Homens, vocês têm medo de quê?
Quarta-feira, 6 de junho de 2018

Homens, vocês têm medo de quê?

Foto: Documentário “The Mask You Live In*/Divulgação

Diversas vezes já começamos nossa coluna destacando as estatísticas escabrosas sobre violência doméstica e/ou sexual que corporifica e oprime as mulheres no Brasil, fruto de um país patriarcal que insiste em não avançar a partir de seus próprios erros.

Mas hoje, em mais um exercício de sororidade, característico deste espaço, vamos, pela primeira vez, ceder espaço a um homem, justamente o gênero tido por nós como o responsável por toda a opressão e subjugação que sofremos enquanto mulheres. Desde logo, informamos que não o faremos para ouvir o contraponto ao feminismo, afinal não é esse o nosso papel, enquanto feministas, pois como bem sabemos e defendemos, o poder dominante tem muitos espaços de fala e consolidação do status quo. Aqui o objetivo é enxergar no outro, em um exercício de empatia, os males que o machismo também faz, ainda que em menor escala e sob outra perspectiva, a esse gênero: o masculino. E para isso precisamos praticar o respeito ao lugar de fala[1].

Inclusive o tema tem circulado com frequência nas redes sociais. Recentemente viralizou em grupos do Whatsapp fotografias com um menino vestindo uma camiseta preta com a frase: “Com mãe feminista eu não cresço machista” e reflexões como: “Que ele aprenda a não se sentir inferior quando uma menina for melhor que ele em alguma habilidade específica – já que ele entende que homens e mulheres são igualmente capazes intelectualmente e não é vergonha nenhuma perder para uma menina em alguma coisa”. Mas que, na verdade, decorre de um texto escrito por Sílvia Amélia de Araújo, em 2016, intitulado “Pelo Direito dos Meninos[2]. Apesar de, neste caso, existirem críticas pertinentes de que educar meninos em pé de igualdade com meninas é papel de homens e mulheres, ainda assim a iniciativa é salutar pois nos ajuda a pensar o quanto destruir a estrutura do patriarcado depende, ao mesmo tempo, do empoderamento feminino e da mudança de mentalidade dos homens e, portanto, de uma nova forma de educar meninas e meninos.

Além de outras iniciativas como a campanha promovida pela ONU Mulheres e o portal PapodeHomem, também em 2016, difundido pela  hashtag “#elesporelas” e o documentário “Precisamos falar com os homens?” a partir de uma pesquisa qualitativa realizada em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, com o objetivo de despertar nos homens a urgência do debate quanto à igualdade de gênero (na medida das nossas desigualdades). E do documentário norte-americano “The Mask you live in[3], em que, entre outras abordagens, narra os malefícios do culto à masculinidade a garotos e adolescentes, homens em formação.

Em todos os casos o que se pretende demonstrar não é apenas o efeito deletério de  forjar personalidades (de menino, adolescente e homem) “destituídas” de medos, verdadeiras máscaras de “machos”, mas o quanto se torna urgente debater o tema, para que possamos entregar às futuras gerações de meninas e meninos, uma sociedade verdadeiramente igual.

A partir dessa perspectiva que, divido, ou melhor, empresto a coluna, para que um homem possa trazer narrativas do seu lugar. E assim sejamos capazes de ampliar  a reflexão daquilo que eu[4], uma feministas em construção e mãe de dois meninos , tenho entre minhas inquietações do dia a dia: como o machismo também faz muito mal aos homens e da responsabilidade de todxs de desconstruir esse modelo de dominação.

 Campanha ONU Mulheres

 

Com vocês o amigo e “sororo”[5] Gustavo Tadeu Alkmin:

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.

(“Tabacaria”, Álvaro de Campos; Fernando Pessoa)

 

No meu cotidiano, costumo correr na rua logo pela manhã. Ainda no escuro do quarto, pego displicentemente qualquer bermuda e camiseta no armário, verificando apenas se são propícias para a atividade física. Saio, então, focado apenas no prazer da corrida. E ponto. Pois bem, dias destes, estava a ler um blog sobre corridas de rua, quando me deparo com a entrevista de uma corredora amadora. Lá pelas tantas, diz ela da preocupação na escolha da roupa que irá usar. Não por vaidade, mas se o short ou a camiseta serão ou não “provocativos”. A depender do local ou hora, pode ser motivo para cantadas grosseiras, abordagens ousadas ou intimidatórias. Dei-me conta, então, do quanto o universo feminino envolve aspectos que os homens simplesmente ignoram.

Lembrei-me do episódio quando chamado para escrever para esta coluna. Homens e mulheres vivendo em mundos paralelos.

Tratar de machismo sob a ótica masculina não é tarefa qualquer. A primeira tendência é defensiva. Ou de negação. Somos formados e forjados em torno do machismo. Nascemos com papéis pré-definidos: a mulher é delicadeza, sensibilidade, maternidade; o homem é poder, dureza, autoridade. Homem não chora, mulher acalanta. São perfis construídos por meio de mensagens subliminares, na família, na escola, na mídia, no lazer, nos esportes, nas relações sexuais, nas brincadeiras infantis. Invariavelmente, ele é forte, ela é sexo frágil. Ele segura a onda; ela, ao revés, se deixar tomar pela emoção, beirando à histeria. Ela sempre linda e disponível; ele, de preferência, com o olhar frio e misterioso do galã do cinema. Premissas sacramentadas pela conclusão: são diferenças que se complementam.

Assim cresci, cercado por estas imagens e conceitos que me foram transmitidos como verdades imutáveis, formadoras da máscara da hipermasculinidade, que me situava no mundo, fornecendo uma espécie de zona de conforto. Com ela, a sensação de dominador, capaz de competir com gana, em busca do sucesso, do poder, e da hipersexualidade – ignorando a efemeridade deste sucesso, um vazio jamais preenchido.

Difícil dizer quando percebi que o dominó que estava a vestir era errado. Cansado, talvez, por só me (re)conhecerem por quem eu não era. Ou, quiçá, por me conscientizar do aspecto político envolvido na construção histórica de um machismo estimulado pelo sistema capitalista, caixa de ressonância de uma lógica perversa em que todos perdem: ao mesmo tempo em que se apropria da mulher, o homem é apropriado pelo Estado – como soldado na guerra, ou como trabalhador na produção [6].  

O mais provável, porém, é que o marco da mudança do meu olhar tenha sido o nascimento de minha primeira filha, consumado com o da segunda, logo em seguida. O tempo – a criação – consumou a empatia. Com ela, outras preocupações jamais antes cogitadas, que povoam minha mente. O assédio explícito no ônibus, o jeito guloso do patrão, um eventual marido violento, a discriminação, a zoação, a rejeição só pelo fato de ser mulher. O estupro. Hipóteses que me metem… medo.

Medo, palavra tão íntima das mulheres (inclusive para enfrentá-lo). E que os homens têm tanto receio em pronunciá-la. Expressa emoção. E transparecer emoções é sinônimo de fraqueza – outra das verdades do homem mascarado. Crie filhas, e destrua a ilusão de que o mundo masculino se basta e dá ao pai tudo que ele queira ter. Foi assim comigo. Quis, então, tirar a máscara. Ela era – ainda é – desconfortável. Implica não demonstrar fraqueza. Camuflar sensibilidade. Limitar a paternidade aos protótipos passados de geração em geração. Rir das piadas machistas, mesmo não achando graça delas. Mostrar-se forte, ainda que se sinta fraco. Contar para os amigos quantas e quais mulheres já pegou, e se gabar disso. Achar brilhante a máxima “meu lado feminino é sapatão”, anunciada em alto e bom tom nas rodas de bar. Não pedir ajuda.

Por trás da hipermasculinidade que, supostamente, confere poder, o homem se amordaça.

Alterar os papéis indica renascimento, reconstrução. A indagação que emerge é: mudar para que? Apenas para atender às feministas? A resposta está no olhar que destinamos ao mundo em que vivemos, e aos efeitos do machismo, relação de dominação que impele o homem a se reprimir íntima e internamente, tendendo a explodir, cedo ou tarde – pela violência, mergulho nas drogas, no álcool, pelo suicídio[7].

Livrar-se da máscara causa estranheza. Provoca dilemas. Tantas vezes, percebi o olhar reprovador porque não brincava de luta com meu filho, dando e recebendo socos a torto e a direito. E que ninar o bebê era tarefa da mãe. Tantas vezes, fui alertado para ser mais agressivo – “o mundo é competitivo”, dizem. Tantas vezes ainda sou cobrado por não ser um padre patrone, pois isso significa abrir mão da minha autoridade. Já me disseram que precisava proteger mais, garantir a segurança da minha família, mostrar que “há homem na casa”. Ou que deveria ter demonstrado valentia, quando não achava que era caso para valentia.

O meio cobra uma conta. Os dilemas assombram. Pressionam. Que, entretanto, logo se diluem, vão até a página dois. Superá-los indica que não preciso, em qualquer circunstância, ser sempre forte, e que não sou obrigado a conter sentimentos. Posso chorar – em público, inclusive. Não tenho que suportar o mundo sobre meus ombros. Humanizo-me. Inclusive, como pai.

Pois a certa altura, já me achando o cara avançado, não machista, meu filho, um pequeno à época, constatou: “meu pai não chora”. A sentença ruiu minha arrogância. Mesmo com toda crítica e autocrítica, eu tinha resquícios da máscara. Ainda tenho. Deles, reconheço, não consigo me livrar com facilidade. Pequenos gestos me traem, induzidos por práticas externas que insistem em não mudar. Não por acaso, me surpreendi com a fala da corredora. Fiz de mim o que não soube.

A alteração deste quadro passa pelas mulheres, e sua sororidade, mas também passa pelos homens. E não é apenas conceitual. Não basta querer mudar; é preciso não ter medo da mudança. Eis a questão. No teatro em que vivemos, a máscara da hipermasculinidade gruda à nossa cara. Retirá-la, assim como navegar, é preciso. Mesmo longe de ser uma maioria, gerações masculinas de ontem e de hoje estão atentas à pauta feminista e começam enfrentar os dilemas para, enfim, reequilibrar os pratos da balança, nesta nossa sociedade tão desigual e doente. Não é tarde – ainda; mas que venha logo, antes que envelheçamos, diria o poeta.

Mesmo correndo o risco de se expor mais, a mudança repercute positivamente para o homem, tanto na sua própria vida, como na de seus filhos e, indiretamente, na das mulheres, semeando assim uma geração com menos amarras, onde o choro é livre: para todos!

Vale a pena arriscar.

Gustavo Tadeu Alkmim é Desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região. Presidente da Anamatra – Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho – 1999/2001. Conselheiro do CNJ – 2015/2017.  Membro da AJD – Associação de Juízes para a Democracia. Pai de Maria Gabriela, Isabela e João Pedro.

# feminismo:

#1 Por que o feminismo é tão necessário?

#2 Por que o feminismo é tão importante no contexto atual brasileiro?

#3 O que é Sororidade e por que precisamos falar sobre?

#4 Um pouco da história de conquistas dos direitos das mulheres e do feminismo

#5 Violência contra mulheres, violência doméstica e violência de gênero: qual a diferença?

#6 Pelo fim da cultura do estupro

#7 Do que estamos falando quando queremos legalizar o aborto?

#8 Tirem o racismo do feminismo: mulheres negras vão passar

#9 Transfeminismo: a pauta que nos ensina ir além do binarismo homem e mulher

#10 Meu cérebro, minhas ideias

#11 Homens, vocês têm medo de quê?

#12 Os problemas de um feminismo para consumo imediato

 

  1. PS1: Ao conversarmos sobre o tema a ser tratado na coluna sugeri ao amigo que assistisse ao documentário, aqui várias vezes mencionado, com a família, pois tem um filho adolescente. Minha amiga sorora Juliana, esposa do Tadeu, me confidenciou que depois, antes de deitar, o filho os beijou e disse para o pai e para a mãe: “eu te amo muito”.
  2. PS2: Pegando nossa coluna de volta (rs), encerramos com o aprendizado trazido por essa nova geração: há vários caminhos, vários discursos e um deles é o do diálogo e da empatia. Vamos juntxs? Sem máscaras?

[1] Márcia Tiburi, ao falar de lugar de fala, nos diz que: “Um xamã ou cacique, embora tenha um nome próprio, ao falar com os brancos fala de si como “índio” porque quer se fazer entender pelos não-índios. Assim as mulheres e as feministas que já desconstruíram o natural, também falam de si com intenção política, e também didática, de fazer o outro entender. Foi a partir daí que se começou a sustentar a ideia de um lugar de fala atualmente em voga na vida contemporânea. Ora, uma característica de nossa época é a sustentação da singularidade, a forma subjetiva que expressa a existência de cada um como um ser de diferença. Por meio da singularidade fica claro que cada um quer conquistar um lugar. Esse lugar tornou-se, pela auto-afirmação da singularidade que se expressa, um lugar de fala. Os filósofos que escreveram confissões, as pensadoras que levantaram questões sobre os direitos das mulheres, muito antes de dispormos do nome feminismo, ocuparam o lugar metodológico da fala. Até mesmo Descartes ao escrever “penso, logo existo”, fez uso de um lugar de fala. O lugar de fala é fundamental para expressar a singularidade e o direito de existir. Deturpado, ele também é reivindicado por muitos cidadãos autoritários que reivindicam expressar preconceitos e, em sua visão deturpada, o fazem democraticamente. Esquecem que o que destrói a democracia não é democrático, mas isso é outro problema <https://revistacult.uol.com.br/home/lugar-de-fala-e-etico-politica-da-luta/>. Para saber mais, leia também O que é lugar de fala?, da filósofa e feminista negra Djamila Ribeiro <http://www.justificando.com/2017/11/13/djamila-ribeiro-lanca-livro-o-que-e-lugar-de-fala-nessa-terca-feira-em-sao-paulo/>. Acesso em 05 de junho de 2018.
[3] <https://www.youtube.com/watch?v=hc45-ptHMxo>. Acesso em 05 de janeiro de 2018.
[4] ELINAY MELO. É Juíza do Trabalho do TRT da 8ª Região. Mestranda no PPGD de Direito, Direitos Humanos e Desenvolvimento Regional do CESUPA-PA, Diretora de Direitos Humanos da AMATRA 8 (biênio 2018/2020) e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia) e de seu conselho de administração (2016/2019). E mãe de dois meninos, João Pedro (11 anos) e Antônio (quase 06 anos), que lhe exigem o exercício diário de educá-los com espírito de solidariedade e empatia com o outro, respeitando as diferenças e, principalmente, as mulheres.
[5] Como as “sororas” nomeiam carinhosamente os homens que são abertos a discutir o machismo a partir de outra perspectiva e na prática lutam para desconstruí-lo dentro de si e ao seu redor.
[7] Camaleão, o capitalismo se metamorfoseia, incluindo a mulher na produção, submetendo-a a duplas jornadas – ou seja, dupla exploração.
*O documentário “The mask you liv in” revela números impressionantes que vinculam a repressão às emoções aos casos de abusos sexuais, ao uso exacerbado de drogas e bebidas, e aos suicídios.

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Quarta-feira, 6 de junho de 2018
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