Sim, os caminhoneiros são reacionários. Mas isso não é motivo para a esquerda se afastar deles
Segunda-feira, 4 de junho de 2018

Sim, os caminhoneiros são reacionários. Mas isso não é motivo para a esquerda se afastar deles

Foto: EBC

Em junho de 1844 explodia o levante dos tecelões da Silésia, província oriental da Prússia, hoje Alemanha. Em agosto, Karl Marx publica o artigo “Glosas críticas ao artigo ‘O rei da Prússia e a reforma social’” em crítica a Arnold Ruge, que escrevera que a revolta estaria condenada ao fracasso em razão da despolitização dos tecelões.

No artigo, Marx procura explicar que insurreições sociais não devem ser menosprezadas em virtude da falta de apropriação de teorias revolucionárias. Explica também que levantes como o dos tecelões seriam a prova da disposição do operariado alemão para a revolução mesmo sem a influência do “relâmpago do pensamento” da filosofia alemã.     

O proletariado, assim, é descoberto por Marx como elemento ativo, e não passivo, de processos revolucionários. O despertar da consciência de classe e a desvelamento de seu potencial emancipatório, embora imprescindíveis, não necessariamente devem preceder as ações da classe trabalhadora, podendo surgir posteriormente, das fagulhas das ações políticas desencadeadas das condições de exploração a que é submetida.

Pensador da luta, e não da lei, Marx não é um filósofo da história, mas um pensador estratégico da ação política. Em carta escrita a Wilhelm Bracke em 1875, embora furioso com as cessões feitas no programa de unificação da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães e do Partido Social-Democrático dos Trabalhadores, chega a afirmar que “cada passo do movimento real é mais importante que uma dúzia de programas”.

A lição se aplica como uma luva à atual paralisação dos caminhoneiros.

Parte da esquerda reluta em se aproximar do movimento em razão de seu aparente perfil conservador. Em visita a uma das paralisações, por exemplo, constatou-se que, vestidos de verde e amarelo, os caminhoneiros cantavam com frequência o hino nacional, exigiam uma redução geral de impostos e clamavam pela intervenção militar[1]. Com efeito, é notório que o pacote de valores ritualísticos por eles apresentado se aproxima muito mais dos manifestantes que saíram às ruas de verde e amarelo pedindo a saída de Dilma Rousseff que daqueles que se entrincheiraram contra o impeachment – o qual, é bom lembrar, contou com a simpatia dos caminhoneiros.

No livro A Radiografia do Golpe, Jessé Souza explica como as manifestações de junho de 2013 foram colonizadas pela direita ao ponto de não apenas terem sido desvirtuadas de seus fins iniciais – a discussão acerca do modelo de transporte público na esteira do aumento das tarifas –, mas também instrumentalizadas para consolidar o caldo reacionário que alimentou as manifestações favoráveis ao golpe.

Os caminhoneiros, cuja maioria é composta por trabalhadores autônomos só no nome[2], costumam trabalhar sob condições de enorme insalubridade, precarização e incerteza. Reféns das flutuações do mercado, submetem-se a extensas jornadas de trabalho a base de altas doses de cafeína. Além do mais, o caráter autônomo e a própria natureza itinerante da profissão dificultam sua capacidade de organização, de maneira que não deveria surpreender o fato de terem posturas conservadoras e despolitizadas.

Sim, caminhoneiros estão há tempos atordoados e não conseguem se fazer ouvir. Não são grandes teóricos políticos e não têm tempo para ler Lênin, Trotski ou Gramsci. Os fascistas adoram gente atordoada. É sua especialidade manipular fobias para seu projeto de poder totalitário”, conclui Eugênio Aragão em artigo recente. O ex-ministro também aponta a incapacidade de uma parte da esquerda em avaliar as condições concretas da luta política e traçar estratégias de disputa, preferindo, ao invés disso, tachar os caminhoneiros de bolsonaristas e fim de papo[3].

A política é a arte do presente e do contratempo, da conjuntura e do momento propício, segundo Walter Benjamin. Menosprezar a mobilização dos caminhoneiros em razão de suas posições conservadoras é ignorar que compõem a mesma classe trabalhadora que mais vem sofrendo com o processo de desconstrução do mínimo de direitos que conquistamos desde a redemocratização. Fazer vista grossa a essa circunstância é antecipar uma quantidade ainda maior de derrotas diante do projeto que conseguiu implantar medidas nefastas como a reforma trabalhista e a emenda constitucional nº 95.

Em sua crítica à filosofia do direito de Hegel, Marx realça a altivez do proletariado na filosofia, que procura nele suas “armas materiais”, assim como ele busca na filosofia suas “armas espirituais”. A cabeça e as pernas, conclui o filósofo francês Daniel Bensaïd. Promover o encontro entre elas é um dever que a esquerda não pode se dar ao luxo de abandonar. Ainda mais agora.

Gustavo Freire Barbosa é Advogado, mestre em Direito Constitucional e garantias de direitos pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.


[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/28/politica/1527542536_679526.html

[2] https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2018/05/31/autonomo-so-no-nome-caminhoneiro-e-explorado-por-empresas-de-transporte/

[3] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-paredismo-rodoviario-a-politica-brasileira-mais-perdida-que-peru-em-vespera-de-natal-por-eugenio-aragao/

Segunda-feira, 4 de junho de 2018
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