Marielle Franco: presente num mar de estrelas
Quarta-feira, 30 de maio de 2018

Marielle Franco: presente num mar de estrelas

Foto: Mídia Ninja

Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
(Mãos Dadas – Carlos Drummond de Andrade)

 

Há pouco mais de dois meses, os estampidos das balas que mataram a vereadora Marielle Franco ressoaram nos ouvidos de cada uma de nós. De certa forma, escancarar tão diretamente essa violência tirou um pouco da nossa vida, da nossa esperança e da nossa força.

Foi dura a caminhada pelo centro do Rio de Janeiro – cidade partida – até a Cinelândia, onde me vi no Bar Amarelinho, lugar de tanta celebração, cercada por cinco mulheres que não conhecia, num silêncio de não ter o que falar. As lágrimas nos olhos de todas nós, naquele momento em que nem a raiva chegava, eram lágrimas de morte, de fim de jogo. Uma sensação de que estava tudo terminado. Éramos, uma vez mais, irmãs na dor.

Fazia calor naquela quinta feira. As pessoas vinham vindo, se abraçavam, choravam o seu abandono, a sua solidão, mas principalmente a falta de esperança que regia aquele espetáculo triste de tudo.

Até que chegou o corpo e, sob aplausos de toda a gente que estava por lá, Marielle Franco foi conduzida para a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, onde ingressou pelo voto popular e saiu pela truculência e violência de quem não tolera a democracia, naquela tarde de 15 de março de 2018.

Em princípio nós ficamos paralisadas, sem ação, sem saída. Apesar das manifestações, dos gritos e palavras de ordem, da raiva que chegou finalmente, sempre permeada pelo sentimento de injustiça que acompanha as mulheres em tantos momentos da nossa existência, e dos porquês nunca respondidos de forma razoável ou satisfatória, uma parte de nós se calou. Achando-se morta e desesperançada. Despedaçadas estávamos.

Mas como é característico das mulheres, que tantas vezes achamos que o jogo está perdido, há sempre uma manhã seguinte, onde lá bem fundo em nós, brota uma força e uma vontade de prosseguir, de ir seguindo, porque devemos isso às que vieram antes de nós, às que estão conosco e a todas que ainda virão.

Tempo passando e nas alvoradas dos dias que se seguiram vimos chegar a menina Bia[1], e consigo a afirmação da força de duas mulheres que decidiram que o amor pode mudar o estado de coisas e a concepção de família; presenciamos Leleo[2] seguir sorrindo e vencendo a doença, conduzida e amparada pelas mãos incansáveis da sua mãe, ambas enxergando a vida que se descortina após cada curva fechada. E assim foram os dias, um depois do outro, iguais e diferentes. 

Então, alguma coisa em nós foi tímida e sorrateiramente se regenerando, se reconstruindo, como as estrelas-do-mar que quando são danificadas pelo ataque de outros animais ou quando abandonam um de seus braços ao fugir de um predador, recobrem a área danificada e as células-tronco reconstroem os braços faltantes.

Nessa reconstrução de braços perdidos pelo ataque que sofremos, vimos juízas denunciando a organização do Congresso da Associação dos Magistrados Brasileiros pela sua programação na qual dos 28 palestrantes, apenas duas eram mulheres: a Procuradora Geral da República e uma senadora. Nenhuma juíza. Em uma carreira na qual o número de mulheres é próximo de 50%, essa forma escancarada de nos manter fora dos lugares de destaque e de fala, foi repelida e resultou na desfiliação de mais de 30 magistradas daquela Associação[3]. A atitude das juízas ganhou destaque e forçou os organizadores a apresentar justificativas, não convincentes, pela ausência de mulheres nos lugares de fala do congresso. De toda sorte, conseguiram ser ouvidas ao denunciar e, ali, os braços das estrelas do mar cresceram um pouco mais. Estávamos nos regenerando, recobrando enfim nossas forças, após o impacto do assassinato de Marielle Franco.

E veio “O Processo” filme de Maria Augusta Ramos, que depois de premiada internacionalmente e diante de silêncio sepulcral da grande mídia brasileira, vem enchendo as salas de exibição dos cinemas brasileiros. Ali vimos, através das lentes da cineasta, a deposição da Presidenta eleita, vimos o teatro encenado do golpe, numa casa de homens brancos, onde uma mulher ousou discordar de suas regras.

O filme é duro, seco, dói e envergonha. Entristece. É um processo cuja sentença estava pronta antes de ele ser instaurado. Um processo onde a ré nunca abandonou seu espírito de luta, não titubeou e não esmoreceu apesar de toda a força bruta contra ela. Dilma Roussef e Maria Augusta Ramos fizeram com que nossos braços de estrela-do-mar completassem seu processo de regeneração. Estávamos prontas novamente.

A coluna Sororidade em Pauta está prestes a completar dois anos e pretendemos manter esse espaço livre de réguas e de regras, falando sobre temas, sobre pessoas, dando voz às mulheres de verdade, muitas ocultas no dia a dia, seja porque não lhes dão o destaque, seja porque nem elas mesmas se veem como alguém interessante de se ver ou falar.

Quanto às estrelas-do-mar há uma terceira hipótese em que elas se regeneram: quando elas se partem, propositadamente, gerando um novo indivíduo, a partir de cada pedaço do seu disco. Assim elas se multiplicam, se reproduzem sem a necessidade de um par, autonomamente: de uma faz-se duas, de duas faz-se três. Essa imagem me trás de volta a lembrança de Marielle Franco e fico tentando imaginar que levaremos todas nós uma parte dessa jovem corajosa, como estrelas formadas a partir de seus pedaços, sempre prontas a multiplicar a voz que foi calada covardemente. Esse é o espírito da sororidade: nos partirmos para sermos mais.

O escritor Mia Couto, ao receber o prêmio Mario Antonio, da Fundação CalousteGulbenkian, em junho de 2001, pelo livro “O último voo do Flamingo” proferiu as seguintes palavras:

“O último voo do flamingo fala de uma perversa fabricação de ausência – a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos. O avanço desses comedores de nações obriga-nos a nós, escritores, a um crescente empenho moral. Contra a indecência dos que enriquecem à custa de tudo e de todos, contra os que têm as mãos manchadas de sangue, contra a mentira, o crime e o medo, contra tudo isso se deve erguer a palavra dos escritores.”

Contra tudo isso se deve erguer a palavra das juízas. Contra tudo isso se deve erguer a força das mulheres.

Juliana Ribeiro Castello Branco é juíza do trabalho da 53ª Vara do Rio de Janeiro.


[1]Bia, nossa BiAtômica, é Maria Beatriz, filha de duas mamães juízas do trabalho do TRT-6, uma delas, Renata Nóbrega, é colunista da Sororidade em Pauta. As mães tiveram que recorrer administrativamente ao Pleno do TRT para obterem deferimento de licença maternidade para ambas. Foram vitoriosas. Bia também.

[2]Leleo (Leonor Fernandes) é filha da Juíza Uelfa Fernandes do TJ/RN, tem 6 anos, foi diagnosticada com leucemia em janeiro de 2018 e, dia a dia, vem vencendo a doença. Sairão vitoriosas.

[3]http://blogs.correiobraziliense.com.br/servidor/magistradas-pedem-desfiliacao-da-amb-por-falta-de-representatividade-em-congresso/

Quarta-feira, 30 de maio de 2018
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