Que Roda foi essa?
Terça-feira, 26 de junho de 2018

Que Roda foi essa?

Foto: Manuela D’Avila/Facebook

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro”. Simone de Beauvoir

O programa “Roda Viva”, no ar há três décadas, é exibido pela TV Cultura de São Paulo com transmissão para todo o Brasil. Já foi, sem dúvida alguma, um dos melhores programas da pobre televisão brasileira. Não somente pelos apresentadores que conduziam a Roda, como pelos entrevistadores/debatedores e, notadamente, pelos entrevistados que se colocam no centro do “Roda Viva”.

Passaram pela “Roda” personalidades marcantes da vida brasileira política e cultural e do mundo: Leonel Brizola, Fidel Castro, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor de Melo, José Saramago, Tom Jobim, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Noam Chomsky, Bibi Ferreira, Mario Vargas Llosa, entre outros.

Contudo, já há algum tempo, o programa perdeu em credibilidade e com certeza em audiência, principalmente, após focar em criticar sistematicamente os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da Presidenta da República Dilma Rousseff. Sem qualquer parcimônia e, muito menos, imparcialidade, o programa se transformou numa “Roda” de ataques aos petistas e aqueles que o apoiam. Os entrevistadores são escolhidos com todo cuidado entre aqueles que fazem parte da grande mídia e supostos intelectuais da direita.

Buscando dar uma aparência democrática, o Roda Viva vem entrevistando pré-candidatxs a presidência da República. No programa de ontem (25/6) foi “entrevistada” a Deputada Federal Manuela D’Avila, pré-candidata a presidência da República pelo PCdoB.

No referido programa, a pré-candidata Manuela D’Avila não foi “entrevistada” pela sua ideologia e sobre o programa de governo de seu partido. Manuela, como bem destacou em nota a Presidenta Dilma Rousseff, foi “alvo de ataques machistas e misóginos”, além de ser interrompida dezenas de vezes pelos supostos “entrevistadores”. Como bem observou a Presidenta Dilma Rousseff “as grosserias contra Manuela no ‘Roda Viva’ são mais uma demonstração da parcialidade de uma imprensa que há muito abandonou qualquer resquício de isenção e imparcialidade, tornando-se uma facção política e partidária”.

Não resta dúvida que a pré-candidata Manuela foi mais uma vítima do machismo, de uma sociedade patriarcal e preconceituosa. Vítima da mesma sociedade que coloca a culpa na vítima pelas agressões sexuais protagonizadas por homens.

A história, como bem observou Simone de Beauvoir[1], mostrou que “os homens sempre detiveram todos os poderes concretos; desde os primeiros tempos do patriarcado, julgaram útil manter a mulher em estado de dependência; seus códigos estabeleceram-se contra ela; e assim foi que ela se constituiu concretamente como Outro. Esta condição servia os interesses dos homens, mas convinha também a suas pretensões ontológicas e morais”.

A trajetória de luta da mulher é longa e árdua. No Brasil a mulher só adquiriu o direito de votar e ser votada em 1932. Se hodiernamente a mulher vem conseguindo ser vista e, pouco a pouco, vencendo a luta contra o preconceito, deve-se aos movimentos feministas e ao feminismo. Ao feminismo, como movimento social, deve-se boa parte destas conquistas, bem como o fato de ter colocado as mulheres no centro do debate político.

Embora representem mais da metade dos eleitores no Brasil as mulheres ocupam menos que 10% das cadeiras da Câmara, atualmente são apenas 51 deputadas Federais. No Senado Federal das 81 cadeiras 12 são ocupadas por mulheres. Apesar de ter uma presidenta mulher, a representação democrática está abaixo dos padrões internacionais.

No mercado de trabalho embora a participação da mulher venha aumentando timidamente – a ocupação formal ainda é bem menor que dos homens – 43% contra 57%. Os salários da mulher chegam a ser de 25% a 30% menor que do homem ocupando a mesma função.

Diante de tudo, principalmente dos ataques ignóbeis perpetrados pelos hipotéticos “entrevistadores” contra a mulher Manuela D’Avila, só resta a direção do programa “Roda Viva” que se retrate publicamente e que dê nova oportunidade a pré-candidata do PCdoB de ser entrevistada – verdadeiramente – por uma bancada isenta, imparcial e que respeite, sobretudo, os direitos humanos.

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Leonardo Isaac Yarochewsky é Advogado e Doutor em Ciências Penais (UFMG).


[1] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Trad. Sérgio Milliet. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

Terça-feira, 26 de junho de 2018
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