Mais uma pessoa transgênero é brutalmente assassinada no Brasil
Sexta-feira, 22 de junho de 2018

Mais uma pessoa transgênero é brutalmente assassinada no Brasil

Arte: André Zanardo

Nesse dia 21 de junho de 2018 começou o inverno no hemisfério sul. Uma nova estação, porém, com velhas notícias: Mais um assassinato de uma transexual no País.

A vítima foi Thalia Costa, e o crime ocorreu na cidade de São Borja, fronteira oeste do Rio grande do Sul.

Thalia foi brutalmente espancada, morta com golpes desferidos por um objeto de madeira. O assassino confesso: O homem com quem estava namorando a menos de 1 mês. Os dois, recentemente, haviam realizado no local do crime um ensaio fotográfico.

Segundo informações de veículos de imprensa local, o acusado confessou o crime, porém não explicou as razões e não demonstrou arrependimento. Imagens de câmeras de videomonitoramento apresentadas à polícia contribuíram para a identificação do indivíduo.

O nome do assassino de Thalia não foi divulgado pelas autoridades, que ainda aguardam o trabalho da perícia para maiores informações. Thalia Costa era conhecida na cidade por seu jeito simpático e por trabalhar em um dos locais mais movimentados da cidade, onde comercializava títulos de capitalização.

O fato de exercer essa profissão demonstra a força de vontade que possuía, visto que é extremamente difícil para uma pessoa trans (travesti, transexual, transgênero) adentrar no mercado de trabalho, mesmo que tenha competência profissional e estudo, pelo preconceito enraizado na sociedade.

Violência de gênero

O Brasil, de acordo com dados divulgados no final de 2016 pela ONG Transgender Europe lidera o ranking de países com mais registros de homicídios e agressões de pessoas transgêneras. Para ter uma ideia do que isso significa, nos últimos anos no Brasil cerca de 870 travestis e transexuais morreram de forma violenta.

Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), apenas em 2017 foram registrados 179 assassinatos de travestis ou transexuais. Ou seja, a cada 48 horas, uma pessoa trans é assassinada no Brasil. Em 94% dos episódios, os assassinatos foram contra pessoas do gênero feminino.

A violência de gênero se caracteriza por atingir grupos vulneráveis na sociedade contemporânea, tais como mulheres, travestis, gays, lésbicas, transexuais e transgêneros, o grupo que se constitui sob a denominação de transgêneros tem ficado de lado pelo preconceito, tanto no campo da ciência, como pela sociedade e autoridades.

No livro “Diversidade sexual, Gênero e Exclusão Social na produção da Consciência Política de Travestis”, Alessandro Soares da Silva e Renato Barboza demonstram que:

As pessoas trans são violentadas, desde a ordem simbólica, por não terem as oportunidades de inclusão social e estarem inseridas na marginalidade e violentadas, muitas vezes, no âmbito físico, seja por policiais ou por clientes, seja por grupos homofóbicos.

O fato de muitos indivíduos nessa situação serem excluídos do convívio de suas famílias faz com que tenham que se sujeitar a condições marginais de sobrevivência. Don Kulick, professor de Antropologia da Universidade de Uppsala na Suécia descreve:

A exposição coloca as travestis em posição vulnerável, alvo fácil do assédio de policiais, motoristas, transeuntes, gente que passa em automóveis e ônibus. Na maioria das vezes, a violência vem na forma de agressão verbal, mas não são raros os casos em que gangues de jovens espancam travestis. Também é comum ver gente que passa de carro lançar pedras e garrafas sobre elas. Algumas vezes chegam a disparar armas de fogo contra travestis em plena rua. Normalmente as pessoas que cometem esses crimes não são identificadas nem detidas. E quando o são, recebem penas leves da Justiça. (2008, p. 47)

A expectativa de vida dos transgêneros é de cerca de apenas 35 anos, segundo dados da ANTRA, ou seja, metade da média nacional.

A secretária de Articulação Política da Antra, Bruna Benevides, afirma que com relação aos casos de violência contra transgêneros a ideia “Não é só matar. É matar, esquartejar. Para expurgar toda e qualquer possibilidade de existência e também de humanidade”.

Toda essa violência escancara o preconceito e o ódio contra pessoas transgêneras. O que se espera é que todas essas mortes não se tornem algo comum, algo aceitável.

Debates de gênero, na mídia, são imprescindíveis para que se promova uma educação cidadã e, para que o diálogo sobre o tema seja encorajado dentro das escolas e dentro do convívio familiar. Assim, o respeito com as diferentes formas de ser e amar brotaria na base da sociedade.

Marcelo Matte Rodrigues é Consultor de Compliance; Membro da Comissão Especial de Estudo de Direito Penal Econômico – CEEDPE do Canal Ciências Criminais de Porto Alegre; Pós Graduando em Gestão Financeira pela Faculdade Metodista de Santa Maria – FAMES e Bacharel em Direito pela Universidade Franciscana – UFN de Santa Maria/RS.


SILVA A. S; BARBOZA R.. Diversidade sexual, Gênero e Exclusão Social na produção da Consciência Política de Travestis. Athenea Digital. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Instituto de Saúde. Brasil.
KULICK, D. Travesti: prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil. Rio de Janeiro/RJ: Ed. Fiocruz, 2008.
FONTE DA NOTÍCIA: http://www.radioculturaam1260.com.br/policia/noticia/geral/rapaz-confessa-ser-o-autor-do-assassinato-de-thalia-costa/5135
Sexta-feira, 22 de junho de 2018
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