Precisamos levar os fascistas mais a sério
Segunda-feira, 25 de junho de 2018

Precisamos levar os fascistas mais a sério

Foto: AFP

Com a mudança da política de imigração em abril, imposta através de decreto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fixando uma prática de “tolerância zero”, em pouco menos de 20 dias, mais de duas mil crianças foram colocadas em campos de concentração infantil naquele país. As imagens que choraram o mundo permitem reconhecer que se tratam de verdadeiros espaços de concentração e aprisionamento de crianças e adolescentes, uma nítida violação de direitos humanos.

Somente após a repercussão negativa que alcançou reflexos internacionais, inclusive com uma mensagem do Papa Francisco condenando a conduta, é que o presidente Trump reagiu para amenizar a situação. Ainda assim, revestiu o seu incomum “anarriê” através da divulgação de uma suposta influência da primeira dama Melania Trump que, logo em seguida, visita um dos campos usando um casaco com os dizeres “eu realmente não me importo” nas costas. Um deboche relatado como mero acidente ou desatenção por sua equipe.

Esta, possivelmente, é a conduta do presidente Donald Trump que causou maior repercussão mundial quando tomamos por critério a violação de direitos humanos, sobretudo por recair sobre crianças. Para além da discussão da conduta criminosa de Donald Trump, inclusive que deveria ter seriamente debatida a possibilidade de responsabilização por crimes contra a humanidade, devemos atentar para o risco iminente – e agora dano concretizado – dos discursos fascistas e da ascensão de representantes do ódio à cargos de poder. Estamos muito mais próximos da realização desse risco do que imaginamos, e precisamos reagir de forma enérgica. A reação começa a partir da compreensão dos problemas e as lições que podemos tirar dessa realidade para o nosso contexto. A seguir, anotamos cinco questões básicas sobre a experiência americana com o novo fascismo para que tomemos como norte.

INão podemos patologizar os fascismos. Nem os fascistas. Desde a campanha agressiva de Donald Trump, talvez pelo efeito surpresa de ouvir discursos de ódio tão abertos e escancarados contra diversas minorias, diversas pessoas começaram a reagir categorizando aquele personagem como “louco”. Como se ser repleto de ódio, desprovido de freios e razoabilidade fosse uma patologia. Donald Trump tem posicionamentos machistas e homofóbicos que defende de forma indireta, sobretudo através da suposta política de anti-establishment e da “crítica ao politicamente correto”, bem como pelo seu vice-presidente Mike Pence que é um esclarecido opositor aos direitos de mulheres e da comunidade lgbti+. Sexista, tem se esforçado para manter os relatos de assédio a mulheres longe da sua imagem. É racista, recebendo forte apoio de movimentos de supremacia branca e sendo denunciado através do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos em razão de posicionamentos racistas contra países africanos. A xenofobia foi o objeto da vez do seu ódio, com a imposição da política de tolerância zero.

Mas, desde quando ser – ainda que de forma extremada e acumulada – machista, homofóbico, sexista, racista e xenofóbico significa que se é louco? A patologização dessas orientações políticas e sociais só serve para isentar de responsabilidade e tratar pessoas, como o Donald Trump, como imunes à julgamentos. De louco ele não tem nada, e, na verdade, deixem os loucos em paz. Pessoas com transtornos mentais não podem ser confundidas com facínoras como ele. Merecem respeito e atenção devida. Ainda que, em razão de alguma patologia, o indivíduo venha a ter episódios de violência, isso não lhe faz uma pessoa portadora e propagadora do ódio.

IIUm louco com poder não é só um louco. É um poder descontrolado. Ainda que existisse qualquer traço de loucura na personalidade do presidente Trump, ele não pode ser considerado isento de responsabilidade. Para além disso, precisamos levar muito a sério quando uma pessoa que propaga o ódio, como ele, consegue qualquer acesso – legítimo – ao poder. Sobretudo, nesse caso, o comando da maior potência mundial – inclusive bélica. Os riscos de um fascista ascender ao poder e ter sob seu comando diversas pessoas, armas, instrumentos e políticas é demasiado grande para ser ignorado, como se costuma fazer com radicais.

IIISeus mandos são executados. O que assusta mais do que as ordens fascístas e violadoras de direitos humanos determinadas por uma figura como Donald Trump é a velocidade com que elas são executadas, fazem efeito, e a morosidade e falibilidade de um suposto sistema de freios em agir. A política de tolerância zero Trump, por exemplo, permitiu que, por dia, aproximadamente duzentas crianças fossem separadas de seus pais e enviadas para campos de concentração infantis. E tal medida só parou por um constrangimento internacional que fez o presidente – ineditamente – recuar. Os dispositivos internos de freios e contrapesos que regulam os poderes entre si não foram ativados, ou não de forma efetiva. O sistema de justiça serviu exclusivamente para reforçar tal medida, legitimando-a.

De forma ainda mais grave, uma ordem de tal natureza conseguiu ser executada em pouco tempo. Campos de concentração infantil existem – ou foram rapidamente adaptados. Uma estrutura para abrigar centenas e centenas de crianças surge no estado do Texas, pois a ordem deve ser cumpridae em nome da própria ordem que deve ser mantida.

Desde que Hannah Arendt alertou o mundo para as atrocidades ocorridas no holocausto judeu pelo regime nazista que a legitimidade do positivismo não ficava tão viva. Em “O Leitor”, de Bernhard Schlink, podemos conceber muito bem qual o sentimento do indivíduo que, inserido no regime totalitário de Hittler, produz e aceita sobre qual o seu papel na produção daquelas atrocidades. Hanna Schmitz (na obra) busca se eximir – interna e externamente – da responsabilização a partir da lógica incapacitante sobre o todo. Pessoas comuns se tornaram executores de medidas de extermínio. No estrito cumprimento do dever legal residiu a ausência de senso crítico, o que se repete agora com a aplicação da política de tolerância zero de Trump.

IVNossos fascistas são ainda piores. Por mais polêmico que seja o presidente Trump, talvez censurado por uma forte equipe que tenta reduzir os danos de suas colocações, talvez por preocupar-se muito mais com questões econômicas do que sociais – e conhecê-las –, a versão americana do fascista em evidência é perigosa, mas não alcança o patamar das nossas versões. Políticos que sequer tem competência para defender estratégias econômicas e se mostram totalmente ignorantes nesse e em outros assuntos, sobem palanques através de discursos exclusivamente de ódio, sendo mais perigosos justamente por essa incapacidade de lidar com uma variedade maior de temas. Se sua única fala é a do ódio, sua atenção estará sempre voltada para isso e toda sua política será odiosa.

VAinda não aprendemos a lidar com os novos facistas. Trump venceu a eleição americana a partir de muitos instrumentos e ferramentas questionáveis, o que tem ocupado, em boa parte, a atenção da sua oposição para tentar deslegitimar e descredibilizar sua representatividade. Sem sucesso ou tardiamente. A exemplo do que ocorre no Brasil, hoje, a ausência de legitimidade e o quase uníssono discurso de reprovação ao governo golpista é insuficiente para derrubá-lo. Não se trata de representatividade. Da mesma forma que a estratégia de ignorar a presença de um fascista, que surge como uma opção presidenciável nos Estados Unidos, o conduziu à escalada ao poder, nos omitir de problematizar a presença de candidatos fascistas e que propagam o ódio como campanha de governo é uma solução temerária.

“O que fazer?” é a próxima pergunta cuja resposta precisa ser construída. “O que estamos fazendo?” é a pergunta atual, e cuja resposta é nada ou não o suficiente. Estamos ignorando a existência de candidatos fascistas e que atraem votos não apenas das pessoas que concordem com a totalidade de suas pautas, mas que se identifiquem, em qualquer medida, com um dos seus nichos de ódio. Estamos fazendo uma estúpida estratégia tal qual quem enfrenta a Terrível Besta Voraz de Traal, de Douglas Adams. Ela é a criatura mais desvairadamente idiota que existe, mas é igualmente perigosa e voraz. Ela supõe que se você não pode vê-la, ela também não pode ver você. Por isso, para enfrentá-la, o aventureiro deve fechar seus próprios olhos, e, assim, ela irá “desaparecer”. É estúpida como um porta, mas muito voraz. Infelizmente, na nossa realidade, fechar os olhos para as nossas bestas não tem surtido o mesmo efeito.

Os efeitos noscivos da política fascista de Trump precisam ser explorados e reproduzidos em nossos cenários hipoteticamente. Precisamos expor as suas violências e atrocidades. Precisamos discutir e construir linhas de defesa e ataque para tais políticas para que, no mínimo, se deixe de idolatrar, patologizar, ignorar ou obedecer os fascistas brasileiros.

Rochester Oliveira Araújo é Mestre em Direito Constitucional e Defensor Público do Estado do Espírito Santo.   

Segunda-feira, 25 de junho de 2018
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