Mano Brown e Bob Dylan
Segunda-feira, 4 de junho de 2018

Mano Brown e Bob Dylan

Foto: Mídia Ninja

Sou de um grupo geracional que aprendeu a ler o mundo a partir do Rap, em especial, dos Racionais MC’s, de modo que a notícia de que a Unicamp incluiu um dos álbuns deste grupo como obra literária para o vestibular é um reconhecimento do gênero Rap, e do Racionais, que faz com que eu também me sinta reconhecido. Minha visão de mundo é agora reconhecidamente forjada na Literatura.

A partir deles eu pude interpretar minha realidade, que não era a periferia de São Paulo, mas uma pequena cidade do noroeste paulista. E mesmo com esta ampla distância, a força daquelas ideias me permitiram ler o espaço, as pessoas, as instituições, os poderes, os grupos, enfim, eu pude ver o ~sistema~, com todas as ranhuras que esta palavra pode conter. Vi cores e valores, a polícia e o crime. Eu vi o mundo e vi a mim mesmo, resenhado ou às minúcias, rap atrás de rap.

Mas só depois de algum tempo eu pude entender realmente, e saber o quão profundas eram as raízes daquilo tudo, que não era só Rap. Era Black Music, era Samba, era Funk, era Movimento Negro Brasileiro, era Cultura e Política. E agora é também Literatura.

Foi a primeira oportunidade a partir da qual o mundo me foi apresentado em suas estruturas, seus conflitos,  os atores, a formação de classes, a divisão de raças. As emoções individuais e coletivas. A profundidade das canções abria caminho para eu entender o mundo todo. Foi a assim com este garoto do interior e foi assim também com indígenas do cerrado, caboclos da Amazônia. E por meio do alcance desta compreensão é que o mundo fez sentido e, com efeito, nossas vidas ganharam sentido.

Se é verdade que para cantar o mundo é preciso cantar sua aldeia, Racionais seguiram o dito à risca, e começaram cantando a si mesmo. Logo nos primeiros discos havia uma busca por si mesmo por meio da afirmação de uma identidade de juventude negra que passava a ter voz. Aos poucos, sem perder o ponto de vista, todo o mundo ia se delineando nas crônicas, seus problemas cotidianos, questões estruturais, personagens reais outros nem tanto. Junto com eles, estou certo de que vivemos o mesmo processos descoberta, a si, os outros, as coisas e até mesmo o fato de não mais cantarolarmos as letras machistas.

É genialidade do conteúdo e preciosidade nas formas. As picapes permitem um sem números de referências e eles não negaram nenhuma. Tim Maia, Jorge Ben, o blues, o candomblé e o cristianismo. Em tons profético, confessional e professoral, todos seguimos as rimas e batidas. Em torno das composições se misturava afetos e entendimentos comuns.

Quando não cabia mais nos limites das gravadoras e dos palcos, isto tudo passou a converter -se em saraus, rinhas, Slams. Em teses acadêmicas de acadêmicos periféricos, em prosas de uma nova Literatura preta, periférica, (ou) marginal. De repente, era tudo isso, misturado.Foi o poeta Sérgio Vaz quem disse, num bar, que todos gostam de poesia, e para provar recitou Negro Drama; quem estava sentado nas cadeiras ou de pé no balcão, começou a recitar junto. Que mais se espera de Literatura?

Acho que este acontecimento veio em boa hora. Quando Conceição Evaristo pleiteia uma cadeira da ABL, quando o ativismo negro incomoda umas castas brancas acadêmicas que convivem muito bem com o racismo e… pouco tempo depois de Bob Dylan – conhecido como cantor e letrista – ter ganhado um Nobel de Literatura. Se eles têm Dylan, nós temos os pretos mais perigosos do Brasil: Mano Brown, KL Jay, Edi Rock, Ice Blue.

Paulo Ramos é cientista social, mestre em sociologia (UFSCar) e doutorando Sociologia (USP). Seus temas são Relações raciais, Violência e Movimentos sociais.

Segunda-feira, 4 de junho de 2018
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