A barbárie moldada contra o símbolo libertário
Segunda-feira, 21 de maio de 2018

A barbárie moldada contra o símbolo libertário

Foto: Cena do filme Another Brick in the Wall

“Quanto mais uma sociedade se afasta da verdade, mais ela odeia aqueles que a dizem.”

– George Orwell

 

Pergunte a qualquer pessoa de seu convívio se ela já sofreu bullying ou alguma espécie de assédio. Se a resposta for negativa, desconfie. Posso me adiantar que diante dessa simples advertência, inúmeras vozes de aversão ecoarão num uníssono coro pela pecha de texto eivado de pessimismo. E olha que sequer leram ainda… Já se adiantam em um veredicto peremptório contra quem ousa afirmar que o mundo está muito mal. É proibido!

Prossigamos sob a ótica do escritor russo Fiódor Dostoiévski para quem a visão pessimista da natureza humana é muito mais sábia do que a visão otimista. Obteve inspiração e escreveu preciosos romances: “Crime e castigo” (1866), “O idiota” (1868), “Os demônios” (1871), e os “Os irmãos Karamazov” (1880).

Ademais, a história não pode, ou melhor, não deve morrer. Merece ser recontada. Não nos olvidemos da Alemanha nazista. Será que os judeus que anteciparam os horrores perpetrados em Auschwitz, maior símbolo do Holocausto, conseguindo fugir a tempo, salvando a si e as suas famílias, foram taxados à época de pessimistas? E por quem?

O espirituoso pai da literatura norte-americana, Mark Twain, há tempos alertava e nos presenteava com ensinamentos para a vida: “Nunca discuta com pessoas imbecis, elas vão te arrastar ao nível delas e ganhar de você em experiência.” E ainda: “O homem que é pessimista antes dos cinquenta anos, sabe demasiado; o que é otimista depois, não sabe o bastante.”[1]

O bullying é uma realidade, confirmando a barbárie que nos cerca, sendo revelado em comportamentos agressivos e intencionais, perpetrados verbal ou fisicamente, de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas, rotineiramente. Necessita ser inconcebível e sempre contestado. Entretanto, vem sendo recepcionado lamentavelmente como situações ordinárias, sem maiores reações ou contestações do entorno acadêmico.

Essa conduta de intimidação abominável já está disseminada. E pior, incontáveis vezes, ostensiva ou veladamente, é deflagrada nas escolas e gravemente internalizada pelos ardilosos algozes como brincadeira de mau gosto ou até mesmo com um desfecho de mal entendido.

O termo bullying origina-se da palavra inglesa bully, traduzido como valentão, brigão. Exemplos da conduta: tiranias, opressões, intimidações, humilhações, insultos, intolerâncias, conspirações, perseguições, coações, xenofobias, estigmatizações, vigilâncias cerradas, agressões, dentre outros, são incontáveis.

Em consulta à história, nos deparamos com o sistema educacional criado na Prússia[2], no século XVIII, baseado na obediência, competição, disciplina e regime autoritário. Educandários eram construídos sob o molde de uma arquitetura fria e cinza. Os prédios murados e envoltos por ostensivos gradis, imitando uma típica estrutura industrial e carcerária.

Tudo orquestrado sob a imposição de horários fixos e inflexíveis, exigência do uso de uniformes, um perfeito mecanismo de “adestramento”, talhando alunos servis, obedientes e por consequência, adultos déspotas, sádicos ou masoquistas.

Hodiernamente, coincidente ou não com o anacrônico modelo educacional, qualquer questionamento tem se tornado politicamente incorreto. E o que dizer sobre o tema psicologia das massas do fascismo? Seria mais apropriado afirmar que esse assunto é démodé? Ultrapassado?

Há éons permanecemos assistindo atônitos às opressões pelo conformismo. Basta alguém admitir uma ideia, percepção ou conclusão diversa para a instauração de uma hecatombe. Mas por quê? Porque a intolerância se mantém arraigada em nossa estrutura social.

Se um indivíduo ousa dizer em voz alta o que pensa, ousando discordar, passa a ser massacrado. A dissidência ou a indagação funciona como gatilho, legitimando ações persecutórias. E quando a heterogeneidade está aposta na cor da pele, na crença religiosa ou na opção sexual? Ou se tudo isso somado? Decerto, até mesmo o símbolo da diferença é apenado com a prolação da sentença de morte.

Não se iludam. A lei da mordaça impera. O discurso de ódio é vociferado pelos veneradores do status quo. Dessa forma, é mais seguro criticar negativamente ab initio, a ideia do eterno retorno a tempos sombrios, sob pena de se exercitar a indagação: que tempos são esses?

Trilha-se pelo erro existencial, nega-se a jornada da autoconsciência, livrando-se da autocrítica. A autoindulgência é lei. Assim fica mais cômodo censurar, eleger um inimigo e se autodenominar herói e vencedor. Mas quem é esse tal de inimigo? Explico.

 

Afastado do confronto de si mesmo, o colegial opressor trata de apontar o inimigo, batizando-o com um apelido humilhante, adjetivando-o de forma pejorativa, inventando e disseminando rumores em seu desfavor, velada ou ostensivamente. Não importa, a perversidade impera.

 

O predador cerca a vítima, vigia-a, perturba-a com a espreita serelepe ou sorrateira, variando a dinâmica da emboscada. O certo é que a presa é identificada como adversária, pelo simples fato de ser a portadora da ideia dissonante, discrepante, sendo denominada pelo bárbaro como desajustada, esquisita, diferente, nerd. A vítima pode ter um perfil passivo ou provocador, não importa, será agredida pelo carrasco.

Retumba uma voz assombrosa dentro da cabeça do tirano. Seu caráter duvidoso faz mirar o outro, prejulgado em abjeto, aberrante, insolente por se destacar na multidão. É tomado por uma fúria e aversão ao se deparar com a singularidade nata, a autenticidade reflexiva e o silêncio ameaçador. O outro não pode ser tão diferente! Ele não se enquadra! Fatidicamente, torna-se alvo.

O discente selecionado como presa é díspar, incomodando por sua singularidade nata. Pode ser discreto por seu modo ímpar, intelectual, introvertido ou criativo. Em busca de conhecimento infinito, por vezes flerta com o isolamento, perturbando por si só, a ordem posta e imposta. Revela involuntariamente uma força pungente e reflexiva ameaçadora.

A resposta reativa da sentinela ignorante é implacável: violência física, verbal, cibernética ou todas somadas. O intento patológico é a aniquilação da vítima indefesa, a qualquer custo e covardemente. Cumpre ser diminuída, criticada, ridicularizada, estraçalhada, segregada, deturpada, sufocada, adoecida, machucada, silenciada, enfim, solapada pelo militante atroz.

O grupo de soldados da opressão é demasiadamente obediente. Aceita sem questionar a todas as ordens provenientes de um destinado superior hierárquico, ainda que manifestamente ilegais. Age como os Minions. Teme o medo da solidão, almeja a corporificação no líder do ideal do ego.[3] Certos membros se travestem de ostentação, sendo admirados pelos míopes, seguidores natos! E claro, adoram o seu Malvado Favorito.

E as famílias, em sua grande maioria, reproduzem o padrão organizacional opressor. Os majestosos progenitores arbitrários oscilam entre discursos enganosos e ausência leviana da vida dos rebentos desguarnecidos de empatia.

Mas as crianças irão crescer. Os jovens avançarão em idade. Iludidos, permanecerão presos no papel de filhos, prosseguindo pela vida em lealdade cega ao sermão falacioso já assimilado, sedentos por proteção e pertencimento. Eles defenderão fascinados, qualquer autoridade que se apresente simbolicamente incorporados na figura “pater” ou “mater”. Basta a palavra dita com veemência.[4]

 

A rapaziada se convence facilmente, atendendo ao chamado dos falsos líderes truculentos, sem pestanejar. Apresentam-se cooperadores em saudação eufórica! Foram convertidos, outrora, em bajuladores, atendentes natos, moídos na engrenagem da manipulação.

 

Socorro! Será que já é tarde? A programação foi disseminada desde tenra idade. Aderiram espontaneamente à marcha imposta pelo modelo autoritário, avançando em enfurecida manada sob a batuta de uma orquestra ritmada por um metrônomo hipnótico e medonho. Seguem cegamente em conformidade com o instinto gregário, aceitando migalhas como recompensa. Bananas!

A mente sofreu uma lavagem cerebral. O corpo se amoldou rigidamente a uma indumentária de couraça[5] para escapar da verdade dilacerante, coberto por uma armadura enferrujada na ilusão de uma proteção contra um mal inventado.

Estamos diante da repetição da catástrofe, denominada homogeneização de indivíduos. A ordem do dia é a eliminação da diversidade. Aquilo que não é trazido à consciência e elaborado habilmente, tende a se repetir de maneira inevitável.[6]

Aos nascidos contaminados pela força libertária cabe incorporar o exemplo coerente do ser e do fazer.[7] Ousando discordar de um sistema que vigora decrépito, já compreenderam a necessidade de se promover uma sociedade mais receptiva, onde as diferenças são abraçadas e a individualidade é celebrada. Há muito se postam a serviço ao outro, honrando a própria existência e a dos demais que ainda estão por vir. São antíteses dos pomposos ensimesmados.

É tempo. É tempo de se opor ao sistema vigente, oxigenando-o com a empatia e a alteridade, trilhando pela jornada, ignotos, despidos de ego, trajando a simplória capa da invisibilidade pelo bem de uma humanidade verdadeiramente humanizada. E mesmo inseridos nesse modelo de mundo invertido, tenhamos a certeza de que um, somos nós.[8]

Raquel Vale Rodrigues é Defensora Pública do Estado de Minas Gerais (Defensoria Especializada da Infância e Juventude – Ato Infracional); pós-graduada “lato sensu” em Direito Processual: Grandes Transformações pela UNAMA; autora do artigo Eutanásia publicado no ICP – Boletim de Instituto de Ciências Penais em abril de 2005; autora do livro psicanalítico sobre o desejo da criança, Tito, Totiti, Titoti, Belo Horizonte: Asa de Papel, 2012.


[1] TWAIN, Mark. Disponível em: < https://www.pensador.com/autor/mark_twain/>. Acesso em 13/05/2018.

[2] La Educación Prohibida. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=OTerSwwxR9Y>. Acesso em 14/05/2018.

[3] MARQUES, Oswaldo Henrique Duek. Contribuições para a compreensão do nazismo. A psicanálise e Erich Fromm. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.

[4] GUTMAN, Laura. O que aconteceu na nossa infância e o que fizemos com isso. Rio de Janeiro: Best Seller, 2017.

[5] REICH. Wilhelm Reich. Análise do caráter. São Paulo: Martins, 1998. A couraça de caráter é denominada por Reich como o resultado de enrijecimento muscular de partes do corpo. 

[6] JUNG, C. G. Aion. Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2011.

[7] GOSWAMI, Amit. O Ativista Quântico. Princípios da física quântica para transformar o mundo e a nós mesmos. São Paulo: Goya, 2015.

[8] BLAVATSKY, Helena Petrovna. A voz do silêncio. São Paulo: Pensamento, 2010.  “(… )Se, passando pela sala da sabedoria, queres chegar ao vale da felicidade, fecha, discípulo, os teus sentidos à grande e cruel heresia da separação, que te afasta dos outros.”

Segunda-feira, 21 de maio de 2018
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