Alunos da PUC-Rio jogam casca de banana e chamam estudante negra de “macaca”
Segunda-feira, 4 de junho de 2018

Alunos da PUC-Rio jogam casca de banana e chamam estudante negra de “macaca”

Foto: Jogos Estaduais/Youtube

Por Daniel Caseiro

 

Os Jogos Jurídicos Estaduais do Rio de Janeiro de 2018, ocorrido neste feriado de Corpus Christi, foram palco de três episódios de racismo. Segundo estudantes que participaram do evento, alunos negros e alunas negras da UERJ, da UFF e da UCP foram ofendidos em três partidas esportivas por integrantes da torcida da PUC-Rio.

O primeiro episódio ocorreu no dia 02/06, durante uma partida de futebol masculino, quando um estudante da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) jogou uma casca de banana para provocar um atleta da Universidade Católica de Petrópolis (UCP).

Em outros dois episódios, ocorridos no dia 03/06, alunos da PUC-Rio saíram do ginásio imitando macacos para provocar os atletas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) após um jogo de basquete masculino; e, durante a final de handebol feminino contra a Universidade Federal Fluminense (UFF), uma aluna da torcida da PUC-Rio chamou uma estudante do time da UFF de “macaca”, segundo reportagem de O Globo. A partida, que ficou paralisada por alguns minutos por causa do episódio de racismo, terminou com a vitória da UFF.

Pelo primeiro episódio, a delegação da PUC-Rio foi punida pela Liga Jurídica Estadual, que organiza o evento, com uma multa de R$500,00 (quinhentos reais) e um jogo sem torcida. Mas, com a reincidência, os coletivos Jogos Sem Racismo, Patrice Lumumba (UERJ), Caó (UFF) e Cláudia Silva Ferreira (UFRJ) pediram a organizadora do evento que os Jogos Jurídicos 2018 não tenham um campeão geral, que a PUC seja suspensa dos Jogos Jurídicos por um ano, ficando proibida de participar da edição dos Jogos de 2019, e que a Atlética da PUC-Rio e a Liga se comprometam a realizar campanhas antirracistas para as torcidas. 

O diretor da Faculdade de Direito da UERJ, professor Ricardo Lodi Ribeiro, se pronunciou sobre o ocorrido em seu perfil no facebook:

“A Faculdade de Direito da UERJ se solidariza com as suas alunas e os seus alunos que foram vítimas de atos de racismo durante os Jogos Jurídicos realizados em Petrópolis.

No Estado Democrático de Direito não são mais admissíveis atos como estes, em especial vindo de estudantes de Direito, o que exige, considerando ser a prática criminosa, que sejam amplamente investigados e, assegurado o contraditório e a ampla defesa, sejam os culpados exemplarmente punidos para que tais condutas abomináveis não voltem mais a acontecer no ambiente universitário, espaço que deve ser pautado pela pluralidade e tolerância.”

 

Após intensa repercursão nas redes sociais, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro criou uma comissão nesta segunda-feira, 4, para apurar os atos de racismo cometidos por seus alunos.  

“Após tomar conhecimento, pelas redes sociais, de informações sobre atos de racismo possivelmente ocorridos durante os jogos jurídicos, a Vice-Reitoria para Assuntos Comunitários e o Departamento de Direito da PUC-Rio decidiram constituir Comissão Disciplinar para averiguação das informações e, caso confirmada a veracidade, a apuração e individualização das responsabilidades de membros do corpo discente”, afirmaram em nota o vice-reitor comunitário Augusto Sampaio e o diretor do Departamento de Direito Francisco de Guimaraens.

Três professores irão compor a comissão disciplinar, Breno Melaragno, professor de Direito Penal, Job Gomes, professor de Direito do Trabalho e de Direito Desportivo, e Thula Pires, coordenadora do NIREMA (Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente) e professora de Direito Constitucional. No mesmo comunicado, a universidade repudiou o ocorrido: “Preservaremos o esforço de contínua melhoria das políticas de promoção da diversidade e da igualdade racial em nossa Universidade”.

Realizados anualmente no feriado de Corpus Christi, os Jogos Jurídicos Estaduais – RJ são o maior evento esportivo universitário dos cursos cariocas de direito. Nele, as principais faculdades de Direito do Rio disputam diversas modalidades, cada ano em uma cidade do interior.  Este ano, as competições ocorreram em Petrópolis, na região Serrana.

Casos semelhantes

Não é a primeira vez que casos como esse acontecem. Conforme lembrou reportagem do G1, em 2015, uma aluna do curso de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) foi vítima de racismo durante o INTERFACIP (jogos esportivos da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal/Universidade Federal de Uberlândia). Na ocasião, a torcida adversária proferiu diversas frases de teor racista dirigidas a ela, ofendendo-a especialmente em relação a seu cabelo, com frases como “cabelo pixaim” e “tem gente que está precisando de shampoo”.

Também em 2015, durante os 13º JUMED (Jogos Universitários de Medicina), alunas da Uniara (Centro Universitário de Araraquara) foram acusadas de racismo ao postarem fotos com blackface e hashtags como “#pestenegra”.

Tais praticas criminosas não são incomuns apenas nos eventos esportivos. Pichações em banheiros e paredes com teor racista são usuais, como a que foi encontrada na Unicamp em 2016 com os dizeres “Aqui não é senzala! Tirem os pretos da Unicamp já!”.

Apelidos racistas também são frequentes. A UERJ, primeira universidade do país a adotar o sistema de cotas raciais foi repetidamente chamada por outras faculdades de “Congo”.

Segunda-feira, 4 de junho de 2018
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