“Deveríamos proibir os pobres de ter trabalhos degradantes?”?: a naturalização do grotesco
Sexta-feira, 18 de maio de 2018

“Deveríamos proibir os pobres de ter trabalhos degradantes?”?: a naturalização do grotesco

Foto: Leandro Narloch em entrevista/Livraria Cultura

Tive o desprazer de ler um artigo escrito pelo jornalista da Folha de São Paulo, Leandro Narloch, cujo título é: “Deveríamos proibir os pobres de ter trabalhos degradantes?”

A tese do Leandro é simples: “como há muito desemprego, proibir os pobres de exercer trabalhos degradantes retira deles as poucas alternativas que já têm”. Nem consigo expressar a indignação que eu senti ao ler esta ideia nascida de uma fonte que não revela o mínimo de humanidade e empatia.  

Karl Marx desenvolveu – e demonstrou – a teoria do Exército Industrial de Reserva. É fácil de compreender. Para Marx, o desemprego é uma questão estrutural no capitalismo. Estratégico para que o capitalista tenha maior poder de “negociação” – entre aspas, pois o que é unilateral não é negociado. Desde quando há negociação entre uma pessoa que tem um trabalho degradante para oferecer e outro só tem a força de trabalho para ser degradada?

O “Exército Industrial de Reserva” funciona assim:

 

O capitalista precisa garantir o processo de acumulação de capitais. Para que isto ocorra é imprescindível que uma grande parte da população esteja desempregada. Por quê? Já ouviu a frase “se não quer, tem quem queira”? Pois é. Com grande parte da população desempregada é possível ter um inibidor de reivindicações e ainda garantir a força para negociar questões importantes como salário que vai pagar e horas que serão trabalhadas. E pode notar: todo dono dos meios de produção além de contribuir para a formação do “Exército Industrial de Reserva” ainda é a favor da Precarização do Trabalho, da Relativização dos Direitos. Isto é: tem uma fila enorme de desesperados por empregos à sua disposição e tem uma lei que não lhe obriga a pagar salários dignos, por exemplo.

 

Pois então! O Leandro Narloch não fez questão de tocar neste assunto. Para ele, pouco importa as razões estruturais do desemprego, o fato é que há pessoas desempregadas. E para ele pouco importa no que essas pessoas desempregadas trabalharão, pois “trabalho degradante não falta”. Em resumo: o jornalista legitimou o trabalho escravo. O que importa que seja trabalho escravo? O que importa é trabalhar. Leandro ainda teve o despudor de escrever: “Quem quer ajudar os trabalhadores pobres precisa aumentar suas alternativas de emprego, e não proibi-las”.

 

E aí perguntamos: desde quando o que degrada o ser humano é uma alternativa? Desde quando o ser humano degradado tem alternativa?

 

Imagine: em pleno século XXI um jornalista defender a degradação do ser humano! Gente, isto é sério! Olha a que ponto chegamos! O ser humano não é nada, mas a sua produção é tudo! 

Karl Marx escreveu em seus “Manuscritos Econômico-filosóficos”, p. 82, que “com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens”. Que importa que o ser humano se degrade, se estrague, se diminua, se deteriore, sofra e morra? O que importa é produzir! É mais fácil manter as pessoas no trabalho degradante do que acabar com um sistema que mantém em seu meio social a existência de trabalhos degradantes.

Mas é claro que fica mais tranquilo sugerir um disparate dessa pergunta quando se é um autor do Sudeste, homem, branco, que vive de falsas polêmicas como seu Manual Politicamente Incorreto, título que lhe rendeu projeção, mas que é rechaçado pelo debate acadêmico na história, na filosofia e em diversas outras áreas do conhecimento.

Dentre mentiras comprovadas, Narloch descreve o ex-presidente chileno perseguido pelo regime militar Salvador Allende como um eugenista, com base em sua tese de doutorado, destacando trechos de seu escrito que realmente continham palavras com esse teor, com a diferença de que eram citações no trabalho colocadas justamente para serem rebatidas. Mas como sabemos, no entanto, o privilégio de Narloch permite que ele escreva um livro baseado em mentiras com as loas dos veículos de comunicação diretamente interessados em sua desonestidade intelectual.

Agora com esse artigo sobre degradação humana, Narloch soma ao seu vasto acervo de bobagens, como a pérola “O feminismo é importante demais para ficar na mão das feministas” e “Governo [Temer] acerta ao conter denúncias de trabalho escravo”. Trata-se de um expert em banalização da vida humana! Por isso, terá vida longa nos grandes veículos de comunicação.

Wagner Francesco é bacharel em Teologia e em Direito.

Sexta-feira, 18 de maio de 2018
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