Uma experiência coletivA
Quinta-feira, 14 de junho de 2018

Uma experiência coletivA

Foto: Pinterest/Ello Illustrations

Não fosse a inteligência
Da semelhança
Seria só meu o meu amor
Seria só minha a minha dor
Bobinha e sem bonança
 seria sozinha minha esperança”

Elisa Lucinda

 

Igualdade: um dos princípios básicos da democracia. Por que, então, em pleno século XXI, ainda causa estranheza quando mulheres ocupam cargos de representação, de comando, de poder? Apesar da intensa presença e participação feminina ao longo da nossa história, na qual mulheres protagonizaram desde batalhas até a assinatura de Leis decisivas para o País e, mais recentemente, consolidaram-se em cargos eletivos, carreiras públicas, comando de associações e de movimentos populares, por que uma mulher no topo ainda incomoda?

Apesar de não ser novidade, quando uma mulher desponta como liderança ou figura de poder, de comando, seu protagonismo causa no mínimo desconforto porque contraria algo muito enraizado em nós e que liga instintivamente esses lugares sociais aos homens, a figuras masculinas.

Por essa razão, o movimento de libertação do feminino deve ser acompanhado de um desvelar de sentidos; de uma atitude que busque identificar o que está implícito, não tematizado nas práticas discursivas.

Revelar o não-dito, aquilo que se esconde atrás de falas aparentemente inocentes (como, por exemplo, a recusa de alguns de usar a designação Presidenta ao invés de Presidente), mas que professam um forte discurso, produzido por aqueles insatisfeitos com a perda de poder e espaço na vida pública, antes ocupada quase exclusivamente pelo masculino.

Chimamanda Ngozi Adichie[1] aponta que: “…nosso mundo está cheio de homens e mulheres que não gostam de mulheres poderosas. Estamos tão condicionados a pensar o poder como coisa masculina que uma mulher poderosa é uma aberração. E por isso ela é policiada. No caso das mulheres poderosas, perguntamos: ela tem humildade? Sorri? Mostra gratidão? Tem um lado doméstico? Perguntas que não fazemos a homens poderosos, o que demonstra que nosso desconforto não é com o poder em si, mas com a mulher. Julgamos as poderosas com mais rigor do que os poderosos. …”.

Na verdade, faz muito pouco tempo que a participação das mulheres na magistratura é aceita sem questionamentos expressos ou vedação legal, valendo lembrar que, na década de 1940, quando era nomeada a primeira Juíza do Trabalho brasileira, constava em um Boletim do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, de 1942, que “a mulher ativa não se satisfaz com a profissão; ela sente a necessidade do lar” e outro, de 1943, considerava que “as mulheres são ‘mais tímidas, menos lógicas quanto os homens, menos objetivas e mais subjetivas, embora tão inteligentes’”.[2]

Leia também: Sônia Taciana Sanches Goulart: a primeira Juíza do Trabalho do Brasil

Essas portarias não estão mais em vigor, mas os conceitos que elas carregam, infelizmente, ainda estão entre nós, especialmente o de medir a atuação da mulher na esfera pública pela régua do homem, ou seja, a mulher até pode ocupar espaços fora do lar, mas desde que seja com a “racionalidade” e a “objetividade” que o mundo masculino espera.

Assim, se já é ousado uma mulher ocupar o lugar de comando, o que dirá quando essa, ou melhor, essas mulheres resolvem dispensar o modelo tradicional de um único líder? Do poder concentrado num único indivíduo.

Foi o que fizeram as mulheres da AJD no Rio de Janeiro. Pela “ColetivA”, cinco mulheres, juízas estaduais e trabalhistas, passaram a coordenar a Regional do Estado, com a concepção de que as mulheres podem e devem utilizar modelos tradicionais sem que isso cause constrangimentos ou desconfianças, como também podem e devem trazer formas criativas de gerir o coletivo.

Nessa perspectiva, a mulher consegue ancestralmente bem dividir o poder, assim como partilhava os cuidados da terra, da prole, da habitação seja com mulheres do mesmo clã, seja com as demais mulheres da tribo ou da vila. No mundo urbano e contemporâneo o verbo dividir continua a representar uma realidade para as mulheres que separam seu tempo entre trabalho, casa e família.

Dividir e indivíduo são palavras que compartem a mesma raiz indo-europeia – weidh – e trazem daí a beleza de outro significado que transcende a separação. Como dividir poder, tarefas e atribuições sem anular ou suplantar a individualidade de cada um? Nesse caminho, o espírito feminista de abertura dos associados regionais (homens e mulheres) foi extremamente importante para que a ColetivA caminhasse adiante.

A comunhão de interesses mostrou-se fundamental para o desenvolvimento da proposta, ainda que se enfrentem egos, conflitos e mal-entendidos, normais em qualquer rede de relações humanas. O convívio partilhado estrutura o propósito de se seguir em frente, onde o principal se apresenta na valorização do melhor de cada uma: a habilidade própria, a disponibilidade de tempo, a facilidade de acesso, a criatividade, a amplitude de contato e articulação. Cada coordenadora possui estas características em si e traz para o espaço comum aquilo que tem de melhor, por um pensamento maior que procura sublimar a exposição pessoal para alcançar o comum, o coletivo e o comunitário.

As decisões internas são tomadas por consenso e dentro da viabilidade de tempo e urgência procura-se distribuir entre os demais associados a cooperação direta na elaboração das notas associativas, na participação em encontros presenciais e na distribuição de atividades por área de interesse.

Essa forma de co-construir a vida associativa revela-se profícua, democrática e porque não, mais afetuosa, na medida em que os laços pessoais acabam se estreitando, importando mais a produção conjunta do que o desempenho pessoal de um coordenador.

Tal experiência horizontalizada e democrática, com coordenadoras femininas e feministas compartilhando espaços de representação através de um nome coletivo, surge com a pretensão de sugerir esse modelo como uma alternativa viável e que se harmoniza com a ideia de multiplicidade do humano.

O que nos move, além do combate essencial às ameaças ao Estado Democrático de Direito, pensando no retorno do Brasil para essa condição? Movemo-nos por escavar as profundezas dos preconceitos para eliminá-los de vez: pobres, índios, negros, estrangeiros e o preconceito inerente a todos esses grupos, pela condição de mulher. Cremos que este preconceito não nasce de qualquer fragilidade física ou, muito menos, mental que se aplique para a mulher. Ao contrário, são preconceitos socialmente construídos e economicamente explorados, e que advém pelo fato de a mulher ter detido o poder nas sociedades primitivas.

Nossa proposta não se confunde com o resgate do poder exclusivamente feminino, desde a natureza matricêntrica das sociedades animais, mãe/filho como unidade nuclear universal das espécies mamíferas, ou matrifocais das sociedades primatas. Nossa intenção é questionar os valores da sociedade competitiva de brancos, elitista e patriarcal, considerando as dimensões de afeto e de solidariedade que permeiam a sociedade, mais do que os da eficiência em nome da exploração humana.

O objetivo da Coletiva, e cremos de todas as demais mulheres que se lançam na disputa do poder, é propiciar uma nova trajetória da nossa espécie sobre o planeta, como já disse Rose Marie Muraro[3], “E, através da transformação de nossa consciência, reinventar o próprio mundo”.

Por que contar essa história? Por, infelizmente, ainda haver nela novidade, a novidade de o poder ser exercido pelas mulheres, sem preconceito ou disputas que passam, exclusivamente, por questões de gênero.

Afinal, “É da poeira do cotidiano/ que a mulher extrai filosofia” e por isso sabe que “alguém” é apenas o singular da palavra “multidão” e, assim, a Deusa da Sororidade extirpou de nós o exclusivo, deu-nos outra roupa de indivíduo “ainda maior, embora mais justa”[4] e abrindo mão da solidão da bravura, da solidão virtude e da solidão do comando, sendo diferentes para provarmos a alegria de sermos iguais a toda gente, pretendemos dividir e multiplicar nossa esperança numa verdadeira experiência ColetivA.

ColetivA por:
Cristiana Cordeiro
Daniela Valle da Rocha Muller
Luciana Vanoni
Márcia Quaresma
Raquel Rodrigues Braga

Daniela Valle R. Muller é Juíza do trabalho, colunista do Sororidade em pauta e membra do ColetivA que coordena a AJD-RIO.


Referências:

[1] – “Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto”, São Paulo: Companhia das Letras, pag. 33, 2017.
[2] – Schmidt, Benito Bisso “A Sapateira Insubordinada e a Mãe Extremosa”, in Gomes, Angela de Castro e Silva, Fernando Teixeira da (Org.) “A Justiça do Trabalho e Sua História” – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013.
 [3] – Rose Marie Muraro “A Mulher no Terceiro Milênio – Uma história da mulher através dos tempos e suas perspectivas para o futuro” – : Editora Rosa dos Tempos, 5ª Edição, 1997.
[4] – Lucinda, Elisa “O Semelhante” – Rio de Janeiro: Edição do autor, 1997.
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