Vida longa aos portas de cadeia!
Terça-feira, 15 de maio de 2018

Vida longa aos portas de cadeia!

Foto: Gilberto Marques/A2img

Estado de exceção é o seguinte –  ele resumiu – é você ter garantias que não valem, que jamais serão ouvidas por quem deveria ouvi-las.”.

Sintetizou tudo. Quando nos cumprimentamos, ele imediatamente me saudou, dizendo que era, sim, “advogado de porta de cadeia”, advogado-raiz, de pessoas arrastadas durante a madrugada pelos distritos policiais da metrópole, aquele que vai às audiências de custódia, que pisa no cocô do cachorro e que almoça um salgadinho, na barraca da tia – sempre tem uma tia em alguma quase-esquina, vendendo salgados e suco por dois reais. Toma cerveja no bar, bem perto de sua casa, ou melhor, de sua pensão, em troca de alguns serviços ocasionais.

“Dr. Peixoto, a seu dispor.” Peixoto é nome de crônica de Nélson Rodrigues, Dr. Peixoto. Como ninguém, soube descrever o estado policialesco.

“Outro dia, socorri um irmão preso por tentativa de lesão corporal por dolo eventual.  O cara tava feliz porque, sei lá, são tão poucos os motivos para se estar feliz, mas que jogou uma cadeira do para cima e que caiu ao lado de onde estava um desses pentelho-otoridade de folga, que chamou a polícia e emparedou a alegria dele. Essa história de dolo eventual. Tudo agora é dolo eventual. Cuidado para dar uma bala a uma criança, se ela engasgar, vão dizer que tu assumiu o risco, entendeu?”

A definição de estado de exceção que eu buscava, ele deu com uma naturalidade tão franca, tão direta, somente alcançável para quem vivia a exceção na sua aspereza diária, alguém, enfim, acostumado a ver o demônio, de tantas vezes que se encontrou com ele. “Dois polícia, Tardelli: é o bastante para acabar com tua vida. Escrivão, juiz, promotor adoram ouvir isso, porque facilita tudo, entende? ”

Ô se facilita.

“Ninguém precisa mais pensar. Às três da manhã, num fim de mundo, o cara já está todo fodido. Quem vai perder tempo com ele? Eu, cara, sou eu que vou gastar tempo com ele, ouvir a sua história, ouvir ele chamar por alguém que dificilmente vai aparecer, sou eu que estou ali, eu sou o único pronto para escutar aquele desinfeliz, eu sou o único que vai acreditar nele, dali até a hora em que ele for condenado, porque, porra, ‘não conseguiu provar sua inocência ou provar que os policiais mentiram’. Os juízes adoram escrever isso, invertem tudo, ele entra culpado no processo e sai do processo moído e condenado. Sem chance.”

De repente, esse meu filosofo do Direito aplicado na rua me olhou espantado e me perguntou: “o que o amigo bacana faz aqui?”.

– Aguardo minha audiência, respondi.

– Sei, faz o seguinte, vem comigo. Tudo o que eu fizer, você faça também. Com o tempo, você vai acabar aprendendo.”

E, me olhando como se eu fosse seu sucessor, me segredou: “Estou cansado dessa vida.”

Eu o admirei profundamente: pelo seu caráter, pela sua lealdade – ao cliente lançado ao precipício da justiça criminal, à sua sinceridade, a seu idealismo praticante –, sem teorizações.

Vida longa aos portas-de-cadeia!
Deles é o Reino da Liberdade!
Roberto Tardelli é Advogado e Procurador de Justiça Aposentado. 
Terça-feira, 15 de maio de 2018
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