Lado A e o Lado B, atravessando o beco cego e mediando conflitos
Terça-feira, 22 de maio de 2018

Lado A e o Lado B, atravessando o beco cego e mediando conflitos

Foto: Mídia Ninja.

Por Eduardo Bustamante

 

Ao acordar e acessar as notícias populares nas redes, tão quentes e combustíveis quanto as do sangrento e lendário periódico dos anos 90, percebo o quanto estamos vivendo em uma fase de extremos, de intolerância, agressividade e desrespeito.

O quanto este comportamento medieval polarizado nos levará a uma condição humana contemporânea sustentável? É real este cenário onde quem pensa diferente de você torna-se automaticamente seu inimigo, mesmo sendo amigo ou familiar?

Sonolento, coço os olhos, tomo um copo d’água, procuro o som dos pássaros, olho a hora, a data e olho ao redor para compreender se esta é mesma a realidade. Após este crosscheck, vendo que é o momento que precisa ser vivido com coragem e ânimo, coloco uma música boa para encarar e foco nas ações práticas que fomentem soluções pacíficas, coletivas e propositivas.

A expectativa nas primeiras agendas sobre a globalização e democratização dos meios era que com acesso a informação, a sociedade em geral ascendesse e desenvolvesse mais consciência social e global. Paulo Freire muito apresentou em seus pensamentos que relacionava comunicação e educação que este acesso e incursão favoreceria realidades mais dialógicas. Entretanto o que assistimos cotidianamente é o contrassenso disso, onde cada indivíduo está preocupado com o seu quadrado, para ser mais preciso e atual com o seu pixel.

 

Parece que o bacana é viver assim, radicalizando para o lado A ou para o lado B desta fita que vem rebobinando o comportamento humano e com isto congelando ou oxidando conquistas históricas do nosso processo social e humano.

 

Independente de qual dos lados esteja a cabeça desta cobra cega, a agressividade e a violência das ideias e gestos estão sendo combatidas com o mesmo antidoto, fórmula e sempre no mesmo tom, o outro sempre está errado!

Vejo (porque já estou quase sem audição neste cenário) uma gritaria tão alta e permanente que torna bucólico o rito típico das feiras livres e até do antigo pregão da bolsa de valores de São Paulo. Todo mundo gritando cada um em seu devido lado, porém cada um por sua causa própria, individual, porque nem as categorias de cada um dos lados tem encontrado mais o senso coletivo e a capacidade de dialogar lembrando agora de Mário de Andrade que afirmou outrora: “as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”.

Hoje quando acesso redes sociais sinto-me sempre entre disputas laterais, com emoções tão à flor da pele quanto em Parintins, numa disputa entre Garantido e Caprichoso ou em Itaquera, durante um Corinthians x Palmeiras, sem a beleza destes espetáculos culturais. Mas na verdade é uma disputa entre lado de cá ou de lá, de quem está certo e de quem está errado, esquecendo que independente da diversidade do pensar e crer, nosso povo precisa de diálogo, e com passos fortes caminhar é para frente, porque como já dizia vovó “quem anda de banda é caranguejo”.

Eu mesmo já ateei muito fogo e gritei bastante, mobilizei, paralisei, rebelei, mas num momento onde a maioria estava calada e conformada com seu status quo. Onde não havia celulares com câmeras frontais e redes sociais para autopromoção e alimento do ego. Já fui muito duro deixando de lado a ternura e entendo que este é o momento de exaltá-la, buscando equilíbrio e resolução.

Hoje tenho tentado contribuir para uma melhor qualidade de vida para nosso povo com leveza, menos conflito e mais proposições. Já existem conflitos demais a serem administrados para que eu seja promotor de mais um, simplesmente para nutrir minha carência, frustração pessoal ou necessidade narcísica de reconhecimento público por uma opinião ou ato.

Acredito ser coerente praticarmos mais os ecos de nossos gritos, para que estes sons se tornem música para aqueles que estão com seus ouvidos cansados além de já acumularem o cansaço da sobrevivência à escassez e da resistência às agressões do sistema. E caso nasça músicas dessas atitudes ao final, não precisamos subir instantaneamente esta trilha sonora no Spotfy ou no Deezer, certo? Eu não gostaria que aqueles que agiram para me salvar no passado, tivessem a iniciativa de divulgar evidências de seu trabalho social expondo minha vulnerabilidade e automaticamente sua capacidade eclesiástica de salvar o mundo. Quando quero contar o que fizeram por mim eu divulgo, do meu jeito, com a minha autonomia e prerrogativa, sendo parte.

Talvez o desejo íntimo do Lado A e o Lado B seja um encontro, estar junto com o oposto e por isso tratam isto como profano. E mesmo que esta hipótese seja só ironia, acredito que os responsáveis por esta intersecção, que irá gerar mais equilíbrio e menos conflitos, sejam aqueles com a capacidade de dialogar com todos os lados, ouvir mais e falar menos, pois como aprendi com um cacique guarani, temos uma boca e dois ouvidos justamente para isso.

Eduardo Bustamante é Arquiteto e Urbanista, especialista em mediação de conflitos e diálogo socioinstitucional. Responsável por ações em educação, cidadania, arte e cultura em prisões e comunidades marginalizadas.

Terça-feira, 22 de maio de 2018
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