/cade-rejeita-compra-da-estacio-pela-kroton.html. Acesso em maio de 2018

[2] KROTON EDUCACIONAL. Demonstrações Financeiras Padronizadas. Belo Horizonte: Kroton, 2017

[3] SMITH, A. A riqueza das nações. São Paulo: Editora Nova Cultural, p. 438, 1996

[4] BOURDIEU, P. Capital simbólico e classes sociais. São Paulo: Novos Estudos, n.96, julho 2013

Quarta-feira, 9 de maio de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]