Anistia Internacional lança clipe manifesto com Chico Buarque, Ludmilla, Rincon Sapiência e mais 30 artistas
Quarta-feira, 6 de junho de 2018

Anistia Internacional lança clipe manifesto com Chico Buarque, Ludmilla, Rincon Sapiência e mais 30 artistas

Foto: Divulgação

Por Daniel Caseiro

 

Para comemorar seu aniversário de 57 anos e o aniversário de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Anistia Internacional lançou, no último dia 28, o videoclipe Manifestação, que trata de diversas violações de direitos humanos recorrentes no Brasil e conta com a participação de diversos artistas nacionais de peso como Chico Buarque, Ludmilla, Rincon Sapiência, Fernanda Montenegro, Criolo, Chico César entre outros. 

O autor da letra, Carlos Rennó, conta que “através das 32 vozes que a gravaram, a canção busca dar voz aos silenciados, invisibilizados, excluídos, discriminados, às vítimas de preconceito, racismo e intolerância, aos violentados brasileiros citados à exaustão em “Manifestação”.

Para Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional: “O lançamento deste clipe é um marco para lembrarmos que, mesmo após 70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos, a mobilização para que nossos direitos sejam garantidos continua sendo crucial. A letra da música descreve graves violações de direitos humanos, como a violência que sofrem as populações negra, indígena, quilombola, LGBTI, bem como refugiados, mulheres e pessoas que vivem em favelas e periferias. No país que tem o maior número de pessoas assassinadas por ano, a cancão-protesto transmite a força e ânimo que tanto precisamos para continuar lutando”.

 

Sob o signo da revolta, versos sociais e solidários

… Por todo jovem negro que é caçado
Pela polícia na periferia;
Por todo pobre criminalizado
Só por ser pobre, por pobrefobia;
Por todo povo índio que é expulso
Da sua terra por um ruralista;
Pela mulher que é vítima do impulso
Covarde e violento de um machista

Denúncia necessária, a canção é, como o nome sugere, um manifesto contra as inúmeras formas de opressão e exclusão que o Brasil enfrenta de forma crônica e endêmica. Cam a participação de artistas de diversas gerações e, dentre eles, músicos dos mais variados estilos musicais, do MPB ao RAP, a gravação aborda violações de direitos humanos como homicídios, feminicídios, machismo,  racismo, LGBTfobia, falta de moradia e  genocídio das populações negras e indígenas. 

Impelidos pelos ventos
Dos acontecimentos,
Louvamos os mais diversos
Movimentos libertários
Numa cascata de versos
Sociais e solidários
Duma canção de protesto
Qual “Canção de Redenção”,
Uma canção-manifesto,
Canção “Manifestação”…

Mas a letra não se resume a uma lista sanguinolenta de perversidades cometidas contra as populações marginalizadas. É uma conclamação à ação, à mobilização social, que parte de uma premissa clara (Eis aqui a face escrota de um modelo que se esgota”) mirando um horizonte com esperança: uma cidade includente, uma nação cidadã, um mundo mais justo.

 

Aniversariantes

A música e o clipe são parte da campanha de celebração dos 57 anos da Anistia Internacional. Presente em mais de 150 países, a Anistia é um movimento global com mais de 7 milhões de apoiadores, que realiza ações e campanhas de proteção de direitos humanos internacionalmente reconhecidos em documentos, leis e tratados, para todos, independentemente do gênero, raça, nacionalidade, religião, orientação sexual ou qualquer outra distinção.

O mais importante dentre esses documentos internacionais é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que comemora seu 70º aniversário. Adotada pela ONU em 1948, a Declaração delineia os direitos mais básicos que devem ser assegurados para todo e qualquer indivíduo para se evitar situações de barbárie como a vivida pela Europa na Segunda Guerra Mundial. “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade” é o que determina seu primeiro artigo (você pode conferir o texto completo da declaração aqui: http://www.onu.org.br/img/2014/09/DUDH.pdf)

Assista ao videoclipe e confira a letra da música:

 

 

Manifestação

Letra de Carlos Rennó

Música de Russo Passapusso, Rincon Sapiência e Xuxa Levy

 

Aqui ´stamos na avenida,
Pelas ruas, pela vida,
Marchando com o cortejo
Que flui horizontalmente,
Manifestando o desejo
De uma cidade includente
E uma nação cidadã tra-
Duzido numa canção,
Numa sentença, num mantra,
Num grito ou numa oração…

… Por todo jovem negro que é caçado
Pela polícia na periferia;
Por todo pobre criminalizado
Só por ser pobre, por pobrefobia;
Por todo povo índio que é expulso
Da sua terra por um ruralista;
Pela mulher que é vítima do impulso
Covarde e violento de um machista;

Por todo irmão do Senegal, de Angola
E lá do Congo aqui refugiado;
Pelo menor de idade sem escola,
A se formar no crime condenado;
Por todo professor da rede pública
Mal-pago e maltratado pelo Estado;
Pelo mendigo roto em cada súplica;
Por todo casal gay discriminado.

E proclamamos que não
Se exclua ninguém senão
A exclusão.

Aqui ´stamos nós de volta,
Sob o signo da revolta,
Por uma vida mais digna
E por um mundo mais justo,
Com quem já não se resigna
E se opõe sem nenhum susto
A uma classe dominante
Hostil à população,
Numa ação dignificante
Que nasce da indignação…

… Por todo homem algemado ao poste,
Tal qual seu ancestral posto no tronco;
E o jovem que protesta até que o prostre
O tiro besta de um PM bronco;
Por todo morador de rua, sem saída,
Tratado como lixo sob a ponte;
Por toda a vida que foi destruída
Em Mariana ou no Xingu, por Belo Monte;

Por toda vítima de cada enchente,
De cada seca dura e duradoura;
Por todo escravo ou seu equivalente;
Pela criança que labuta na lavoura;
Por todo pai ou mãe de santo atacada
Por quem exclui quem crê num outro deus;
Por toda mãe guerreira, abandonada,
Que cria sem o pai os filhos seus.

E proclamamos que não se exclua ninguém
Senão a Exclusão.

Eis aqui a face escrota
De um modelo que se esgota.
Policiais não defendem;
Políticos não contentam;
Uns nos agridem ou prendem;
Outros não nos representam.
E aquele que não é títere,
E é rebelde coração,
Vai no Face, no zapp e Twitter e
Combina um ato ou ação…

… Por todo defensor da natureza
E todo ambientalista ameaçado;
E cada vítima de bullying indefesa;
E cada transexual crucificado;
E cada puta, cada travesti;
E cada louco, e cada craqueiro;
E cada imigrante do Haiti;
E cada quilombola e beiradeiro;

Pelo trabalhador sem moradia,
Pelo sem-terra e pelo sem-trabalho;
Pelos que passam séculos ao dia
Em conduções que cansam pra caralho;
Pela empregada que batalha, e como,
Tal como no Sudeste o nordestino;
E a órfã sem pais hetero nem homo,
E a morta num aborto clandestino.

Impelidos pelos ventos
Dos acontecimentos,
Louvamos os mais diversos
Movimentos libertários
Numa cascata de versos
Sociais e solidários
Duma canção de protesto
Qual “Canção de Redenção”,
Uma canção-manifesto,
Canção “Manifestação”…

… Por todo ser humano ou animal
Tratado com desumanimaldade;
Por todo ser da mata ou vegetal
Que já foi abatido ou inda há-de;
Por toda pobre mãe de um inocente
Executado em noite de chacina;
Por todo preso preso injustamente,
Ou onde preso e preso se assassina;

Pelo ativista de direitos perseguido
E o policial fodido igual quem ele algema;
Pelo neguinho da favela inibido
De frequentar a praia de Ipanema;
E pelo pobre que na dor padece
De amor, de solidão ou de doença;
E as presas da opressão de toda espécie,
E todo aquele em quem ninguém mais pensa…

E proclamamos que não se exclua ninguém
Nem nada senão a Exclusão.

Dando à vida e à alma grande
Um sentido que as expande,
Cantamos em consonância
Com os que sofrem ofensa,
Violência, intolerância,
Racismo, indiferença;
As Cláudias e Marielles,
Rafaeis e Amarildos
Da imensa legião
De excluídos do Brasil, do S-
Ul ao norte da nação.

E proclamamos que não se exclua
Ninguém senão a Exclusão.

Intérpretes: Ana Cañas, As Bahias e a Cozinha Mineira (Raquel Virgínia e Assucena Assucena), BNegão, Camila Pitanga, Chico Buarque, Chico César, Criolo, Ellen Oleria, Fernanda Montenegro, Filipe Catto, Larissa Luz, Leticia Sabatella, Ludmilla, Luedji Luna, Marcelino Freire, Marcelo Jeneci, Márcia Castro, Paulinho Moska, Paulo Miklos, Pedro Luís, Péricles, Pretinho da Serrinha, Rael, Rico Dalasam, Rincon Sapiência, Roberta Estrela D´Alva, Russo Passapusso, Siba e Xênia França.

Banda: Benjamin Taubikim – Piano Roberto Barreto – Guitarra Baiana Fernadinho beatbox Siba Veloso – Rabeca Marcelo Jeneci – Acordeom Os Capoeira (Mestre Dalua, ContraMestre Leandrinho, Felipe Rosseno e Cauê Silva – Percussão Emerson Villani – Violões e Guitaras Robinho Tavares – Baixo Niack – DJ Samuel Fraga – Bateria

Letra: Carlos Rennó

Música: Xuxa Levy, Russo Passapusso e Rincón Sapiência

Direção: João Wainer e Fabio Braga 

Para mais informações, acesse o site Manifestação.org.

Quarta-feira, 6 de junho de 2018
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