Cercas das nações e crise dos refugiados em tempos de Copa do Mundo
Quarta-feira, 27 de junho de 2018

Cercas das nações e crise dos refugiados em tempos de Copa do Mundo

Ilustração: Sarah Grillo/Axios

“Pisada, desonrada, patinando no sangue, coberta de imundície: eis como se apresenta a sociedade burguesa, eis o que ela é. Não é quando, bem alimentada e decente, ela se traveste de cultura e filosofia, de moral e ordem, de paz e de direito, mas quando ela se assemelha a uma besta selvagem, quando ela dança o sabá da anarquia, quando ela sopra a peste sobre a civilização e a humanidade que ela se mostra cruamente como é na realidade.” Rosa Luxemburgo

Desde 14 de junho é realizada na Rússia a Copa do Mundo de Futebol-2018, o maior evento esportivo de dimensão global, organizada pela famigerada Federação Internacional de Futebol (FIFA), um organismo sistematicamente corrupto e que atende aos interesses geopolíticos dos principais mandatários do poder que envolve o futebol e o grande capital. Ao longo das edições da Copa, a propaganda institucional da FIFA preconiza os valores humanísticos da paz universal e a confraternização entre os diversos povos do mundo. Não obstante, a celebração de tais valores pela FIFA não passa de um jogo publicitário repleto de demagogia. Afinal, o evento FIFA de Futebol que reúne 32 seleções nacionais, difundido por centenas de países, transmite uma pretensa harmonia e amizade entre os diferentes povos nos estádios, mas fecha os olhos para a maior crise humanitária desde a II Guerra Mundial: a questão dos refugiados, acirrada inclusive nas cercas das nações do próprio continente europeu.

Segundo o relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) ao final de 2016, cerca de 65,6 milhões de pessoas, foram forçadas a deixar seus locais de origem por diversos tipos de conflitos[1], um número alarmante e crescente ao longo de 2017/2018. As consequências diretas tem sido a precarização da vida desses refugiados submetidos as trágicas tentativas de travessias das fronteiras e as situações degradantes de exclusão e exploração nos territórios recém-aportados, cujo processo tem sido recrudescido pelas políticas segregacionistas explicitadas nas cercas das nações.

Ademais, a crise dos refugiados vem sendo agravada por um conjunto de problemáticas que infere sobre a referida questão. Os conflitos bélicos entre os países capitalistas na busca pelo espolio de mais territórios – a exemplo da Guerra da Síria – aumenta a necessidade do fluxo migratório, assim como a fragilidade das vítimas de guerras e outras catástrofes que se arriscam nas maiores desventuras desses deslocamentos. Nos países receptores, o establishment das classes dominantes tem promovido a pauperização dos refugiados mediante o arrocho salarial imposto pelos patrões e as péssimas condições de trabalho da mão de obra refugiada, inclusive análoga à escravidão em muitos países, a exemplo do Brasil com os bolivianos trabalhadores das marcas têxteis em São Paulo. Sem direito a qualquer tipo de organização de classe, os trabalhadores refugiados são lançados à deriva no sistema capitalista, excludente e explorador por natureza.

Por sua vez, a crítica situação em que vivem as massas de refugiados decorrentes do empobrecimento, miséria e o caos social oriundos da realidade capitalista, ainda é acentuada pelo significativo avanço da ofensiva fascista por grupos da extrema-direita que incitam e promovem a violência étnica em vistas de uma limpeza étnico-racial em seus países. Como parte desse problema, a islamofobia tem se ampliado desde o discurso intolerante até as perseguições militarizadas aos grupos de refugiados muçulmanos automaticamente associados as “ações e seitas terroristas”, em que pese muitos dos atentados ocorridos na Europa e nos EUA tenham tido a participação ativa de seus próprios cidadãos. Tal contexto explica a ascensão de representantes proto-fascistas como Marine Le Pen na França, o presidente estadunidense Donald Trump e Jair Bolsonaro no Brasil.

Mais recentemente, enquanto a grande mídia internacional centraliza a repercussão mundial na espetacularização do Campeonato Internacional da FIFA, ocorre a institucionalização da xenofobia, por meio do ódio classista e racial escancarado na geopolítica dos países imperialistas. Na Europa, percebe-se a intensificação da repressão ostensiva nas trincheiras das cercas entre as nações, resultando no bloqueio de milhares de refugiados desamparados em suas fugas. No que tange aos EUA, a política segregacionista do governo Trump foi ratificada junto a medida de “tolerância zero” aos imigrantes considerados “ilegais”, cujas famílias foram sumariamente detidas e processadas, tendo seus filhos, a grande maioria menores de idade, apartados dos seus pais em um confinamento que nos remonta, em uma similaridade histórica, ao processo do Holocausto promovido por Hitler. No Brasil, os imigrantes venezuelanos, haitianos, sírios e de outras nacionalidades são um alvo constante do ódio destilado pelos grupos de direita, representados pelo presidenciável Jair Bolsonaro, que perseguem os refugiados socialmente vulnerabilizados.

Destarte, a complexidade do dilema posto pela crise humanitária dos refugiados consiste em variadas reflexões que o tema suscita. A princípio, vale ressaltar que a referida crise se tornou uma realidade mais do que inconveniente para a comunidade internacional. Em especial, no âmbito de um mundo dito globalizado,a farsa desta globalização revela-se nas políticas de cercas, fronteiras e muros contra os imigrantes refugiados.

Ora, que integração global é essa que exclui e segrega milhares de homens, mulheres, crianças e idosos refugiados e sobreviventes das tragédias, guerras e catástrofes? Eis, portanto, a real faceta ocultada pela hegemonia mundial e aqui desnudada: a única globalização que interessa ao imperialismo capitalista é a do grande capital e suas mercadorias, em uma dinâmica cruel de dependência e exploração dos países subdesenvolvidos às potências capitalistas. Quanto aos seres humanos, especificamente os mais pobres e desvalidos da classe trabalhadora, os mesmos são submetidos a todo tipo de controle, exploração e cerceamento de direitos e dignidade frente as cercas que dividem as nações.

Outrossim, como pode o ser humano tornar-se ilegal? Afinal, em mote do “combate ao terrorismo” e em “defesa da segurança nacional”, os refugiados constituíram-se em elementos “legais” ou “ilegais”, em uma sistemática do status quo que visa enquadrar e disciplinar a humanidade em uma ordem social estabelecida pelas classes dominantes. Nessa perspectiva, o processo de legalização dos refugiados não propõe um maior controle sobre os eventuais terroristas infiltrados nas multidões, mas sobretudo regulamentar as massas proletárias para a sua adequação na base da exploração capitalista dos países receptores.

Através de um simulacro ora populista-demagógico, ora reacionário, as pretensas lideranças internacionais criam uma cortina de fumaça, cuja aparência dos fatos acerca da crise humanitária dos refugiados visa escamotear a genuína essência deste processo histórico, qual seja: o grande Capital tem sido o mecanismo estrutural e sistemático que conduz a geopolítica global e seus dispositivos de exploração da classe trabalhadora e segregação entre os povos por meio das cercas das nações.

Portanto, o desenlace desta crise pressupõe o combate revolucionário a todos os processos de opressão assentados na estrutura global de base capitalista. Um combate que remete a uma ruptura de paradigmas, capaz de solapar o velho mundo capitalista e suas ideias, e reerguer o ideal emancipatório frutífero em tempos de crises.Assim, a conjuntura requer o urgente e tão necessário internacionalismo proletário, enquanto instrumento de luta e organização da classe trabalhadora para a tarefa de romper com as cercas e fronteiras das nações e construir um mundo novo, onde o comunismo – etapa histórica de plena igualdade social entre os homens seja o norte da humanidade.

Taylan Santana Santos é  Mestrando em História (PPGHIS/UNEB), Pós-graduando em Metodologia Científica (IF Baiano), Historiador (UEFS), Pesquisador da história da ditadura civil-militar na Bahia.


[1]UNHCR. Global Trends, ForcedDisplacement 2016 (UNHCR, 19 de junho de 2017). Disponível em<http://www.unhcr.org/statistics/unhcrstats/5943e8a34/global-trends-forced-displacement-2016.html>. Acesso em: junho de 2018.

Quarta-feira, 27 de junho de 2018
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