A escola não é sexualmente neutra: A singularidade da condição das crianças transexuais
Quinta-feira, 7 de junho de 2018

A escola não é sexualmente neutra: A singularidade da condição das crianças transexuais

Foto: Mídia Ninja

A escola tem como uma de suas principais características ser um lugar de encontros, um lugar de contato com o outro. Desde sempre a questão da diversidade e do contato cultural esteve presente na humanidade, contudo, agora, ele se coloca de modo intenso nas sociedades modernas[1]. E a escola, enquanto instituição, acaba por projetar a “cultura dominante” como base comum, gerando um desafio próprio no que tange a articulação entre igualdade e diferença, a pluralidade sociocultural e o processo educativo, as relações entre o multicultural e a educação, o cotidiano escolar e a formação de professores; e em razão disso, como se expressam a diversidade, a intolerância e o tratamento desigual do diferente.

Infelizmente, como a escola não é um espaço culturalmente neutro, muitas das estratégias adotadas por ela conseguem lidar com a diversidade, mas não com a diferença. E é justamente sobre esse espectro que esse breve texto se debruçará: as crianças transgênero no ambiente escolar. Mais especificamente, como o fato desse ambiente, muitas vezes, não saber lidar com isso acaba se refletindo prejudicialmente no aprendizado dessas crianças e gerando problemas que elas iram carregar por toda a vida.

Existe, entretanto, uma grande dificuldade metodológica em torno desse tema, em decorrência da delicadeza do assunto, sua não aceitação e de qual a melhor forma para se abordar isso com crianças. Assim, a pouca bibliografia sobre o tema, opta por trabalhar via entrevistas, resgate de memorias e recortes de histórias de vida, com adultos sobre sua fase infantil[2]. Esse texto visa sair em defesa de um ambiente escolar, tanto a instituição como professores, preparado para a diferença.

As características atribuídas aos indivíduos com base no sexo se apresentam enquanto construção social e cultural. Desde à infância, os sujeitos são direcionados para um enquadramento com base nessas características corpóreas, eles são vigiados pela família, escola, mídia, etc de forma a não apresentar ambiguidades e se ajustar a comportamentos percebidos como ‘normais’. Tendem a neutralizar comportamentos, atitudes e gestos. Essencializam e apontam como devem ser as relações entre meninos e meninas, e isso, acaba por se refletir no ambiente escolar e familiar.

Assim como na nossa sociedade em geral, a escola também não é sexualmente neutra. Tem-se um discurso de suposta neutralidade da instituição, mas esse discurso não se realiza concretamente, principalmente na esfera cultural, sexual, de gênero e de raça. Consequentemente, o silenciamento da escola tende a produz efeitos sobre a realidade dos sujeitos que participam da dinâmica escolar. Esses sujeitos, que não se encaixam nas normas socialmente impostas, são tratados como “não sujeitos”, o que leva a uma implícita declaração de que são inferiores e merecem desprezo. A instituição que deveria educar, ensina aos que são marcados como estranhos a silenciar sobre si mesmos, ao invés de ensinar que o que é tido como normal e natural, em termos de sexualidade, remete a uma construção histórico-social, que varia de acordo com os interesses sociais e políticos[3]. Assim, o espaço escolar se apresenta como lugar de discriminação hétero-sexista, vigilante contra quem não se enquadra nos padrões binários e hegemônicos de gênero e de sexualidade[4].

A transexualidade infantil além de ser um assunto delicado, é algo encoberto pela falta de informação e pelo despreparo, inicialmente vindo dos pais e, posteriormente, vindo da escola e da sociedade em geral. Do lado da criança, a dificuldade se dá pela confusão em não se enxergar igual as demais crianças do sexo pertencente. E essa não aceitação de si mesmo, por vezes, causa na criança o sentimento de revolta, frustração e rejeição. As experiências estigmatizadas ocasionam medo e isolamento. Quando a criança não encontra meios favoráveis para expressar seus desejos e sua essência ela se torna fechada para expectativas futuras, repercutindo não apenas na sua vida pessoal, mas também profissional e podendo ocasionando outros traumas[5] e, em casos mais extremos, o suicídio na fase da adolescência ou adulta.

De modo geral, as crianças percebem muito cedo a sua condição de não adequação ao gênero com o qual nasceram, na média de 5 a 8 anos[6], porém, elas não entendem claramente o que se passa com elas, justamente por essa não aceitação estar enraizada e o tema ser pouco divulgado no meio social[7].

A pesquisadora Natacha Kennedy[8], promoveu ampla pesquisa sobre o tema na Inglaterra, que serve como base comparativa para várias outras realidades, tais como a brasileira. Ela afirma que as pessoas trans, especialmente se crianças, representam potencialmente um “grupo estranho” e cuja existência poderia tornar insustentável as visões mundiais de gênero amplamente aceitas. Em resposta, existem as tentativas de apagamento daquilo que parece constituir um “grupo inconveniente” de subalternos (normalmente, via tratamento médico-psiquiatra). E ela continua, apresentando como as normas de gênero são mais impiedosamente policiadas no mundo das crianças, desde o nascimento e, comumente, acarreta insucesso aos que não se adaptam. Importante ressaltar também que o trabalho da autora, em particular, apresenta um desafio em potencial ao conceito de gênero de Judith Butler.

Para Kennedy, as crianças são auto-aprendizes em identidades de gênero à medida que crescem, podendo ser trans aparentes e não aparentes. No entanto, se as crianças não são trans aparentes, é bem possível que elas parecerão serem aprendizes em um gênero que (total ou parcialmente) não é o delas. As crianças transgênero não aparentes podem ainda explorar mentalmente, e em suas imaginações, aspectos do gênero com o qual mais se identificam. Isso não significa, por exemplo, que meninas trans não usem roupas de “meninas” ou participem de algumas atividades femininas, isso significa que, sempre que possível, elas tendem a fazê-lo em segredo.

A existência de crianças transgênero e suas experiências reais levantam questões que não podem mais ser ignoradas ou apagadas. Contudo, parece que a maioria das escolas não apoia crianças trans. As pressões feitas em crianças trans para obedecer a um sistema de gênero, que é incapaz de lidar com este aspecto da diversidade humana e que as obriga a adotar expressão de gênero inadequado, são tão intensas que causam problemas psicológicos que se manifestam até a idade adulta.

Corroborando com estes apontamentos, Jaqueline Gomes de Jesus[9], em uma pesquisa sobre o contexto brasileiro, destaca também que memórias da infância apontam para experiências comuns da vivência da transgeneridade entre os diferentes sujeitos pesquisados por ela, com aspectos negativos, como o sentimento do “estranho”, remetendo a uma internalização, pelas crianças, do discurso binarista de gênero que busca controlar e evitar que os limites atribuídos aos sexos biológicos sejam rompidos. Com isso, a aparência se torna algo fundamental (por isso da insistência no que se refere a roupas, corte de cabelo, etc.).

Assim, essas crianças, patologizadas e invisibilizadas, vivenciam o estranhamento de si como um obstáculo a ser enfrentado solitária e silenciosamente, e podendo ser somente retomada, a partir de um doloroso processo de autoaceitação, ao longo de anos ou décadas de amadurecimento psicoafetivo e intelectual. A autora defende que qualquer naturalização das questões sociais deve ser questionada, e nesse aspecto, repensar e rediscutir a forma adulto-cêntrica como se trata atualmente o tema da transgeneridade e de adotar-se uma visão sobre a criança enquanto sujeito ativo.

O custo humano, especialmente para as pessoas transgênero em si, de manter a quimera de um gênero binário imutável e exclusivo está se tornando cada vez mais evidente. A internalização de auto-ódio, culpa, dúvida e baixa autoestima na infância afeta as pessoas trans ao longo de suas vidas[10] e, consequentemente, afetam o processo de aprendizagem delas, levando até mesmo, futuramente, ao abandono dos estudos por conta da opressão.

Ao classificar os sujeitos, a sociedade acaba estabelecendo divisões e atribuindo rótulos que querem fixar as identidades e, consequentemente, os comportamentos vinculados a estes rótulos. Esses estigmas acabam por definir e separar sujeitos entre “normais” e “anormais” das formas mais sutis às mais violentas, perpetuando e legitimando diversas formas de preconceito e discriminação[11], além da ideia de transexualidade como sendo uma patologia que deve ser tratada.

O espaço escolar, no entanto, pode ser um locus relevante para o desenvolvimento de uma visão mais aberta, democrática e respeitosa de como lidar com as diferenças que tangem à vida sexual e afetiva. O direito à educação e o compromisso de formar cidadãs e cidadãos não será plenamente alcançado sem o reconhecimento das diferentes formas como as pessoas vivem suas relações afetivo-sexuais e suas identidades de gênero[12].

Lays Bárbara Vieira Morais é Mestranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Goiás. Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás. Especialista em Comunicação e Multimídia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Membra do GESF (Grupo de Estudos em Sociologia Fiscal) e do Coletivo Metamorfose.


[1] GUSMÃO, Neusa Maria de. Antropologia, Estudos Culturais e Educação: desafios da modernidade. In: Revista Pró-Posições, v. 19, n. 3(57) – set. /dez. 2008.
[2] CRUZ, Tania Maria; SANTOS, Tiago Zeferino dos. Experiências escolares de estudantes trans. In: Revista Reflexão e Ação, Santa Cruz do Sul, v. 24, n. 1, p. 115-137, Jan./Abr. 2016. ; JESUS, Jaqueline Gomes de. Crianças trans: memórias e desafios teóricos. In: Conferência: III Seminário Internacional Enlaçando Sexualidade, Universidade do Estado da Bahia, Campus I, Salvador – BA, 15 a 17 de maio de 2013. ; KENNEDY, Natacha. Crianças Transgênero: mais do que um desafio teórico. In: Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN, v. 11, n. 2, Dossiês 21, tradução de Valéria Amado, 2010.
[3] OLIVEIRA, Amurabi. A escola, nós e os outros: diferença e alteridade na realidade escolar. In: Cadernos Pagu (40), janeiro-junho, p. 359-368, 2013.
[4] CRUZ, Tania Maria; SANTOS, Tiago Zeferino dos. Experiências escolares de estudantes trans. In: Revista Reflexão e Ação, Santa Cruz do Sul, v. 24, n. 1, p. 115-137, Jan./Abr. 2016.
[5] RODRIGUES, Cássio Moreira; BARROS, Sulivan Charles. Transexualidade na infância: reflexões a partir do documentário “Meu eu secreto – histórias de crianças trans”. In: Revista Bagoas, n. 14, 2016, p. 297-320.
[6] JESUS, Jaqueline Gomes de. Crianças trans: memórias e desafios teóricos. In: Conferência: III Seminário Internacional Enlaçando Sexualidade, Universidade do Estado da Bahia, Campus I, Salvador – BA, 15 a 17 de maio de 2013.  ; KENNEDY, Natacha. Crianças Transgênero: mais do que um desafio teórico. In: Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN, v. 11, n. 2, Dossiês 21, tradução de Valéria Amado, 2010.
[7] RODRIGUES, Cássio Moreira; BARROS, Sulivan Charles. Transexualidade na infância: reflexões a partir do documentário “Meu eu secreto – histórias de crianças trans”. In: Revista Bagoas, n. 14, 2016, p. 297-320.
[8] KENNEDY, Natacha. Crianças Transgênero: mais do que um desafio teórico. In: Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN, v. 11, n. 2, Dossiês 21, tradução de Valéria Amado, 2010.
[9] JESUS, Jaqueline Gomes de. Crianças trans: memórias e desafios teóricos. In: Conferência: III Seminário Internacional Enlaçando Sexualidade, Universidade do Estado da Bahia, Campus I, Salvador – BA, 15 a 17 de maio de 2013.
[10] KENNEDY, Natacha. Crianças Transgênero: mais do que um desafio teórico. In: Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN, v. 11, n. 2, Dossiês 21, tradução de Valéria Amado, 2010.
[11] RODRIGUES, Cássio Moreira; BARROS, Sulivan Charles. Transexualidade na infância: reflexões a partir do documentário “Meu eu secreto – histórias de crianças trans”. In: Revista Bagoas, n. 14, 2016, p. 297-320.
[12] OLIVEIRA, Amurabi. A escola, nós e os outros: diferença e alteridade na realidade escolar. In: Cadernos Pagu (40), janeiro-junho, p. 359-368, 2013.
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